Mercado fechado

Dólar passa a cair após BC atuar no mercado de câmbio

Marcelo Osakabe e Victor Rezende

Moeda americana ultrapassa pela primeira vez a barreira de R$ 4,38 Após abrir em alta moderada, superando o patamar de R$ 4,38, o dólar inverteu rapidamente o sentido de negociação e passou a cair, reagindo ao anúncio de um leilão de swap cambial do Banco Central (BC). Às 13h51, a moeda americana cedia 0,38%, aos R$ 4,3339.

A última vez em que o BC atuou no mercado de derivativos por meio de leilões novos foi em 30 de agosto de 2018, quando o agravamento da crise econômica na argentina e a proximidade das eleições presidenciais jogou o dólar para perto de R$ 4,20. Naquela ocasião, o BC ofertou o equivalente a US$ 1,5 bilhão em swaps.

Gestores viram na decisão do BC uma resposta ao comportamento recente do real, em especial das últimas duas semanas, quando a moeda brasileira voltou a se descolar dos pares emergentes. Especificamente nesta quinta-feira, apesar de iniciar o dia em linha com o exterior, a moeda brasileira era pressionada pela repercussão dos comentários feitos na véspera pelo ministro da Economia, Paulo Guedes.

Bolsonaro diz que dólar está alto, mas que não interfere

BC intervém no câmbio pela 2ª vez após fala de Guedes

Análise: Comentário põe Bolsonaro em terreno perigoso

Pixabay

O anúncio do BC ocorre em um dia em que a alta do dólar no Brasil estava em linha com o observado no restante do mundo. As divisas emergentes cedem terreno hoje após o salto de casos e mortes registradas na China por causa do Covid-19.

Na quarta-feira, a jornalistas, Guedes voltou a defender o que entende ser o novo regime da economia brasileira, de juros baixos e dólar alto. Ele criticou gestões passadas, que mantinham a moeda brasileira artificialmente valorizada a custo de um juro exorbitante. “Todo mundo indo para Disneylândia, empregada doméstica indo para a Disneylândia, uma festa danada. Peraí”, criticou.

Também na quarta-feira, em entrevista à GloboNews, o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, não se alongou sobre o assunto. Manteve apenas que o câmbio é flutuante e que a desvalorização recente do real não é acompanhada de piora do risco-país.

Das autoridades, a única que mostrou algum desconforto com a desvalorização recente foi o presidente Jair Bolsonaro. Esta manhã, pouco antes da abertura do mercado, o presidente disse: “Eu, como cidadão, [considero que] está um pouquinho alto o dólar”.

Fato é que a desvalorização do real em fevereiro chegava a 2,24% logo antes do anúncio do BC, muito superior ao cerca de 1,80% registrados pelo pelo argentino, a segunda moeda comparável de pior desempenho no mês - o país vizinho enfrenta dificuldades após ter anunciado a reestruturação de dívidas em moeda local.

No ano, mesmo após a o leilão do BC, o real continua caindo cerca de 7%, o pior desempenho do período entre as 33 divisas mais negociadas do mundo.

Para Jason Vieira, economista-chefe da Infinity Asset, a atuação do BC começa a colocar uma espécie de “teto informal” ao câmbio em um momento onde investidores pareciam carecer de parâmetros para atuar. “O foco agora é saber se essa faixa perto dos R$ 4,35 vai se confirmar. O mercado deve tentar testar de novo esse patamar e, se o BC voltar a atuar, forma-se esse topo”, diz. Hoje, a autoridade monetária ofereceu 20 mil contratos de swap, equivalentes a US$ 1 bilhão.

Ettore Marchetti, sócio e responsável pelas estratégias de câmbio e renda fixa da Trafalgar, é necessário saber se a atuação de hoje do BC é apenas pontual ou será um programa mais longo. “Dependendo de como o mercado reagir nas próximas horas ou pregões, pode ser adequado BC anunciar um programa mais previsível”, diz. “A primeira impressão é que o real agiu bem.”

No mercado de juros futuros, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 avançava de 4,22% no ajuste anterior para 4,255%; a do DI para janeiro de 2022 passava de 4,79% para 4,84%; a do contrato para janeiro de 2023 ia de 5,37% para 5,43%; e a do DI para janeiro de 2025 subia de 6,03% para 6,09%.

“Os ruídos políticos voltaram a devolver prêmio à curva”, afirma Matheus Gallina, trader de renda fixa da Quantitas. “Nos últimos dias, vimos queda forte na ponta curta e relativa estabilidade do juro longo mesmo com o dólar em nível recorde. Agora tivemos um fato interno que gerou um pouco de ruído, mas poderíamos ter tido uma reação mais agressiva por parte dos agentes financeiros”, diz Gallina.