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Dólar comercial cai a R$ 5,09 em novo dia positivo no exterior

Marcelo Osakabe

A combinação de forte apetite por risco vindo do exterior e a trégua do noticiário político local permitiu que o real voltasse a se recuperar fortemente nesta quarta-feira. Durante o dia, o dólar chegou a colocar o patamar de R$ 5,00 na alça de mira, mas não sustentou o movimento e terminou o dia com queda mais moderada.

No encerramento do pregão, o dólar era negociado a R$ 5,0925, queda de 2,29% e o menor patamar desde 9 de abril. Na mínima intradiária, o dólar chegou a ser negociado a R$ 5,0171.

Com isso, o real foi novamente a moeda de melhor desempenho do dia entre as 33 divisas mais líquidas do planeta. No mesmo horário, o dólar cedia 1,32% contra o rand sul-africano 0,74% frente ao peso colombiano e 1,79% contra a rupia indiana.

Para participantes de mercado, o excelente desempenho recente da moeda brasileira tem a ver com o fato de que, por causa do cenário político e fiscal conturbado, bem como aspectos técnicos como as operações de proteção dos bancos, o real demorou para entrar no rali de enfraquecimento global do dólar contra outras moedas emergentes, que já vem de algum tempo.

“Algumas pessoas podem pensar que o dólar perto de R$ 5 é algo assimétrico dado os riscos fiscais e políticos do Brasil. No entanto, todas as moedas emergentes andaram 10% de duas semanas para cá. Então boa parte da nossa melhora foi justamente a reboque do mundo”, diz o economista-chefe da Garde, Daniel Weeks. “Os R$ 5 de hoje são os R$ 5,60 de 45 dias atrás”.

O cenário de enfraquecimento do dólar, no entanto, é global. Passado o momento de maior nervosismo da crise, a forte injeção de liquidez de grandes bancos centrais em especial do Federal Reserve, combinado com o declínio de novos casos de covid-19 no mundo e reabertura econômica passaram a exercer uma pressão baixista sobre o dólar, que foi o ativo mais demandado do mundo no auge da crise, em março.

“Se estamos falando de ações do Fed que fazem com que as medidas de 2008 pareçam insignificantes, temos uma oferta muito maior de dólar e é natural que o preço caia”, diz o chefe global de estratégia para mercados emergentes do BNP Paribas, Gabriel Gersztein.

Para o estrategista sênior para mercados emergentes do Standard Chartered, Ilya Gofshtein, esse cenário de dólar fraco não deve mudar tão rapidamente. "A maior parte dos bancos centrais em todo o mundo vão permanecer em modo acomodatício e os formuladores de política não irão fazer nada que possa ameaçar a recuperação dos ativos", diz o profissional. "Todos ficam mais felizes com um dólar mais fraco."

A mesma opinião têm os estrategistas do Wells Fargo, que esperam um dólar mais fraco nos próximos seis a doze meses. Para eles, “o pior já passou” para a economia e, dado que a moeda americana tem correlação inversa com o mercado global de ações, o seu desempenho passará a ser um termômetro para a moeda americana.

A rapidez com que os ativos de risco têm se recuperado nas últimas semanas, no entanto, têm deixado parte dos analistas com uma pulga atrás da orelha. “Sem uma melhora palpável do cenário global macro para se apoiar, o rali atual está sendo guiado pelo “medo de perder a festa”, o que é uma compreensível fonte de frustração para muitos observadores”, dizem analistas do Société Générale em relatório.

Gofshtein, do Standard Chartered, no entanto, discorda dessa visão. "Os PMIs em todo o mundo pararam de cair, existe muita demanda reprimida por bens e a posição técnica em muitos mercados está muito negativa. Assim, muitos deles podem se beneficiar da melhora do cenário e também de uma corrida para cobrir posições vendidas", diz.

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