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Crise nas Infinitas Terras dita os rumos do novo Multiverso DC na TV e no cinema

Claudio Yuge

Depois de dois meses de exibição, cinco episódios especiais, cinco horas de histórias, trilhões de vidas em risco e dezenas de heróis em ação, eis que o canal CW encerra o evento desta temporada do Arrowverse, no maior crossover transmídia de todos os tempos, em Crise nas Infinitas Terras. Embora a execução tenha lá seus defeitos, é inegável que a atração tornou-se um marco na história do entretenimento e também funcionou para estabelecer de vez o Multiverso da DC Comics na TV e no cinema, definindo melhor as propriedades da Warner Bros no mercado.

ATENÇÃO: há vários spoilers sobre os episódios finais, então, se você ainda não viu, é melhor voltar para ler depois

Antes de falar sobre a conclusão e as consequências disso para o Universo Estendido DC (DCEU, na sigla em inglês) daqui para frente, é preciso lembrar um pouco a história recente da DC Films e os episódios anteriores de Crise nas Infinitas Terras — devidamente comentados aqui nesta matéria.

Bem, todo mundo sabe que a primeira fase dos filmes do DCEU não foi bem-sucedida, com Lanterna Verde, Batman vs Superman: A Origem da Justiça e Liga da Justiça amargando fracassos. A vontade de transformar o DCEU em um universo compartilhado e sincronizado com os quadrinhos e a TV, como o Marvel Studios conseguiu com o Universo Cinematográfico Marvel, atrasou a concretização do Universo DC fora das revistas.

Eis que na San Diego Comic-Con de 2018, a Warner Bros, que já havia mudado a direção da DC Films, mostrou, discretamente, uma alteração também no seu conceito de DCEU, com os paineis recebendo a tagline “Worlds of DC”. Naquele momento, a companhia abraçou o que a DC Comics tem de maior diferença em relação à Marvel: seu Multiverso. Assim, ela desencanou de querer alinhar todas suas criações e assumiu de vez que cada um de seus filmes, desenhos, games e quadrinhos, podem interagir sobre uma mesma aba, mas em Terras paralelas.

Imagem: Reprodução/DC Comics

Para estabelecer isso, nada melhor do que o evento que fez a mesma coisa nas HQs. Assim, Crise nas Infinitas Terras não foi somente o crossover da temporada para o Arrowverse: tornou-se uma jogada estratégica para redefinir o DCEU para os próximos anos.

Crise tem história parecida

Bem, no final de 2019, tivemos três capítulos especiais, que basicamente introduziram o primeiro segmento do conflito entre os heróis do Arrowverse contra a ameaça do Antimonitor, que pretende tomar conta de todas as Terras do Multiverso com sua onda antimatéria. Diferente dos quadrinhos, para vencer o vilão, foram escolhidos sete “protótipos”, que são como avatares.

Imagem: Reprodução/The CW

São eles: Batwoman (Coragem), Supergirl (Esperança), Canário Branco (Destino), Superman do Reino do Amanhã (Verdade) — que teve seu lugar tomado por Lex Luthor —, Caçador de Marte (Honra), Átomo Ryan Choi (Humanidade) e Flash (Amor). Nos dois episódios finais, exibidos em Arrow e DC’s Legends of Tomorrow, os heróis conseguem vencer o Antimonitor com o sacrifício de Oliver Queen, que deixa de ser o Arqueiro Verde para se tornar o Espectro.

Momentos WTF

A grande sacada de Crise nas Infinitas Terras foi apostar na memória afetiva dos fãs e trazer dezenas de referências dos vários anos de DC Comics na Warner. Já na primeira leva de episódios, pudemos ver easter eggs de Batman, filme de Tim Burton exibido nos anos 1990, e do Robin, da série dos anos 60; dos seriados Smallville e Flash dos anos 90, além deTitans, Lúcifer e Raio Negro; e da minissérie em quadrinhos Reino do Amanhã. Todas essas aparições foram muito divertidas, mas pouco funcionais para a história — ou seja, estavam lá mesmo somente para fazer o fan service e não interferiram muito na trama.

Já nos episódios finais, vemos mais momentos de tirar o fôlego, mas, desta vez, com maior impacto na história e no DCEU. No episódio de Arrow, temos o sensacional encontro do Barry Allen de Grant Gustin, da série Flash, com o Barry Allen de Ezra Miller, de Liga da Justiça e do vindouro longa do Velocista Escarlate.

Imagem: Reprodução/The CW

No capítulo final, em DC’s Legends of Tomorrow, vemos desde menções à todas as Terras, incluindo a do Lanterna Verde (sim, do péssimo filme protagonizado por Ryan Reynolds), à cafonice que a DC Comics costuma ter com alguns vilões e histórias clássicas; houve ainda efetivação da Liga da Justiça, com direito a cadeirinha e tudo mais e, pasmem, à Gleek, o macaco dos Supergêmeos, que não apareceram, mas deixaram o suspense no ar, incluindo a mesma trilha sonora e a Sala de Justiça dos Superamigos.

Imagem: Reprodução/The CW

Execução deixou a desejar

Bem, embora o plano de ser o maior crossover transmídia de todos os tempos tenha se concretizado, ele não foi, assim, digamos, executado com excelência. A trama, em si, soa muito confusa para quem não leu os quadrinhos ou acompanhou cada uma das séries. Em certo momento, os heróis revisitam episódios de Arrow, The Flash, Supergirl e DC’s Legends of Tomorrow, de maneira semelhante a que Vingadores: Ultimato fez com seus heróis durante viagem no tempo.

Além disso, há uma clara falta de equilíbrio nas participações e momentos heróicos de cada personagem. Isso causa diálogos desnecessários e enfadonhos. Sem contar as cenas de ação: muitas delas são completamente descoordenadas e dá para notar que, nas aparições coadjuvantes mais rápidas, as coisas foram gravadas sem muito cuidado — alguns atores nem mesmo fingem direito que estão atuando com monstros virtuais na frente de uma tela verde. O próprio intérprete do vilão não ajuda muito.

Imagem: Reprodução/The CW

Os efeitos especiais, embora apresentem bons momentos, também deixam bastante a desejar, principalmente nas lutas mais ferozes. A ação se limita a um monte de gente batendo em fantasmas e trocando raios pelas mãos ou pelos olhos. Faltaram criatividade, melhor direção de sequências de luta e, claro, dinheiro.

O que ficou estabelecido a partir de agora no DCEU?

Bem, mesmo com todas essas limitações, Crise nas Infinitas Terras termina com um saldo positivo e reposiciona as principais criações atuais do DCEU nas telinhas e nas telonas. A começar pelo Arrowverse, que agora não tem diferentes Terras para a turma do Arqueiro Verde, do Flash, da Supergirl, da Batwoman e do grupo DC’s Legends of Tomorrow. A partir de agora, todos convivem em uma mesma Terra, chamada de Terra Primordial.

Imagem: Reprodução/The CW

A Terra Primordial agora tem Lex Luthor como seu maior benfeitor — uma das consequências da Crise, pois o vilão se aproveita do evento para mudar algumas coisas no mundo, durante a recriação das Terras do Multiverso. Isso vai mudar bastante a dinâmica de todos no Arrowverse e a própria CW já confirmou uma nova série de Superman e Lois, que vão lidar com essa situação e dois filhos. Antes, a emissora havia adiantado que Arrow continua neste ano com novo nome, Green Arrow and the Canaries (como dá para notar, o foco é no grupo de heroínas).

Imagem: Reprodução/The CW

A vindoura série de Stargirl ficou alinhada na Terra-2, onde devem ficar os personagens do grupo de velha guarda Sociedade da Justiça. A Terra-12 é onde se passou o primeiro filme do DCEU, Lanterna Verde. Monstro do Pântano, série cancelada prematuramente no streaming DC Universe, ficou na Terra-19. Já Titans está na Terra-9, enquanto a Patrulha do Destino foi posicionada na Terra-21. A Terra-96 virou o lar do Superman de Brandon Routh (daquele filme lá de 2006, dirigido por Bryan Singer), que se tornou algo próximo ao Homem de Aço de Reino do Amanhã.

Imagem: Reprodução/The CW

E, finalmente, na Terra Primordial, é onde tudo vai acontecer no Arrowverse, que passa a ter uma Liga da Justiça com Ajax, Batwoman, Canário Branco, Supergirl, Flash, Raio Negro e Superman. A Terra onde se desenrolam os eventos dos filmes Liga da Justiça, Mulher-Maravilha, Shazam e Flash deve ser a mesma, mas, por enquanto, não foi confirmada — aparentemente não é a Terra Primordial. Também não dá para saber em que Terra está o Coringa de Joaquin Phoenix.

Imagem: Reprodução/The CW

Enfim, Crise nas Infinitas Terras não foi assim aquele evento com nota máxima, mas conseguiu trazer com dignidade a história dos quadrinhos para a TV, com direito a momentos de muita diversão e cafonice, no melhor estilo DC. Fica agora a esperança de que o futuro seja ainda melhor para esses heróis e vilões.

Fonte: Canaltech

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