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Dólar alto? O que esperar do real em 2023 após desvalorização recente

Mulher segurando notas de um dólar
Depois de perder quase 40% do valor entre 2020 e 2021, a moeda brasileira se recuperou neste ano, mas ainda está muito longe do equilíbrio

Depois de cair para algo próximo de R$ 5 após a eleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o dólar registrou alta significativa na quinta-feira (10/11), de 4,1%, fechando o dia cotado a R$ 5,39.

Parte da alta foi "devolvida" nesta sexta-feira, quando por volta de 14h, o dólar comercial era negociado a R$ 5,29.

Apesar do salto, a moeda americana acumula queda em 2022, de cerca de 7,7%. Ainda assim, segue distante da chamada taxa de câmbio de equilíbrio - aquela que, de forma bastante simplificada, seria a ideal para o país, levando em conta suas variáveis macroeconômicas.

"Nossas contas externas estão positivas, o país tem reservas [em dólar], os termos de troca [a relação entre os preços de exportação e importação] estão favoráveis, não há nenhum grande desequilíbrio macroeconômico… olhando apenas para os fundamentos, o dólar deveria estar bem mais baixo", avalia o coordenador do Centro de Macroeconomia Aplicada (CEMAP) da EESP-FGV Emerson Marçal.

Junto do pesquisador Oscar Simões, o economista calculou o nível atual de desalinhamento cambial brasileiro.

Levando em consideração os dados do segundo trimestre, os mais recentes disponíveis, o real estaria em média 20% mais fraco do que indicam seus fundamentos.

A análise consta no novo relatório do CEMAP, que deve ser divulgado nos próximos dias.

Por que o dólar ainda está tão caro

Em 2020 e 2021, o dólar acumulou alta expressiva de 38,9% em relação ao real. O desalinhamento negativo do câmbio nesse período é um dos maiores e mais persistentes da história recente do país, como mostra o gráfico elaborado pelos pesquisadores do CEMAP:

Gráfico do CEMAP ilustra desalinhamento cambial
Gráfico do CEMAP ilustra desalinhamento cambial

Parte do movimento se deveu ao fato de que, nesses dois anos, o país assistiu a uma saída expressiva de investidores estrangeiros, e por razões diversas.

O cenário de pandemia contribuiu para um aumento da aversão ao risco, levando investidores a tirar dinheiro de mercados considerados menos seguros, como os países emergentes.

As turbulências do cenário doméstico também contribuíram, sejam as dúvidas em relação ao compromisso do governo com a estabilidade das contas públicas, os atritos do Executivo com o Judiciário ou o discurso de ameaça a ruptura institucional muitas vezes repetido pelo presidente Jair Bolsonaro.

"O governo atual tem uma imagem internacional muito ruim", comenta Marçal.

Em 2022, por sua vez, o cenário internacional mudou, com fortalecimento do dólar. Uma onda global de inflação, em parte alimentada pelo aumento de preços de combustíveis, e a possibilidade de uma recessão na Europa levaram investidores a procurar ainda mais os ativos americanos, considerados seguros, contribuindo para apreciar a moeda dos Estados Unidos.

Isso provocou uma enxurrada de desvalorizações cambiais pelo mundo - libra, euro, iene, todos perderam valor ante o dólar.

O real tem sido uma das poucas moedas que têm conseguido ganhar valor em relação à moeda americana - a principal razão apontada pelos economistas foi a escalada forte da taxa de juros no Brasil, que saltou de 2% em março de 2021 para 13,75% no último mês de agosto, um dos aumentos mais significativos observados no mundo.

Esse efeito do aumento da Selic sobre o câmbio se dá porque, à medida que os títulos públicos e de renda fixa passam a pagar mais juros, eles atraem mais investidores, contribuindo para a entrada de dólares no país.

Presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva
Nome do futuro ministro da Fazenda do governo Lula ainda não foi anunciado

O que esperar para 2023 com a troca de governo?

O professor Emerson Marçal enxerga dois possíveis movimentos que podem ter impacto sobre o câmbio no primeiro ano do novo mandato de Lula - um que poderia baratear o dólar e outro que pode pressioná-lo para cima.

De um lado, um eventual retorno dos investidores estrangeiros ao país aumentaria a entrada de dólares, contribuindo para reduzir a cotação da moeda americana.

Um dos fatores que poderiam tornar o Brasil mais atraente seria o compromisso do governo com uma política ambiental responsável, com metas concretas de redução do desmatamento e de emissões de gases de efeito estufa.

A visão negativa que a gestão Bolsonaro tem internacionalmente na área ambiental contribuiu para afastar o capital estrangeiro do Brasil nos últimos anos.

Cada vez mais fundos de investimentos norteiam suas aplicações com base nos princípios ESG (sigla em inglês para ambiental, social e governança), que levam em consideração medidas de sustentabilidade.

"O que continua é a incerteza em relação à questão fiscal", diz o economista, referindo-se às dúvidas que ainda existem em relação à política econômica do novo governo Lula.

A alta do dólar nesta semana aconteceu justamente após o presidente eleito dar sinalizações de que vai continuar ampliando gastos, sem apontar de forma clara um compromisso com o controle das contas públicas.

Na quinta, em sua primeira visita à sede da transição de governo, o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) em Brasília, Lula afirmou: "Por que as pessoas são obrigadas a sofrer para garantir a tal da responsabilidade fiscal deste país? Por que toda hora falam que é preciso cortar gastos, é preciso fazer superávit, é preciso cumprir teto de gastos?"

"Vamos mudar alguns conceitos, muitas coisas consideradas como gasto temos que passar a considerar investimento", concluiu.

O anúncio do nome do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega para a equipe de transição também desagradou o mercado. Mantega esteve à frente da pasta entre 2006 e 2015 e é muitas vezes associado com a deterioração das contas públicas na gestão da ex-presidente Dilma Rousseff.

Em 2015, a nota de crédito do Brasil perdeu grau de investimento em duas agências de rating, a Standard&Poor's (S&P) e a Fitch; e em 2016, na Moody's. Até hoje o país tem nota considerada como grau especulativo nas três agências.

Na sexta-feira, contudo, o dólar já devolveu parte da alta do dia anterior. A notícia de que a PEC da Transição, que fará mudanças no Orçamento de 2023 para acomodar os gastos da nova gestão, foi adiada para quarta-feira da próxima semana alimentou a expectativa de que o texto pode ganhar alterações que sinalizem um controle maior das despesas do que sinalizado anteriormente.

Em um relatório, o economista da Oxford Economics Marcos Casarin avalia que parte do movimento nos preços de ativos nos últimos dias foi "excessivamente violento", mas pontua que o episódio manda uma mensagem dura ao presidente eleito sobre a complacência do mercado com a trajetória do gasto público no novo governo.

"Os mercados abriram nesta sexta recuperando parte das perdas, mas esperamos que a volatilidade permaneça elevada até que a transição presidencial seja concluída em janeiro", acrescenta o texto. Até lá, a expectativa da consultoria é que o dólar oscile entre R$ 5,20 e R$ 5,30.

O mais recente Boletim Focus, publicação do Banco Central que reúne estimativas das principais consultorias e instituições financeiras do país, projetam o câmbio de 2023 em patamar semelhante ao esperado para este ano, R$ 5,20.

Ainda que o cenário que se concretize contribua para a valorização do real, Marçal calcula que a taxa de equilíbrio do câmbio esteja hoje em torno de R$ 4,90/R$ 4,95. Ou seja, não seria fácil deixar o dólar muito mais barato do que isso.

Uma das razões para o patamar alto, ele explica, é o nível elevado da inflação brasileira nos últimos anos.

Inflação alta corrói poder de compra da moeda e faz com que ela perca valor diante das moedas de outros países, especialmente aqueles em que os índices de preços têm melhor trajetória.

- Este texto foi publicado em https://www.bbc.com/portuguese/brasil-63602841