Mercado abrirá em 8 h 32 min

Isolamento social faz delivery de bebidas alcoólicas disparar

High angle shot of a blank six pack of brown beer bottles on a rustic white wood table. Horizontal format with copy space.

Por Matheus Mans

Sérgio Vieira de Souza e Castro resolveu unir o momento calmo da aposentadoria com uma paixão antiga: as cervejas artesanais. Empresário do ramo de papelarias e informática, ele decidiu abrir o Armazém Cervejeiro numa esquina na zona sul de São Paulo. A ideia, no início, era fazer algo pequeno e caseiro. Mas agora o negócio cresceu.

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Logo no início da quarentena causada pelo novo coronavírus, Sérgio decidiu colocar sua loja atendendo por WhatsApp. Vende principalmente as cervejas, mas também comercializa produtos para que os clientes tenham acesso às ferramentas de fabricar a própria bebida. Começou com um entregador contratado. Hoje são três, que tentam atender o crescimento de 300% nas vendas totais.

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“Não consigo entender o que houve”, conta Sérgio, que precisou interromper a entrevista diversas vezes para atender pedidos online. “Sempre vivi num esquema ‘presidencial’. Sem telefone. Não tenho nem Facebook. Sempre foi olho no olho. Agora vem gente do outro lado da cidade para comprar da loja. É uma coisa maluca. Os bares foram pra dentro das casas”.

No Soul Botequim, localizado no bairro do Brooklin, a saída também foi levar seus produtos diretamente para o delivery. Com cervejas, vinhos, chopes e petiscos, eles viram quintuplicar as vendas de bebidas artesanais online. Dessa forma, eles conseguem manter o negócio funcionando e evitam de fechar as portas de vez no período de quarentena.

Para complementar de vez o clima de boteco na casa dos clientes, Humberto Ribeiro, sócio-fundador do estabelecimento, está fazendo lives com os músicos que geralmente se apresentam na casa. No final, passam um “chapéu virtual”.

E isso não é algo local. Grandes serviços de delivery, que já contavam com forte demanda, também viram o número de pedidos saltar. De acordo com pesquisa sobre comportamento na quarentena feita pela consultoria Opinion Box, pedidos via delivery aceleraram 26% durante a quarentena. E dos 2 mil entrevistados, 16% aumentaram a ingestão de álcool.

No serviço de delivery Bebida na Porta, que faz entregas de bebidas, as vendas cresceram 80% desde o início da quarentena — e o produto mais pedido continua sendo a cerveja.

“O comportamento do consumidor também mudou nesse período”, conta Jessica Gordon, fundadora e CEO. “Antes, a maioria dos pedidos chegavam no período da noite. Geralmente depois que as pessoas chegavam do trabalho. Agora, porém, os pedidos se concentram à tarde, principalmente no final do período. As pessoas se preparam pra noite”.

Gordon ainda conta que os pedidos apenas aceleraram um movimento que iria acontecer um momento ou outro. “A gente já vinha em um crescimento constante. Mas o que aconteceu agora foi uma aceleração desse processo de digitalização”, disse ela. “Tivemos que mudar nossos turnos e nos preparamos para não enfrentar um desabastecimento”.

Procuradas, Evino, Saideira e Zé Delivery não responderam ou negaram os pedidos de entrevista. No caso da Zé Delivery, da Ambev, alegaram estar em “período de silêncio”.

Caso de saúde

Este movimento observado é preocupante. A Organização Mundial da Saúde (OMS) vem alertando que o consumo de álcool durante a quarentena pode ser prejudicial. Afinal, vivendo em isolamento, o consumidor pode não ter noção do quanto está consumindo. Os bares, hoje fechados em todo o Brasil, se tornaram a própria casa das pessoas.

“É um novo fenômeno que a gente tem observado”, afirma a psiquiatra Alessandra Diehl, especialista em dependência química e vice-presidente da Associação Brasileira de Estudos Sobre o Álcool e Outras Drogas (ABEAD). “Por conta do confinamento, as pessoas estão com mais acesso e sendo incentivadas, em lives e deliveries, a consumir mais”.

Segundo a psiquiatra, faltam avisos para o público entender os efeitos das bebidas. Em lives de cantores, por exemplo, há um excesso de exposição de marcas de cerveja — e até de vodka, no caso da live do cantor Gusttavo Lima. Em serviços de delivery, enquanto isso, não há avisos. “As propagandas e o consumo chega disfarçado ao consumidor”, diz ela.

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