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Dólar comercial tem maior queda diária desde junho de 2018

Marcelo Osakabe

O ambiente bastante positivo no exterior voltou a guiar o mercado local de câmbio nesta terça-feira. Após subir 0,93% na véspera, o dólar teve contra o real a maior queda entre as 33 divisas mais líquidas do planeta, em meio ao noticiário sobre a reabertura econômica na Europa e também sinais de distensão política local.

No encerramento do dia, o dólar era negociado a R$ 5,2116, queda de 3,25%. Esta é a maior baixa diária desde 8 de junho de 2018, quando um programa massivo de swap cambial anunciado pelo BC levou o dólar a cair 5,5% num único dia.

Para um gestor que preferiu não ser identificado, a forte queda do dólar neste pregão busca corrigir a alta de ontem, que deixou o real bastante “atrasado” em relação às demais divisas. No acumulado dos últimos dois dias, o dólar registra queda de 2,34% contra o real, em linha com o visto contra pares como o peso chileno (2,55%), o peso colombiano (2,44%) e o rublo russo (2,02%).

O fato é que o dólar embarcou em uma tendência de desvalorização generalizada após os fortes ganhos registrados em março, no pico da crise causada pela pandemia da Covid-19. “A tendência nos últimos 15 dias é de o dólar se enfraquecer”, diz Ettore Marchetti, sócio e responsável pelas estratégias de câmbio e renda fixa na Trafalgar Investimentos. De olho nesse cenário, inclusive, a gestora assumiu posições compradas em uma cesta de moedas emergentes ligadas a commodities, entre elas, o peso chileno, a coroa norueguesa e o próprio real.

Por aqui, além do exterior, o mercado também repercutiu sinais positivos vindos de Brasília, onde o ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), negou pedido de apreensão do celular do presidente Jair Bolsonaro.

O bom humor lá fora também se reflete sobre o risco-país medido pelos contratos de Credit Default Swap (CDS). Nesta tarde, o spread dos contratos de 5 anos do Brasil era negociados a 254 pontos, menor patamar desde 27 de março, de acordo com dados compilados pela Markit. A queda de 7,2% ante o fechamento de ontem está em linha com o de outras economias emergentes, como México (8,9%), Colômbia (8,4%) e Russia (4,1%).

Esse ambiente mais propício para o real, no entanto, ainda pode sofrer alguns solavancos, avalia o gerente de câmbio da Tullett Prebon, Italo Abucater dos Santos. Embora entenda que a moeda brasileira ainda tenha espaço para se valorizar cerca de 5% para se alinhar com outros pares emergentes. Um deles é a própria situação política, que ainda está bastante volátil.

Outra, continua, é a possibilidade de que bancos possam fazer grandes operações pontuais para reduzir sua posição em overhedge, como pode ter sido o caso ontem. “Alguma tesouraria pode ter aproveitado o ambiente mais propício e, lembrando que estamos no fim do semestre [onde os fluxos para o exterior se intensificam e exercem pressão altista sobre o dólar], aproveitou para fazer uma compra grande. Em um momento onde o mercado está pouco líquido após essa grande saída de capitais, qualquer operação relevante pode potencializar saltos.”

Stephen Bayer/Pixabay