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Dólar fecha abaixo de R$ 5 e tem maior queda semanal desde 2008

Marcelo Osakabe

A surpresa com um dado de emprego nos Estados Unidos garantiu mais um dia de forte apetite por risco no mundo inteiro A surpresa com um dado de emprego nos Estados Unidos garantiu mais um dia de forte apetite por risco no mundo inteiro. No Brasil, esse movimento levou o dólar a encerrar abaixo do patamar de R$ 5,00 pela primeira vez desde 26 de março e, de quebra, anotar a maior queda semanal em quase 12 anos.

No fim do pregão, a moeda americana era negociada a R$ 4,9930, recuo de 2,66%. Este é o menor valor de fechamento desde 13 de março, quando chegou a R$ 4,8127. Na semana, a desvalorização do dólar foi de 6,44%, a mais intensa desde a última semana de outubro de 2008. Naquele momento, o mundo também começava a sair do pior momento da crise financeira de 2008, e a moeda americana encerrou a semana com recuo de 7,18%.

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Dólar tem maior queda semanal desde 2008

Segundo o Departamento de Trabalho dos EUA, houve criação de 2,5 milhões de vagas no mês passado, o que fez a taxa de desemprego cair de 14,7% para 13,3%. O dado ficou bem longe da estimativa dos economistas consultados pelo Wall Street Journal, que apontava fechamento de 8,33 milhões de postos de trabalho e uma taxa de desemprego de 19,5%.

Para o Bank of America, a surpresa pode vir do fato de que o número de pedidos de seguro desemprego ainda está alto. O que ocorreu, sugerem, é que "o ritmo de contratações saltou de 4,6 milhões para 13,2 milhões, enquanto o ritmo de cortes se manteve em 9,3 milhões. Assim, a criação de vagas superou a destruição delas", escrevem analistas em relatório. Eles alertam, por outro lado, que embora os números desta sexta-feira possam sugerir uma recuperação em 'V' da economia, ainda é impossível prever o formato que a retomada vai adquirir. "O caminho à frente ainda permanece incerto dados os riscos colocados pela pandemia sobre milhões de trabalhadores deslocados".

Presidente do BGC Liquidez, Erminio Lucci nota que o desempenho recente do real ocorre por uma conjunção de fatores, entre eles a fraqueza do dólar no mundo, o noticiário sobre a reabertura de países severamente afetados pela pandemia da covid-19 e a volta das captações no exterior pelo Tesouro Nacional e a Petrobras, que tiveram grande demanda e deve incentivar outras empresas a seguirem o mesmo caminho. No entanto, ele vê maior peso para a melhora do cenário político local, que impediu que o real embarcasse antes na recuperação registrada por outros emergentes como um todo.

"Boa parte da intensidade do movimento desta semana foi porque parte dos players estava mal comprada, acreditando que o cenário político ia continuar piorando. Com a diminuição da tensão entre os Poderes, muitas posições foram zeradas, algumas com lucro, algumas não", diz.

Lucci também credita parte da mudança à comunicação recente dos dirigentes do Banco Central. "Ficou bem claro que o BC deu um recado para os mercados que, acima de R$ 5,50, ele ia ficar mais atento."

Flávio Serrano, economista-chefe do banco Haitong, avalia que ser natural que, da mesma forma que o cenário piorou rapidamente lá atrás, ele volte conforme for ficando mais claro que o pior já passou. “No momento de maior incerteza, os mercados pioraram todos mesmo com enorme volume de estímulos de governos e Bancos Centrais”, lembra. Houve um momento de aprendizado - porque essa crise é completamente atípica - e agora o real, que foi o ativo doméstico que mais sofreu porque o câmbio é o canal mais ligado ao risco, também é o que mais anda.”

Apesar do otimismo dessa semana, os analistas alertam para um posicionamento muito otimista. “Acredito que o dólar deve se consolidar nesse patamar entre R$ 4,90 e 5,00”, diz Lucci. “Com juro real negativo e situação fiscal já bem comprometida, acredito que o câmbio está ajustado ao cenário atual e deve agora esperar novas informações sobre será o desenrolar da questão política e fiscal.”

Serrano vê espaço para cair mais - o economista projeta um dólar de equilíbrio a R$ 4,50 no médio prazo -, mas não descarta um repique no curto prazo. Em sua visão, parte importante da melhora do humor recente foi causada por dados que vieram melhores que o esperado, mas estes podem estar escondendo algum dano estrutural permanente para a economia, que só ficará visível mais adiante. “A minha preocupação é com agosto, digamos assim. Números bons agora não significam que vamos voltar ao nível prévio [da atividade].”

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