Mercado fechará em 6 h 15 min

Dólar despenca e fecha abaixo de R$ 5 com expectativa de retomada rápida

JÚLIA MOURA
***ARQUIVO***SÃO PAULO: Painéis de indicadores econômicos na sede da Bovespa, em São Paulo. (Foto: Alessandro Shinoda/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Nesta sexta-feira (5), o dólar teve mais um pregão de forte queda, com recuo de 2,86%, a R$ 4,9860. Esta é a primeira vez que a divisa fecha abaixo de R$ 5 desde que superou a marca em 16 de março. Na semana, a queda é de 6,58%, a quinta maior da história do real, perdendo apenas para períodos em 2008 e 2002, anos de estresse no câmbio.

Nesta semana, dados econômicos vieram melhor do que o esperado por economistas alimentando a expectativa de que o pior da crise do coronavírus já tenha passado e que a recuperação pode ser mais rápida do que anteriormente projetado.

"Quando a gente observa o mercado financeiro americano, a recuperação das Bolsas foi em V. E a recuperação do Ibovespa também pode ser em V. O cenário, porém, ainda é ruim. Não é que tudo mudou e está tudo lindo. A recuperação em V na economia é mais difícil, mas mais factível nos EUA do que no Brasil", diz Henrique Esteter, analista da Guide Investimentos.

O otimismo de investidores nesta sessão reflete a inesperada criação de empregos nos Estados Unidos em maio.

O relatório mensal de emprego do Departamento do Trabalho americano também mostrou que a taxa de desemprego caiu a 13,3% no mês passado de 14,7% em abril, uma máxima pós-Segunda Guerra. Essa leitura veio na esteira de pesquisas que mostraram estabilização na confiança do consumidor, na manufatura e nos serviços.

As condições econômicas melhoraram consideravelmente depois que as empresas reabriram após terem que ser fechadas em meados de março para conter a disseminação da Covid-19.

Foram criadas fora do setor agrícola 2,509 milhões de vagas no mês passado, após fechamento recorde de 20,687 milhões em abril. Economistas consultados pela Reuters previam que a taxa de desemprego subiria para 19,8% em maio e que os EUA fechariam 8 milhões de postos de trabalho.

Na Europa e na China os indicadores também sinalizam uma recuperação a economia, a medida que as atividades são retomadas com o declínio no número de novos casos de Covid-19.

A mudança de perspectiva levou a Bolsa de tecnologia Nasdaq, em Nova York, bateu sua máxima histórica intradiária, a 9.845 pontos. No fechamento, porém, ficou levemente abaixo do recorde de fevereiro (9.817), com alta de 2%, a 9.814 pontos.

No Brasil, o Ibovespa fechou em alta de 0,86%, a 94.637 pontos. A valorização do índice perdeu força ao longo do pregão com a desvalorização de empresas exportadoras diante da queda do dólar.

Desde sua mínima em março, após seis circuit breakers, a Bolsa sobe 35,7%. Nesta semana, a alta é de 8,3%, apagando as perdas desde 6 de março.

Além do investidor pessoa física, que amplia sua compra de ações, os estrangeiros explicam a valorização.

Com a perda de valor do real e a queda da Bolsa, os papéis das companhias brasileiras ficaram muito baratos aos olhos do investidor estrangeiro, que voltou às compras. Segundo dados da B3, junho é o primeiro mês no ano com entrada líquida de capital externo.

Depois de meses com o pior desempenho dentre todas as moedas globais, o real se recuperou nesta semana em relação ao dólar e saiu da lanterna, agora ocupada pela rupia de Seychelles, seguida da kwacha de Zâmbia.

Em 2020, o real tem a terceira maior desvalorização, sendo o pior emergente. O mérito da recuperação, porém, é do dólar, que perdeu força internacional. Por ser um ativo de segurança, a divisa americana tende a se desvalorizar quando o mercado está mais disposto a tomar risco.

Após ir ao recorde nominal (sem contar a inflação) de R$ 5,90 em 13 de maio, o dólar segue em queda livre, com recuo de 15,5% desde então.

"A melhor da mercado Brasileiro é consequência, não causa. O que move a queda do dólar é lá fora, com a retomada das economias desenvolvidas. Os dados de trabalho de hoje mostram que talvez não seja tão difícil para os EUA sair do buraco", diz Sidnei Moura Nehme, economista e diretor executivo da corretora NGO.

Outro fator para a melhora dos mercados financeiros é a grande injeção de capital dos principais Bancos Centrais e grandes pacotes de estímulos das principais economias globais, o que levou a um excesso de liquidez nos mercados.

Como a renda fixa teve seu retorno comprometido com juros próximos de zero, investidores alocam capital em ativos mais arriscados, como países emergentes.

"Com o dólar alto, a Bolsa brasileira está barata, o que provocou uma mudança de olhar do estrangeiro sobre nós. A atração está na oportunidade, pois o Brasil continua ruim como antes. Mas, agora, tem ações de companhias interessantes baratas. Este fluxo deve seguir até que as ações fiquem caras ou o real forte demais. É um otimismo com data de validade", afirma Nehme.