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Crianças e idosos estão entre os mais afetados pela fome no estado do Rio

Sentado no canteiro central da Avenida Presidente Vargas, no centro do Rio, Flávio de Paula, de 53 anos, divide uma única quentinha, que comprou por R$ 12, entre ele e os três filhos — de 10, 4 e 2 anos. É uma colherada para ele mesmo, outra na boca de cada um dos meninos. Num casebre que é só um corredor e um teto, sem banheiro nem nada, na favela de Acari, na Zona Norte, Juraci da Silva, de 73 anos, também almoça uma quentinha doada por uma igreja, sob o olhar atento de uma gata que tenta lhe roubar um pedaço de linguiça. Mas a idosa só come parte da refeição, porque tem que guardar o restante para o jantar.

Nos dois extremos da vida, seja na infância dos garotos de Flávio ou na velhice de Juraci, privações para botar comida no prato têm se imposto, com mostra pesquisa da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Penssan). De acordo com o levantamento, 2,8 milhões de pessoas passam fome no Estado do Rio.

No caso dos filhos de Flávio, os três não chegam a ficar de barriga vazia, mas a família vive na corda bamba para evitar chegar à situação mais extrema. Diariamente, após o menino mais velho sair da escola, depois das 11h, em Parada Angélica, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, ele e os irmãos vão junto com o pai vender balas, chicletes e biscoitos nos sinais de trânsito próximos à Central do Brasil. O menorzinho não sai um segundo da corcunda de Flávio. Mas os outros dois trabalham, de janela em janela pelos carros parados.

— É melhor estar com o pai do que com outras pessoas — diz Flávio. — Os meninos vendem legalzinho. Sem eles passaríamos mais necessidades ainda — completa o pai, cuja mulher fica em casa cuidando de uma quarta filha do casal, atualmente com 4 meses.

R$ 30 por dia

Com pai e filhos na lida, a família gasta R$ 20,10 só de passagem de Caxias ao centro do Rio. Tem ainda as despesas para comprar mercadorias e o almoço, que Flávio pede ao vendedor que complete com farinha de mandioca, para dar mais “sustância” e, assim, repartir entre os quatro. Eles chegam em casa, em média, com pouco menos de R$ 30 por dia — o que daria cerca de R$ 630 em 21 dias úteis. Só com as latas de leite com a bebê mais nova, vão R$ 220 mensais. Outro gasto que pesa no orçamento é o gás, que custa R$ 120 onde ele mora. Com o pouco que sobra, é contar cada real para não faltar o que comer e, no mais, adotar estratégias de economia diárias.

— O café, com esse preço que disparou no mercado, coamos de manhã e reutilizamos a borra o resto do dia inteiro. Dá para comer coisas básicas: salsicha, ovo... Às vezes tem tomate, às vezes não tem. Passo no aviário, compro pescoço e pé de galinha para fazer uma canja. Mas carne é muito raro. Outro dia passei no açougue para olhar o preço do quilo do contrafilé. Eu precisaria trabalhar três, quatro dias para comprar o quilo e ter mais algo para comer. É impossível — calcula ele, que já foi gari, ajudante de pedreiro, auxiliar de serviços gerais e, no último trabalho com carteira assinada, há cerca de sete anos, porteiro de escola municipal na sua cidade.

Para piorar, a família não tem sequer o Auxílio Brasil, porque Flávio não consegue reunir todos os documentos necessários para a inscrição no programa. Há algum tempo, por exemplo, ele não tem identidade, que molhou numa chuva torrencial enquanto trabalhava — o celular, daqueles antigos, ele também perdeu trabalhando: foi furtado na Presidente Vargas.

Sem alimentação adequada, comendo pouco ou consumindo muitos alimentos ultraprocessados, como biscoitos, que costumam ser mais baratos, as consequências aparecem na saúde de crianças.

Dados levantados pela Área Técnica de Alimentação e Nutrição (Atan) da Secretaria estadual de Saúde apontam, por exemplo, para o baixo peso de meninos e meninas de até 10 anos no Rio. Com base no Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional do Ministério da Saúde (Sisvan, que contém os registros de estado nutricional dessas crianças), identifica-se que, em 2021, 51 dos 92 municípios fluminenses tinham o percentual de registros de magreza acentuada e magreza acima da média nacional, de 6%. Na média, os registros de baixo peso no estado ficaram em 6,2%, acima da média de 5,2% para a Região Sudeste.

Já na fase idosa, a falta de alimentação adequada tem uma consequência cruel. Nos últimos dez anos, mais de cinco mil pessoas com mais de 60 anos morreram por desnutrição no Estado do Rio, de acordo com a plataforma DataSUS, do governo federal.

— Embora a gente não tenha dados específicos sobre a insegurança alimentar na população idosa, sabemos que a fome tem um impacto muito rápido sobre essas pessoas. Antecipa a morte — afirma Dália Romero, chefe do Laboratório de Informação em Saúde (LIS) do Instituto de Comunicação e Informação Científica em Saúde (Icict/Fiocruz). — Passar fome, para a população idosa que já está passando por uma perda biológica, de oportunidades, uma perda social, pela solidão e pelo abandono pode ser mais grave do que qualquer doença.

De acordo com a pesquisadora, desde 2019, antes da pandemia, a Fiocruz já alertava sobre o retrocesso em relação à segurança social, alimentar e de saúde da população idosa no Brasil:

— Envelhecer no Brasil é muito perigoso e pode ser deprimente. Às vezes, a fome não é consequência apenas da falta de recursos econômicos e sim de um abandono social, da ausência do estado. Esse abandono vai contra o Estatuto do Idoso e fere a Constituição Federal.

Sem porta, pia, chuveiro

Dona Juraci viveu uma vida de explorações e desilusões. Nascida no interior do Rio Grande do Sul, ela conta que, ainda criança, foi vendida pela mãe e, até a juventude, viveu uma situação análoga à escravidão numa fazenda. No Rio, ela se casou. Mas, quando o marido morreu, dez anos atrás, o enteado a internou num hospital e, depois, numa clínica para idosos, de onde nunca mais voltou para a antiga casa. Com uma pensão de um salário mínimo, ela decidiu viver de aluguel em Acari.

De casa em casa, parou onde está hoje, numa linha muito tênue entre um teto e a situação de rua. Ela paga R$ 150 de aluguel por uma espécie de corredor com um teto entre duas outras construções. Porta não tem, ela cobre a entrada com um plástico preto. Não tem banheiro, chuveiro, pia, eletrodoméstico algum, nem móveis. Ela guarda as roupas em sacolas. Tem uma única bica d’água. E essa precariedade é agravada se levadas em conta as condições de saúde de Juraci, piorada pela alimentação inadequada. Ela tem asma, reumatismo, tendinite aguda e, há alguns anos, já não anda. No mesmo lugar onde passa os dias sentada, ela dorme, se alimenta, toma banho...

Antes de ficar debilitada, Juraci conta que ainda conseguia cozinhar ali, num fogão improvisado com tijolos e lenha. Agora, depende de doações e de que outras pessoas comprem o que ela precisa.

— Hoje, por exemplo, veio linguiça. Não poderia comer, mas vou — diz ela, que naquele dia queria comer um pão com mortadela e guaraná.

Colaborou: Natália Oliveira

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