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Dólar em alta e dados dos EUA pressionam Ibovespa e juros

Ana Carolina Neira

Incerteza dos investidores afeta mercados O Ibovespa até ensaiou uma recuperação nesta manhã, mas a manutenção do dólar acima dos R$ 4,26 e indicadores de atividade acima do esperado nos Estados Unidos renovaram a onda vendedora na bolsa. Assim, às 13h53, o Ibovespa mantinha queda de 0,39%, aos 106.641 pontos.

Entre as mínimas e as máximas, o índice foi dos 106.312 aos 107.555 pontos, com um giro financeiro fraco para o horário e que soma R$ 4,4 bilhões. Se continuar assim, até o fim do dia serão movimentados R$ 10,7 bilhões, menos do que se viu na sessão de ontem e abaixo da média diária dos pregões de 2019.

O desânimo dos investidores aumentou após a divulgação da segunda leitura do Produto Interno Bruto (PIB) americano, que mostrou crescimento de 2,1% na base anualizada do terceiro trimestre. O consenso indicava expansão ligeiramente menos vibrante, de 1,9%. Além disso, o núcleo do índice de preços de gastos com consumo (PCE) subiu 2,1% no terceiro trimestre, na mesma base comparativa, enquanto as encomendas de bens duráveis subiram 0,6% na passagem de setembro para outubro, contrariando consenso de queda de 1%.

Como resultado de uma economia americana mais forte, o dólar e, consequentemente, os juros futuros passaram a subir com mais força, enquanto a bolsa cedia.

No começo da tarde, mais um sinal pesou nas decisões dos investidores: pela terceira vez desde a disparada do dólar na última segunda-feira, o Banco Central anunciou uma intervenção no mercado de câmbio com a venda de dólares à vista.

“O que acontece é que há muita incerteza para o investidor. Por um lado, o ministro da Economia diz que está confortável com esse nível do dólar, mostrando que não existe preocupação com a alta do moeda. De outro, a autoridade monetária passa a intervir no mercado, buscando conter esse avanço. São pensamentos contraditórios. Se não há preocupação, por que intervir, então? Esse desalinhamento causa um desconforto geral”, afirma uma fonte que prefere não ser identificada.

Para piorar o humor do mercado, as expectativas dos comerciantes varejistas mostraram em novembro a mais intensa queda em seis meses, acendendo um sinal de alerta. É o que mostrou hoje a Fundação Getulio Vargas (FGV) ao anunciar recuo de 0,6 ponto entre outubro e novembro para 97,8 pontos no Índice de Confiança do Comércio (Icom).

Um dos aspectos que mais contribuiu para o recuo foi o comportamento do Índice de Expectativas (IE), que mostrou queda de 1 ponto no período, para 100,9 pontos. Foi mais intensa retração desde maio deste ano (6,6 pontos), segundo Rodolpho Tobler, pesquisador da fundação.

Julio Bittencourt/Valor

Com tantas incertezas e sinais ainda fracos da tão esperada recuperação econômica aqui no Brasil, é natural que os investidores adotem a cautela e prefiram desmontar algumas posições. Entre as principais quedas do Ibovespa até aqui estão MRV ON (-4,36%), Cyrela ON (-3,14%) e CSN (-3,65%).

Ontem, o J.P. Morgan cortou a recomendação para as ações MRV, passando de compra para neutra. De acordo com o banco, os cortes refletem as margens mais pressionadas da companhia, que costuma se concentrar em empreendimentos mobiliários para baixa renda. A pressão sobre as margens brutas se deve, segundo o relatório do banco, à escassez de crédito do programa Minha Casa Minha Vida. Apesar desse cenário mais desafiador, o banco afirma que a dificuldade é maior no curto prazo e os benefícios da intensificação da queda dos juros do financiamento imobiliário devem logo se estender ao segmento imobiliário de baixa renda. O preço-alvo ficou em R$ 20.

As quedas que exercem maior pressão sob o Ibovespa hoje vêm do setor bancário, com Banco do Brasil ON (-0,76%), Itaú Unibanco PN (-0,20%), as units do Santander (-0,89%) e, fora do segmento, Vale (-2,01%) entre as mais expressivas.

Mais cedo, o preço do minério de ferro caiu 1,95% no mercado chinês, a segunda sessão consecutiva de baixa. No entanto, há espaço para realização desses ativos brasileiros, depois da forte valorização com a disparada do dólar durante a sessão de ontem. Com a moeda americana chegando aos R$ 4,27, há um benefício direto para as empresas que exportam suas produções, como é o caso da Vale e da CSN.

Além disso, a Vale anunciou que fará no quarto trimestre uma baixa contábil de US$ 1,6 bilhão nos segmento de metais básicos e de US$ 1,6 bilhão nos negócios de carvão. A empresa identificou que o valor contábil de certos ativos excede o seu valor recuperável, o que justifica o reconhecimento da baixa, com impacto no resultado do quarto trimestre. Como parte do processo de reavaliação dos negócios, as operações de carvão em Moçambique serão paralisadas por três meses em 2020 para manutenção. Na avaliação do banco Citi, isso indica que a operação permanece como candidata a desinvestimento.

Entre as altas, destaque ainda para Yduqs ON (3,73%). Em relatório, o BTG Pactual diz que a empresa está em situação cada vez mais positiva e mantém sua recomendação em neutra. “Apesar de nossa classificação neutra, somos cada vez mais positivos em relação à empresa, devido à sua avaliação relativamente pouco exigente (como outras empresas educacionais locais listadas) e à forte vantagem da aquisição da Adtalem, um movimento altamente estratégico e positivo”, diz o documento.

Juros

Diante de uma nova escalada do dólar, os juros futuros abandonaram o viés de queda observado no início do dia e passaram a subir com força, em mais uma rodada de recomposição de prêmio de risco derivada do comportamento do câmbio. Apoio adicional à alta das taxas futuras foi encontrado no avanço dos rendimentos dos Treasuries, após o crescimento acima do esperado do Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos no terceiro trimestre do ano.

O motivo principal para a abertura da curva a termo veio, porém, do câmbio. “Os juros futuros são puxados para cima no efeito colateral do dólar, uma vez que a moeda americana pode ter um impacto relevante sobre a inflação e, então, o Banco Central teria de reagir a isso”, diz o economista-chefe da Guide Investimentos, João Maurício Rosal. Para ele, esse é o principal fator que guia os mercados no momento.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 subia de 4,73% no ajuste de ontem para 4,81%; a do DI para janeiro de 2022 passava de 5,44% para 5,52%; a do contrato para janeiro de 2023 ia de 5,98% para 6,07%; e a do DI para janeiro de 2025 avançava de 6,59% para 6,69%. Já a taxa do DI para janeiro de 2027 voltava a operar acima de 7%, ao subir de 6,92% no ajuste anterior para 7,02%. No mesmo horário, o dólar era cotado a R$ 4,2616, em alta de 0,52%, depois de tocar R$ 4,2711.

“Tivemos um movimento bastante atípico, em que o câmbio descolou das outras moedas com um ‘gap’ de liquidez. Nós entendemos que era um momento onde o câmbio não estava funcional. Fizemos duas intervenções exatamente na linha do que temos dito. Se nós amanhã [hoje] entendermos que há um movimento disfuncional e que o câmbio brasileiro está descolando de outros países, nós vamos voltar a fazer intervenções como fizemos hoje”, disse, ontem o presidente do BC, Roberto Campos Neto.

Economista e diretor-executivo da NGO Corretora, Sidnei Nehme diz que “o preço atual [do dólar] está fora do pior contexto e pode ter maiores repercussões inflacionárias, já que o momento sinaliza melhora da atividade econômica e a contaminação do fato nos preços relativos pode ocorrer de forma menos contida”. Diante dos temores de repasse do câmbio na inflação, as taxas operaram em alta e até chegaram a ampliar os ganhos no miolo da curva após um leilão extraordinário de dólares à vista, que ocorreu após a moeda americana tocar o nível de R$ 4,27.

Para além das pressões no câmbio, a inflação já dá sinais de alta mais consistentes. Nesta manhã, a Fundação de Pesquisas Econômicas (Fipe) informou que o índice de preços ao consumidor (IPC), que mede a inflação na cidade de São Paulo, acelerou de 0,26% para 0,44% na terceira quadrissemana de novembro, com apoio, principalmente, dos preços de alimentos e de despesas pessoais.