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Dólar fecha em queda com Fed aliviando pressão sobre juros nos EUA

***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 24.01.2019 - Still de mão segurando cédulas de dólar. (Foto: Gabriel Cabral/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 24.01.2019 - Still de mão segurando cédulas de dólar. (Foto: Gabriel Cabral/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O cenário positivo no exterior nesta quarta-feira (23) com a expectativa de desaceleração no aumento da taxa de juros dos Estados Unidos amenizou em parte o pessimismo do mercado financeiro doméstico, que segue pressionado pelas preocupações com a transição de governo no Brasil.

No câmbio local, o dólar passou a cair ligeiramente apenas no final da tarde, quando a divulgação da ata da última reunião do Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA) indicou que os membros da autoridade monetária do país avaliam que a taxa de juros poderá subir mais devagar nos próximos meses.

"Uma maioria substancial dos participantes julgou que uma desaceleração no ritmo de crescimento [da taxa de juros] seria apropriada em breve", disse a ata.

O dólar comercial à vista fechou em queda de 0,18%, cotado a R$ 5,3690. No início do dia chegou a subir a R$ 5,4120. Diferentemente da resistência que ofereceu ao real, a moeda americana teve um dia de fraqueza contra praticamente todas as principais moedas internacionais e perdeu ainda mais terreno após a ata do Fed.

O índice DXY, que mede a força do dólar frente as principais divisas globais, caiu mais de 1% no fim desta quarta.

Sinais de que os juros podem perder fôlego nos EUA tiram parte da atratividade do Tesouro americano e investidores levam seus dólares para outros ativos e países e, por isso, o valor da divisa americana cai em circunstâncias como essa.

No início deste mês, o Fed subiu sua taxa de juros pela sexta vez em 2022, sendo que a mais recente elevação foi a quarta seguida de 0,75 ponto percentual, um aumento considerado agressivo para os padrões do país. Isso levou o juro de referência para um patamar entre 3,75% e 4% ao ano.

Ao aumentar o custo do crédito, a autoridade monetária tenta conter uma inflação que, embora esteja perdendo força, ainda está em 7,7% ao ano. O efeito colateral dessa medida, porém, é um crescente risco de recessão e a falta de menções do Fed a isso trazia certo desconforto ao mercado.

"O que chamou atenção, como novidade, foram sinais mais 'dovish' [amenos quanto à intenção de subir juros], como o fato de terem afirmado, pela primeira vez, que esperam uma recessão nos EUA como cenário base, bem como vários participantes usando risco de instabilidade financeira como uma das razões para diminuir o ritmo", comentou Nicole Kretzmann, economista-chefe da Upon Global Capital.

Ainda refletindo a pressão gerada na véspera pela contestação de urnas utilizadas na eleição pelo partido do presidente Jair Bolsonaro e a manutenção da indefinição nas negociações sobre a PEC da Transição, a Bolsa de Valores Brasileira fechou na contramão dos mercados globais.

O Ibovespa terminou a sessão em queda de 0,18%, aos 108.841 pontos, melhorando um pouco no final do dia em relação à mínima de 107.901 registrada mais cedo. Enquanto o índice referência da Bolsa de Valores brasileira cedeu, o indicador parâmetro das ações americanas S&P 500 fechou com alta de 0,59%.

A taxa de juros DI (depósitos interbancários) para 2024, referência para o crédito de curto prazo, atingia a casa dos 14,58% ao ano no final desta quarta, contra 14,38% da véspera. Esse indicador estava em 13,05% no fechamento do último dia 9, véspera do discurso em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) subiu o tom das suas críticas à regra do teto de gastos.

Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos, observou que neste momento o mercado está particularmente atento ao debate entre membros da equipe de Lula sobre a inclusão na PEC da Transição de um texto que retira o teto de gastos da Constituição. Isso permitiria a revisão da regra de forma mais simples no futuro, por lei complementar.

"A credibilidade do instrumento de controle já era baixa, mesmo com uma barreira de esforço parlamentar constitucional, o que será amplamente devastado caso haja a possibilidade de revisão do teto apenas com maioria dos parlamentares", comentou Sanchez.

"O mercado não tem reagido bem com essa transição de governo. Temos também investidores estrangeiros desmontando posições em Bolsa brasileira levando dólares para fora", afirmou Leandro Petrokas, diretor de pesquisa da Quantzed.

A cotação do petróleo Brent, referência para os preços da Petrobras, caía 4,11%, a US$ 84,73 (R$ 457) no início da noite desta quarta. O valor da matéria-prima reagia a uma discussão na União Europeia sobre a imposição de um teto ao preço do petróleo da Rússia, entre US$ 65 e US$ 70, informou a Bloomberg.

Apesar da baixa no valor da matéria-prima, as ações preferenciais da Petrobras sustentaram alta de 0,30% na Bolsa de Valores do Brasil.

Petrokas avalia que o movimento de alta desta quarta da Petrobras é apenas um correção do papel, que perdeu cerca de 30% de valor em duas semanas.

As ações da estatal petrolífera vêm reagindo a notícias de que Lula planeja uma ampla troca no primeiro e segundo escalões da companhia e que pelo menos parte dos elevados dividendos sendo pagos pela estatal a acionistas na onda da alta do petróleo sejam direcionados a investimentos.

A equipe de transição de Lula também quer suspender todos os procedimentos na esfera de óleo e gás, que estão no rol de responsabilidades da Petrobras, inclusive privatizações, como a do gasoduto Bolívia-Brasil.

Sintoma de que a preocupação de que o aumento de gastos públicos conduza o Brasil a um cenário de inflação e juros altos, ações do varejo fecharam em forte queda na Bolsa nesta quarta. CVC e Cielo caíram mais de 7%. Os grupos Natura e Soma cederam quase 5%.