Mercado fechado

Cuidadora denuncia vaga de emprego que excluía negras e gordas em MG

FERNANDA CANOFRE

BELO HORIZONTE, MG (FOLHAPRESS) - Eliangela Carlos Lopes, 41, estava preparando o almoço na casa onde trabalha cuidando de uma senhora de 89 anos, no início deste mês, quando uma mensagem no celular a deixou em choque.

Na tela, um anúncio para dez vagas de cuidadora com a empresa Home Angels Centro-Sul, na capital mineira, que pagaria R$ 100 por plantão com vale-transporte incluso. A empresa, porém, tinha três exigências: mínimo de três meses de experiência e as candidatas não poderiam ser negras e gordas.

Eliangela respondeu em seguida: "Mas que tamanho preconceito. Não pode ser negra nem gorda. Tô chocada" --acompanhada da figura de uma carinha triste. A mulher que enviou o anúncio respondeu: "Exigência deles e não minha! Não posso fazer nada!".

No mesmo dia, depois de contatar uma advogada, Eliangela registrou um boletim de ocorrência denunciando o anúncio por racismo. 

"Quando eu entendi que aquilo era crime, ainda que eu não soubesse apontar em que grau, fui buscar ajuda de alguém que pudesse me orientar", diz ela.

O caso veio à tona nesta quarta-feira (13), mesma semana em que um torcedor do Atlético-MG foi flagrado com ofensas racistas a um segurança do Mineirão. Nesta quinta, ela presta depoimento à Polícia Civil que instaurou um inquérito para investigar o caso.

"Sou negra, tenho 41 anos, sou semianalfabeta, moradora de Ribeirão das Neves (região metropolitana de BH) e me vi totalmente impotente para o futuro próximo. A sensação que eu tive foi essa".

Uma nota divulgada pela polícia diz que "a linha de investigação aponta para crime de racismo, uma vez que, conforme versão apresentada no registro de ocorrência, fere um número indeterminado de pessoas".

O crime de racismo é definido por lei própria (7.716/1989) e prevê pena de um a três anos de reclusão e multa para quem "praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional". É inafiançável e imprescritível.

Em um dos parágrafos, a lei diz que se o crime for cometido por intermédio de meios de comunicação ou publicação de qualquer natureza, a pena prevista sobe para dois a cinco anos e multa.

Além do crime de racismo, o Código Penal brasileiro trata de injúria racial --quando se ofende uma ou mais pessoas por "elementos referentes à raça, cor, etnia, religião e origem". É inafiançável e prescreve dentro de oito anos.

Procurada pela reportagem, a responsável pela empresa Leveza do Afeto, Fernanda Spadinger, que enviou o anúncio para cuidadoras, disse que não iria se manifestar sobre o caso. Na quarta-feira, segundo reportagem do portal G1, ela disse que sua intenção era empregar e que "copiou e colou o anúncio para atender a demanda".

A Home Angels diz que está apurando os fatos e que Fernanda não possui vínculo com a empresa, nem foi autorizada a divulgar vagas em nome deles. Por meio de nota, a empresa "repudia com veemência todo e qualquer ato de injúria racial ou racismo, em todas as suas formas de manifestação".

Eliangela é cuidadora há sete anos. Ela conta que conheceu Fernanda há dois e foi através dela que conseguiu a vaga na casa onde trabalha hoje.

Antes, foi cabeleireira, manicure, balconista, babá, auxiliar de cozinha, camelô, vendedora de maçã do amor na porta de uma escola. Diz que se reinventa para sobreviver.

Ela conta lembrar de situações de humilhação. Em uma casa em que trabalhou, pediram que deixasse de usar turbante e que já deixou de ser atendida em shoppings por estar vestida de uniforme.

"A gente sofre preconceito todos os dias, só que muitas vezes a gente tem que se calar para não perder o emprego, para não sofrer represália. Foi o que aconteceu assim que saiu a primeira reportagem do caso. Algumas amigas ficaram contra mim", diz ela.

O presidente da Associação de Cuidadores de Idosos de Minas Gerais, Jorge Roberto, diz que a entidade vai apoiar as cuidadoras, caso decidirem por ação coletiva no caso. Ele chamou o que aconteceu com Eliangela de "absurdo que beira a crueldade". "Essa mensagem chegou a outras cuidadoras, contudo ficaram com muito medo [de denunciar]".