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'Essa crise obriga a gastar', diz economista-chefe do FMI

Por Heather SCOTT and Delpine TOUITOU
Gita Gopinath, economista-chefe do FMI

A globalização sofreu críticas exacerbadas pela crise causada pela pandemia de coronavírus, disse Gita Gopinath, economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), em entrevista à AFP. Ela pediu que os países trabalhem juntos pela recuperação.

AFP: O quanto você está preocupada pelos indícios de uma reação frente à globalização?

Gita Gopinath: Mesmo antes do início da crise, vimos sérias questões sobre a globalização e seus benefícios. Também vimos um aumento nas tensões comerciais.

Agora provavelmente essa crise exacerbou um pouco isso. Mas é muito importante que os países trabalhem juntos e fizemos uma apelo explícito para que não imponham restrições às exportações, por exemplo, de equipamentos médicos, porque nesses tempos o mundo precisa de todos juntos. Precisam ser colaborativos e se colocarem de acordo.

O sistema não é perfeito, o sistema multilateral de comércio precisa de melhorias e os países devem trabalhar juntos para melhorá-lo. Mas deslocar a produção não é uma boa estratégia de crescimento e não é uma boa estratégia para aliviar a pobreza no mundo.

AFP: Qual é a melhor estratégia para que os governos evitem um dano de longo prazo em suas economias?

Gita Gopinath: Essa crise obriga os países a gastar. Se ainda não o fizeram, enfrentamos uma recuperação mais difícil, com muito mais pessoas que perderam sua renda e que não têm meios de subsistência.

Esta crise foi diferente quando comparada à Grande Recessão. A entrega da ajuda tem sido rápida, substancial e direcionada, o que ajudou em termos absolutos e acredito que os formuladores de políticas têm o impulso de fazer o que for preciso.

Se não fizéssemos isso em um momento como esse, estaríamos em uma posição muito pior para a recuperação.

Mas se olharmos para o futuro, o que precisamos construir é uma recuperação rica em empregos para a economia global. Parte disso exigirá subsídios para que as empresas possam contratar pessoas que de outra forma ficariam desempregadas de longa duração.

Nossa posição é que os formuladores de políticas públicas precisam se adaptar à medida que a situação evolui. O apoio não pode ser removido muito rapidamente. E mais ajuda pode ser necessária porque a crise não acabou e está avançando.

AFP: Como você vê as perspectivas dos Estados Unidos em um momento em que há notícias de aumento de casos em alguns estados?

Gita Gopinath: O maior impacto ocorrerá no segundo trimestre e, em seguida, esperamos ver recuperações. Já vimos alguma recuperação em alguns setores, embora seja bastante desigual e esperamos que a recuperação seja gradual. Mesmo até o final de 2021, nossas projeções apontam para o nível do PIB abaixo do que era em 2019.

Em nossa base de cálculo, deixamos espaço para incorporar um possível aumento no número de casos, mas não uma segunda onda. Se isso acontecer, e isso vale para qualquer país, será um risco maior.

Os Estados Unidos forneceram apoio substancial e sem precedentes, tanto no lado fiscal quanto no monetário. E isso tem sido uma grande ajuda. Isso ajudou a apoiar com sucesso as pessoas a fornecer-lhes uma renda e também a evitar falências em larga escala. Portanto, essas duas coisas devem ajudar na recuperação.