Mercado fechado

Dólar fecha em queda de 2,25% e vai a R$ 5,15

Lucas Hirata e Marcelo Osakabe

A busca por ativos de risco em todo o mundo e a percepção de que o Banco Central adotou uma postura mais cautelosa sobre os rumos dos juros no Brasil garantiram uma sessão de alívio no mercado de câmbio. Em sua terceira queda seguida, o dólar comercial recuou para R$ 5,15 e atingiu o nível mais baixo em uma semana, deixando o real em destaque ante outras divisas globais.

Por aqui, a moeda americana terminou a sessão em queda de 2,25%, aos R$ 5,1517 – mínima desde o último dia 15 de junho quando fechou aos R$ 5,1421. Em uma demonstração da conhecida volatilidade do mercado local, o movimento foi de longe o mais intenso entre as 33 principais divisas do mundo. O peso colombiano, por exemplo, foi a moeda com o segundo melhor desempenho do dia e registrou um ganho de 1,21% contra o dólar.

Embora ainda o mercado esteja longe de um consenso sobre os próximos passos do Banco Central na política monetária, analistas afirmam que a moeda local reagiu a uma postura mais cuidadosa dos dirigentes sobre a possibilidade de testar níveis ainda mais baixos da Selic. Na ata da última decisão de juros, divulgada nesta terça-feira, o Comitê de Política Monetária (Copom) reiterou que o espaço para um eventual ajuste na Selic é residual e destacou a discussão teórica sobre o limite de queda da taxa básica – o chamado “effective lower bound” que, se cruzado, poderia trazer aperto das condições financeiras como pressão no câmbio.

Para Sergio Goldestein, ex-chefe do Departamento de Mercado Aberto do BC (Demab), o real se beneficiou da percepção de que o ciclo de relaxamento monetário terminou ou apenas haverá ajuste residual de 0,25 ponto percentual. Além disso, o mercado contou com um desmonte de operações de proteção - alocações compradas em dólar - que eram casadas a posições aplicadas em juros prefixados ou compradas em bolsa. Tudo isso reforçado pelo ambiente mais favorável a ativos de risco no exterior com queda global do dólar e melhora do fluxo cambial.

“Como o nosso prêmio de risco é maior, a taxa Selic não pode ir para um patamar próximo de zero, dado o risco de gerar condições financeiras mais restritivas ou mesmo estresse desnecessário nos mercados de títulos públicos (elevação dos deságios das LFT) e privados”, alerta o profissional. Ele afirma a queda da Selic já está no limite, dado o risco fiscal e o volume grande de títulos públicos que vencem no curto prazo. “Além disso, há uma enorme incerteza sobre a evolução da atividade e da inflação no horizonte relevante da política monetária e, por isso, o Copom deve dar maior peso à sua avaliação discricionária do balanço de riscos em contraposição a um olhar mecânico dos modelos de projeção de inflação”.

Guilherme Loureiro, economista-chefe da Trafalgar Investimentos, nota que o tom da ata indica que o estímulo monetário implementado até o momento está condizente com as condições atuais, o que significa que, daqui para frente, qualquer ação adicional está ligada a surpresas no cenário. "O Copom deixou a porta aberta para um eventual corte de 0,25 ponto se necessário."

Já Mariana Dreux, gestora do fundo Macro da Truxt, chama atenção para a discussão sobre as transferências durante a pandemia. "O BC desconfia que quando a quarentena terminar, a população poderá ter renda disponível até maior que antes da crise. Isso é algo que já estamos vendo em outros países que estão saindo do isolamento e que têm surpresa positiva dos indicadores justamente porque implantaram programas de renda semelhantes ao do Brasil", ressalta. "Se esse for realmente o caso, o BC não terá necessidade de aplicar novos estímulos. Então, nesse cenário, é difícil cravar ainda, pode haver flexibilização adicional, mas o mais provável seria uma interrupção dos cortes", complementa.

No entanto, a estabilidade das taxas de juros futuros de curto prazo – mais sensíveis às expectativas para política monetária - demonstra que o mercado continua dividido sobre o tema. Para o Goldman Sachs, a linguagem e o conteúdo da ata são ligeiramente favoráveis a cortes e deixam a porta aberta para um possível ajuste pequeno na Selic. Assim, o banco vê espaço para redução de 0,25 ponto percentual ou até de 0,50 ponto da Selic em agosto.

Embora reconheça um tom mais cauteloso por parte do Copom em sua última reunião, o que indica manutenção da Selic nas próximas reuniões, a Vinland não descarta quedas adicionais da Selic. O fundamento para essa avaliação é o cenário para a inflação: para 2020 e 2021, a projeção da gestora para o IPCA está em 1,5% e 2,5%, respectivamente, bem abaixo das metas perseguidas pelo Banco Central para esse ano e o próximo, de 4,00% e 3,75%.

Para Aurelio Bicalho, economista-chefe da casa, esse fator pode fazer o BC pender para novos cortes no futuro. “Se o cenário de atividade for pior do que o esperado e se as expectativas de inflação para 2021 continuarem caindo, aí sim poderemos ter novas quedas da Selic”, explica o profissional. “Se essa surpresa ocorrer no curto prazo, uma redução adicional pode ser efetuada na próxima reunião”, afirma.

Kiyoshi Ota/Bloomberg