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Crítica | Vozes e Vultos e a beleza do destino traçado pelos maus

Sihan Felix
·4 minuto de leitura

Parece existir uma lacuna vazia entre o filme que é assistido e aquele que pede para ser descoberto. Isso é raro, já que esse meio do caminho é preenchido instintivamente, geralmente por afetos pessoais. Vozes e Vultos, portanto, é construído para o espectador perceber-se ativo; é quando ele (o espectador) preenche espaços em branco de maneira voluntária. Há essa liberdade para completar os vazios que não são vãos.

Pouco a pouco, enquanto o início típico do subgênero de casa mal-assombrada é desenvolvido, a dupla diretora, Shari Springer Berman e Robert Pulcini (indicada ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado por Anti-Herói Americano, de 2003), marca pistas. É como se fosse João e Maria (ou Maria e João) e estivesse deixando migalhas de pão pelo caminho. Tudo para que, mais à frente, os pedacinhos possam ser catados e formem algo sólido.

Atenção! Esta crítica pode conter spoilers sobre o filme!

Rumo ao inferno

Vozes e Vultos é adaptado por Berman e Pulcini (de um livro escrito por Elizabeth Brundage) com uma consciência narrativa bem interessante e, a princípio, sempre pronta para quebrar expectativas. Por essa perspectiva, tudo o que é belo está, na prática, indo em direção ao escuro, ao fim. Seja o homem-padrão-de-beleza e supostamente muito competente ou até mesmo a esposa amorosa e tão bonita quanto, ninguém está imune à irremediável morte.

A questão, porém, é o agente que mata o belo e, assim, cava a sua própria cova. Aqui, portanto, George Claire (James Norton) é esse sujeito. Desde o princípio, ele é apresentado de maneira ativa: como é um bom marido e um pai dedicado, como conseguiu um emprego prestigiado, como comprou uma casa vistosa, como conquistou os alunos tão rapidamente, como encantou uma jovem (Willis — interpretada por Natalia Dyer) e se tornou irresistível para ela...

O charme do poderio dele contrasta com a aparente fragilidade de Catherine (Amanda Seyfried). Ela é bulímica, magérrima e disposta a largar tudo por ele. Ao mesmo tempo em que George busca dominar a beleza — ou forjá-la —, ela (Catherine) restaura (inclusive literalmente em seu trabalho) e, com isso, busca tornar belo novamente o que deixou de sê-lo, como as vidas de Eddie e Cole (Alex Neustaedter e Jack Gore respectivamente).

<em>Catherine (Seyfried) restaura a beleza. (Imagem: Reprodução/Netflix)</em>
Catherine (Seyfried) restaura a beleza. (Imagem: Reprodução/Netflix)

Pode ser interessante, nesse sentido, perceber como a direção busca agigantar George inicialmente e, durante o filme, pouco a pouco, inverte essa percepção. Ele, que é tão bonito, inteligente e simpático, vai se tornando um monstro e a construção visual de Berman e Pulcini acompanha essa degradação até o momento em que ele é um profundo nada: um ponto desprezível em um barco rumo ao inferno.

<em>George: um ponto desprezível em um barco rumo ao inferno. (Imagem: Reprodução/Netflix)</em>
George: um ponto desprezível em um barco rumo ao inferno. (Imagem: Reprodução/Netflix)

A beleza merecida

Por outro lado, algumas escolhas visuais têm força para causar um desconforto involuntário, como quando Catherine corre em desespero e a câmera a acompanha frontalmente. Nesse momento, existe uma quebra visual em Vozes e Vultos que pode até ser um flerte com found footage, mas que não acrescenta à experiência de assistir ao filme. Na verdade, o estranhamento de alguns momentos impede uma ligação mais concreta com a personagem de Seyfried e, desse modo, seu destino pode acabar sendo menos sentido do que poderia.

<em>Uma quebra visual que pode ser um flerte com found footage. (Imagem: Reprodução/Netflix)</em>
Uma quebra visual que pode ser um flerte com found footage. (Imagem: Reprodução/Netflix)

Em se falando no destino, pode haver um paralelo a ser construído a partir de Justine (Rhea Seehorn). Seu nome parece uma aglutinação entre as palavras justice e destiny. Como a bíblia é citada e há algum apelo religioso na obra, vale ressaltar que não existe destino bíblico. As pessoas usufruem do livre-arbítrio e esta é uma concepção incompatível com algo preestabelecido.

Dito isso, Justine acorda do coma exatamente após Mare (Karen Allen) perguntar: "Onde está a justiça para as mulheres daquela casa?" Ela (Justine), então, acorda tanto para fazer justiça — sendo o único elo possível — quanto para selar o destino de George... que ele mesmo traçou ao dar voz ao mal dentro de si: o mal da arrogância e da prepotência, com a casca da beleza efêmera e preenchido pelo poder opressor e destruidor da fragilidade masculina.

<em>É hora de selar um destino. (Imagem: Reprodução/Netflix)</em>
É hora de selar um destino. (Imagem: Reprodução/Netflix)

Assim sendo, o destino dos maus (como George) é fabricado por eles mesmos: "Mas os maus serão mortos pelas suas próprias espadas e os seus arcos serão quebrados." (Salmo 37:15). Há tanta poesia nesse trecho bíblico e no fim de Vozes e Vultos que as migalhas se perdem. O todo muito concreto dá lugar à subjetividade explícita. Cria-se uma lacuna, um vazio que não é vão, e pode ser difícil voltar para compreender o que aconteceu fora da metáfora que é criada. Mas, provavelmente — e felizmente —, percebe-se que o vilão encontrou o que merecia. E de um jeito belo.

<em>A beleza que o vilão merecia. (Imagem: Reprodução/Netflix)</em>
A beleza que o vilão merecia. (Imagem: Reprodução/Netflix)

Vozes e Vultos está disponível no catálogo da Netflix.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech.

Fonte: Canaltech

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