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Dólar sobe por preocupações com PEC da Transição, mas fecha bem abaixo de pico do pregão

Notas de dólares

Por Luana Maria Benedito

SÃO PAULO (Reuters) - O dólar avançou frente ao real nesta quinta-feira, apoiado pelo aumento do risco fiscal doméstico na esteira dos gastos extra-teto elevados incluídos pelo governo eleito na PEC da Transição, mas fechou o pregão bem abaixo de picos intradiários acima de 5,50 reais, em meio à possibilidade de que o texto da proposta de emenda à Constituição seja alterado durante a tramitação no Congresso.

A moeda norte-americana à vista subiu 0,45%, a 5,4064 reais na venda, maior cotação para encerramento desde 22 de julho passado (5,4976 reais).

Mais cedo, o dólar chegou a disparar 2,76%, a 5,5308 reais na venda, maior patamar intradiário desde janeiro deste ano, mas foi perdendo fôlego gradativamente ao longo da sessão.

Alguns investidores ponderaram que os mercados já esperavam, no geral, o valor de 175 bilhões de dólares embutido na PEC para os gastos com o Bolsa Família e já enxergavam o risco de não haver prazo claro para as exceções ao teto, de forma que o texto não foi uma surpresa.

Além disso, pode ser que a PEC seja modificada ao tramitar no Congresso, disse Leonel Mattos, analista de Inteligência de Mercado da StoneX, ecoando a visão de vários outros agentes do mercado financeiro que acreditam na possibilidade de o texto ser "enxugado" nas negociações com parlamentares.

Martin Castellano, chefe de pesquisa para América Latina do Instituto de Finanças Internacionais (IIF, na sigla em inglês), por exemplo, chamou de "exagerada" a reação inicial dos mercados à PEC e lembrou que muitas discussões internas acontecerão a partir de agora.

Ainda assim, muitos investidores mostravam preocupação com o desenho da PEC e incertezas sobre como será tocada a política fiscal do governo eleito pelos próximos quatro anos.

"Em nossa avaliação, por meio deste projeto de lei, a equipe de transição do presidente eleito Lula está aumentando a aposta e minimizando/ignorando os sinais de preocupação que o mercado tem enviado com relação à sustentabilidade fiscal no médio prazo", avaliou em relatório Alberto Ramos, diretor de pesquisa macroeconômica para América Latina do Goldman Sachs.

"O que está incomodando o mercado é a combinação de um nível muito alto de gastos que não estarão sujeitos ao teto de gastos, mas também que isso está ocorrendo sem uma equipe econômica designada para analisar o impacto macro dessas disposições e fornecer algumas orientações/bases sobre a política fiscal", disse Ramos.

Embora tenha anunciado vários economistas para compor sua equipe de transição, Lula ainda não definiu quem integrará de fato seu Ministério da Fazenda a partir do ano que vem. Três fontes disseram à Reuters na quarta-feira que o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad está sendo visto como o favorito do presidente eleito para comandar a pasta.

Alguns agentes financeiros acreditam que a PEC da Transição --muito heterodoxa aos olhos do mercado-- indica inclinação de Lula a nomear uma pessoa do "círculo interno" do PT, como Haddad, à Fazenda, o que poderia agravar o descontentamento dos mercados.

Ramos, do Goldman Sachs, destacou que, para além dos efeitos de curto prazo da PEC, "também não há... qualquer discussão sobre o que deve substituir o teto de gastos como âncora fiscal" durante o governo de Lula.

Respaldou a alta do dólar frente ao real nesta quinta-feira o avanço do índice que compara a divisa norte-americana a uma cesta de seis pares fortes, em meio a temores de que a resiliência da economia dos EUA impeça o Federal Reserve de moderar seu aperto monetário.

Esse medo foi reforçado mais cedo por fala do presidente do Federal Reserve de St. Louis, James Bullard, que disse que mesmo num cenário de conduta mais branda por parte do banco central, os juros ainda precisariam subir mais. O índice do dólar subia 0,4% nesta tarde, mas estava bem abaixo do picos do dia.