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Crianças quilombolas e ribeirinhas criam heróis contra a Covid em cadernos de arte

MATHEUS MOREIRA
·3 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Projeto de democratização do acesso ao cinema em periferias e comunidades tradicionais em Belém do Pará, o Telas em Movimento promoveu uma vaquinha virtual para levar assistência emergencial a 80 famílias na pandemia. Impulsionado pelo Matchfunding Enfrente, fundo lançado pela Fundação Tide Setubal, o Telas obteve R$ 33 mil em um mês de campanha, ampliando para 500 o número de famílias beneficiadas. Durante a distribuição das doações, uma oficina de grafite para jovens e crianças acabou por estimular o surgimento de um segundo projeto. “Uma delas veio até mim e disse que se fosse um super-herói derrotaria o coronavírus”, relata Joyce Cursino, uma das idealizadoras do Telas em Movimento. Nascia ali, ainda no primeiro semestre do ano em que a Terra parou por causa do novo vírus, o Telas da Esperança, por meio do qual as cestas básicas eram incrementadas com cadernos de arte educação desenvolvidos pelo Coletivo Pretinta. A ideia era que as crianças criassem suas histórias de luta contra o coronavírus. Pelo menos cem receberam os kits de arte educação e criaram seus próprios heróis e histórias. Um caso chamou a atenção da equipe. “O Homem Andiroba” foi um dos personagens mais criativos por refletir a realidade dos povos quilombolas e ribeirinhos. “O óleo de andiroba tem propriedades medicinais e é uma coisa muito nossa, da região da Amazônia”, explica Joyce, sobre a criação de um dos beneficiários mirins do Telas da Esperança. O óleo ou azeite de andiroba é extraído das sementes do fruto da árvore nativa da Amazônia, que pode chegar a 30 metros de altura. É usado na fabricação de repelentes, antissépticos e até anti-inflamatórios. Talison Luiz, que vive no quilombo Pitimandeua, no município de Inhangapí, no nordeste do Pará, criou a heroína Mara, que podia lançar com as mãos álcool em gel e água e sabão. Destinada a salvar “os idosos e as pessoas do mundo”, a superpoderosa apareceu para salvar um tio do garoto infectado pelo coronavírus. “O edital do Enfrente deu início a isso tudo”, diz Joyce. A cada R$ 1 doado na plataforma da Benfeitoria, outros R$ 2 eram doados para a entidade beneficiada pelo Matchfunding Enfrente, uma das 30 iniciativas de destaque do Emprendedor Social do Ano. O dinheiro vinha de um fundo criado pela Fundação Tide Setubal e parceiros. Assim como o Telas em Movimento, outras 264 iniciativas foram financiadas em 23 estados brasileiros, totalizando um aporte de R$ 7,2 milhões e impactando 21 mil pessoas. O estopim que o Matchfunding Enfrente proporcionou ao Telas só foi possível porque o projeto, ainda que jovem —nasceu em 2019— está nas periferias, quilombos e comunidades ribeirinhas em maior presença que o próprio Estado. A comunicação do poder público não era eficiente, não tinha capilaridade, segundo Joyce. Por essa razão, o Telas utilizou parte do dinheiro obtido com o financiamento coletivo por meio da Benfeitoria para elaborar uma campanha de comunicação mais efetiva sobre os riscos da Covid-19 e como se prevenir. Foram elaborados e distribuídos manuais. Coletivos de comunicação comunitária receberam apoio em ações para instalação de faixas informativas, com custeio de carros de som com avisos sobre a doença. Destinaram verba para mobilização de agentes de saúde em locais distantes, incluindo, por exemplo, a ida de psicólogos às comunidades. O Telas é um projeto que tem como requisito mínimo para existir a conexão, o contato. Por causa da pandemia, a equipe descobriu novas formas de se conectar e que estar perto nem sempre é físico. “Fizemos toda uma comunicação voltada para falar com a nossa comunidade, com as periferias com as quais nos conectamos por meio desse projeto”, explica Joyce. Realizadores do Festival de Cinema das Periferias da Amazônia, o Telas em Movimento prova que é mais que um evento. “Aconteça o que acontecer nessas comunidades, vamos reagir a isso com arte, cinema e comunicação.”