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Coronavírus: crianças apresentam estresse pós-traumático devido à pandemia

Diz-se que a saúde mental das crianças foi afetada pelo surto de coronavírus. (Getty Images)

As crianças estão desenvolvendo transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) como resultado do surto de coronavírus, alertou uma instituição de caridade. O Children's's Trust disse que os jovens estão passando por "pesadelos vívidos", um potencial sinal de alerta da doença.

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Manchetes diárias sobre o aumento do número de mortos, com mais de 480.000 mortes confirmadas em todo o mundo, também estão deixando os mais novos ansiosos.

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As crianças mais desfavorecidas estão sofrendo mais, pois a pandemia aumenta o abismo entre pessoas de áreas ricas e as de áreas menos abastadas.

Residentes de comunidades carentes são frequentemente trabalhadores da linha de frente, como entregadores e funcionários de assistência social, e muitos de seus filhos estão preocupados com a saúde dos pais, principalmente se os adultos "transferirem" suas ansiedades para eles.

Pesquisas anteriores sugerem que a infecção é leve em quatro de cinco casos, mas pode desencadear uma doença respiratória chamada COVID-19.

Uma menina em idade escolar coloca uma máscara antes de entrar em uma escola em Frankfurt. (Getty Images)

"Parece que vai acabar com a humanidade"

Em seu relatório Children in Lockdown (Crianças de Quarentena), o Children's's Trust destacou as dificuldades relacionadas à saúde mental que muitos jovens enfrentam como resultado do coronavírus.

O relatório alerta que os números diários de fatalidade são particularmente angustiantes para alguns.

"Essas crianças viram tudo isso e internalizaram essas informações", disse Laurence Guinness, diretor executivo da instituição.

Um garoto de 11 anos disse no relatório: "Como houve muitas mortes, para mim parece que isso acabará com a humanidade em breve".

Dra. Maria Loades, psicóloga clínica da Universidade de Bath, alertou que a quarentena "provavelmente aumentará o risco de depressão e provável ansiedade, além de possível estresse pós-traumático".

Não é a primeira vez que essa questão é levantada, já que anteriormente especialistas de todo o mundo afirmaram que a pandemia poderia ter um impacto "profundo" e "extenso" na saúde mental.

A instituição entrevistou 2.000 jovens que tinham problemas de saúde mental antes do surgimento do coronavírus. Mais de quatro em cada cinco (83%) disseram que a pandemia agravou suas dificuldades.

Uma menina de 10 anos disse que "grita ao telefone" quando seus amigos ligam para checar como ela está porque se sente "muito estressada".

Galiema Amien-Cloete, diretora de uma escola primária de Londres, disse à BBC que está vendo as ansiedades dos pais sendo transferidas para as crianças.

Ela também disse que a falta de rotina, de contato com amigos e da educação em um ambiente regular podem ser "como uma privação" para as crianças.

Isso ocorre apesar das crianças estarem em menor risco de complicações decorrentes do coronavírus do que os adultos, caso se infectem.

"Mamãe vai morrer, ela não vai voltar"

O isolamento social no Reino Unido foi introduzido em 23 de março para ajudar a conter a propagação da infecção.

Enquanto as autoridades enfatizaram que a medida extrema era crucial para proteger o Serviço Nacional de Saúde, os especialistas temiam que os menos favorecidos sofressem mais.

Boris Johnson fechou escolas e creches em 20 de março, e, até o momento, os serviços voltaram apenas para algumas faixas etárias.

O Children's's Trust alertou que os jovens sem acesso à Internet que não podem participar de aulas virtuais em casa estão ficando para trás, em comparação com os seus colegas mais ricos.

Os autores do relatório enfatizaram que essa "desigualdade" deve ser "contabilizada imediatamente" para evitar consequências a longo prazo.

Da mesma forma, essas crianças são excluídas da oportunidade de terapia on-line ou de consultas médicas.

As crianças vulneráveis ​​também não conseguem ter contato com seus professores, treinados para detectar sinais de abuso ou negligência.

Afirma-se que as denúncias de abuso por parte dos professores despencaram, mas o School Home Support (Suporte Doméstico Escolar) alega um aumento de 750% no número de crianças que precisam ser encaminhadas para esse serviço, em comparação com 2019.

Muitos apontam para o consumo excessivo de álcool, com vendas declaradamente crescendo mais de um quinto (21%) desde o início do isolamento social.

O ex-Secretário de Estado de Assuntos Internos e chanceler, Sajid Javid, alertou, desde o início, que o surto poderia ser uma "crise ideal" para o abuso de crianças, com jovens vulneráveis ​​"deixados para se isolarem ao lado do agressor".

Com a instabilidade de empregos, devido à crise econômica, muitas crianças também passam fome.

Pesquisas mostram que 2 milhões de crianças passaram fome desde 23 de março, contra os 1,3 milhão de jovens que antes já tinham direito a uma refeição escolar gratuita.

A demanda do banco de alimentos de emergência também aumentou 89% em abril, em comparação com o mesmo período em 2019.

Quando se trata de trabalhadores-chave, os funcionários da linha de frente geralmente não conseguem se distanciar socialmente de indivíduos potencialmente infecciosos, tornando-os mais vulneráveis.

Uma menina em idade escolar disse que, toda vez que sua mãe sai para o trabalho, ela acha que a "mamãe vai morrer, ela não vai voltar".

Pesquisas têm mostrado repetidamente que pessoas negras, asiáticas ou de minorias étnicas têm maior probabilidade de ficar gravemente doentes com o coronavírus.

Esses indivíduos geralmente são trabalhadores da linha de frente que vivem em casas superlotadas, em áreas carentes.

Também foram levantadas preocupações com as crianças com autismo, que se beneficiam particularmente de uma rotina estável.

Enquanto o isolamento social está diminuindo gradualmente, as autoridades alertaram que talvez tenhamos que nos adaptar a um "novo normal", sem que ninguém possa dizer com certeza o que isso poderia acarretar.

"Acho que precisamos ter consciência de que isso não vai acabar por um bom tempo, porque teremos que lidar com o impacto disso nas crianças", disse Amien-Cloete.

Como detectar Transtorno de Estresse Pós-Traumático em crianças

Crianças com TEPT frequentemente apresentam sintomas semelhantes aos adultos com essa condição.Isso pode incluir insônia, pesadelos e perda de interesse nas atividades que antes desfrutavam.

Outras podem começar a se comportar diferente, evitando coisas relacionadas ao trauma que sofreram ou encenando o evento repetidamente enquanto brincam.

É comum que as crianças neguem o que ocorreu ou se assustem quando percebem uma possível ameaça. Alguns também podem sentir uma tristeza intensa ou contínua, além de apresentarem irritações ou explosões de raiva.

As crianças com TEPT também podem ficar retraídas e agir como se estivessem desoladas ou sem esperança. Quando se trata de sintomas físicos, os jovens podem se queixar de dores de cabeça ou dor abdominal.

Alexandra Thompson