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Cultura do cancelamento: por que queremos cancelar as pessoas?

A cultura do cancelamento tem ganhado cada vez mais espaço na internet (Foto: Getty Creative)


Pense em uma (ou duas, ou mais) celebridades que fizeram alguma coisa considerada errada pela sociedade. Provavelmente, elas foram "canceladas". 

A cultura do cancelamento tem ganhado espaço na internet. Entre no Twitter por alguns minutos e você, provavelmente, vai ver alguém ser cancelado. Seja um famoso que disse a coisa errada no momento errado, seja aquela pessoa aparentemente anônima que fez um comentário na rede social e viralizou por motivos escusos. 

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Pelo dicionário, cancelar significa "tornar sem efeito, anular, eliminar". Por mais que pareça extremo, quando transferimos esse significado para a vida real a ideia é exatamente a mesma: tirar o crédito de uma pessoa, diminuí-la a ponto de destituí-la de importância no contexto social. 

Pense no que aprendemos com os reality shows: dentro da casa de confinamento, quem comete um erro é eliminado, excluído daquela dinâmica. Aqui, a ideia é a mesma, e chega a ter cara de linchamento em praça pública. Um grupo de pessoas se unem para cancelar alguém, fazendo xingamentos online, mandando comentários e mensagens, muitas vezes maldosos, para alguém que errou aos olhares do público. 

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Por que cancelar alguém? 

Existem muitos motivos para as pessoas na internet cancelarem alguém, mas saiba: provavelmente 90% deles estão ligados com condutas relacionadas à assédio sexual e estupro, racismo e machismo. 

Kevin Spacey é um caso recente de cancelamento que, aparentemente, deu certo. Desde que as alegações de que ele abusou sexualmente de um jovem caíram na mídia, o ator foi demitido da série House of Cards, da Netflix, em que era o protagonista, e não fez novos projetos. As únicas informações relacionadas à ele são referentes ao caso de assédio. 

José Mayer é outro caso notável e bem mais próximo. O ator da Globo foi acusado de assédio sexual por uma figurinista da emissora e, desde então, foi afastado de novelas e outros programas de TV até ser demitido no começo deste ano. De lá para cá, pouco se sabe da carreira do ator, fora que ele teria sido convidado para participar de uma peça de Aguinaldo Silva. 

Por outro lado, já vimos casos de cancelamento que não foram tão bem sucedidos. Taylor Swift é um ótimo exemplo: a cantora já foi "cancelada" inúmeras vezes por conta de sua conduta, tanto em atitudes contraditórias em relação ao feminismo, quanto como a forma com que conduziu a sua carreira. Ainda assim, ela segue sendo uma das cantoras de maior sucesso da atualidade, e sua influência continua gigante. 

Michael Jackson, por mais polêmico que seja, é outro. O músico teve em suas costas acusações sérias (que passam por pedofilia), mas a sua influência cultural é tão grande que é impossível não vê-lo em todos os lugares: são muitos os músicos, dançarinos e artistas no geral que se inspiram no seu trabalho e encontram motivação nas suas músicas. 

Cultura do cancelamento e o bode expiatório

No seu podcast "Still Processing", a colunista do jornal The New York Times Jenna Wortham explica porque a cultura do cancelamento é preocupante: "Essa cultura não funciona, exatamente. Você não pode simplesmente cortar pessoas problemáticas e propriedades ou entidades culturais por completo porque é uma caça às bruxas. Você está lidando com os sintomas de uma sociedade doente, ao invés de tratar da doença". 

Jenna ainda explica que cancelar essas pessoas, ou seja excluí-las totalmente da sociedade ao ponto de torná-las irrelevantes, culturalmente falando, não impede que as mesmas atitudes sejam evitadas no futuro nem compensam os danos que essas pessoas causaram. 

O youtuber Spartakus Santiago chegou a fazer um vídeo no seu canal do Youtube sobre o assunto, e também disse no Twitter como essa cultura tem um forte lado negativo: "Essa cultura do cancelamento é um câncer, e eu precisei passar por um linchamento virtual pra sentir como ela é violenta. Enquanto todo mundo ganha like destruindo alguém, tem um ser humano sozinho tendo que lidar com todo esse ódio. Acredite, é PÉSSIMO", escreveu. 

Realmente, as pessoas erram. Crimes não só podem como devem receber a devida punição perante a justiça, mas cancelar pessoas parece não ser efetivo no sentido de mudar comportamentos e tendências no geral - mas apenas como uma forma de publicamente repreender alguém por algo considerado errado.

Por mais que um puxão de orelha público possa, sim, gerar mudanças de comportamento individuais e traga a discussão para um âmbito mais aberto, parece que só mesmo a conversa sincera e o amparo a todos os lados poderá gerar uma mudança efetiva na forma como a nossa sociedade funciona.

Vilanizar alguém e usá-la como repositório do ódio cotidiano não soluciona questões estruturais, mas as mantém intactas. E oferecer a oportunidade de mudança e trazer a conversa para um lugar mais consciente e inclusivo que, de fato, transformará a nossa forma de nos relacionarmos uns com os outros. "Cancelamento só gera like com base na dor alheia", finaliza Spartakus.