Mercado fechado

Cultura estatal é origem da atual crise do IRB, afirmam especialistas

ISABELA BOLZANI E NICOLA PAMPLONA

SÃO PAULO, SP, E RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - A falta de transparência e a inabilidade na relação com investidores foram os fatores que geraram a crise de reputação no IRB Brasil RE (Instituto de Resseguros do Brasil), afirmam analistas.

Segundo eles, tais questões se assemelham a uma cultura estatal, inerente a empresas que eram controladas pelo governo e que não melhoraram suas práticas no processo de abertura de capital.

Nesta quinta-feira (5), os papéis do IRB caíram 16,17%, cotados a R$ 15,97.

Um executivo do mercado de capitais afirmou que, para investidores, apesar da venda da participação majoritária do Banco do Brasil e da Caixa Econômica na empresa em 2019, o IRB ainda tem uma cul- tura estatal, e isso teria levado à crise que a companhia enfrenta desde fevereiro.

Segundo o analista da Guide Investimentos Henrique Esteter, há estatais com gestões eficientes e é difícil generalizar, mas as más escolhas do IRB foram sentidas pelo mercado. "Não é nem falta de transparência, mas de verdade", afirma.

Mesmo entre funcionários da resseguradora, a percepção é que os bancos públicos continuam no controle.

"A privatização nós mesmos às vezes colocamos entre aspas", diz o presidente do Sintres (Sindicato dos Trabalhadores em Resseguros do Estado do Rio de Janeiro), Carlos Alberto Cruz.

Ele ressalta que, embora os maiores acionistas sejam bancos privados, o governo sempre manteve influência por meio de executivos.

Para substituir Ivan Monteiro, egresso do BB, na presidência do conselho -ele deixou o cargo em fevereiro alegando questões de saúde-, por exemplo, foi escolhido o presidente da Caixa, Pedro Guimarães.

No lugar de José Carlos Cardoso, então presidente da companhia, e de Fernando Passos, vice-presidente financeiro, está Werner Süffert, da BB Seguridade.

Cardoso e Passos renunciaram nesta quarta (4) após notícias de que teriam passado informações erradas sobre uma suposta participação no IRB da Berkshire Hathaway, do megainvestidor Warren Buffett, que depois negou ter ações da empresa.

O novo comando do IRB anunciou nesta quinta que acabou com os bônus por valorização de ações a executivos. Também disse que vai investigar o caso envolvendo a Berkshire Hathaway.