Mercado fechado

Crítica | Vem Brincar renova os clichês do terror com protagonista autista

Laísa Trojaike
·5 minuto de leitura

Vem Brincar inicia com o que parece ser mais uma chuva de obviedades: uma criança mexendo no celular sem supervisão dos pais, enquanto estes discutem em algum lugar longe do quarto. O menino, então, sai para ver o que está acontecendo, descobrimos que algo o observa de dentro do celular. A respiração desse algo, que soa como entidade maligna dentro de um escafandro, não nos deixa levar tudo muito a sério a princípio.

Logo em seguida a história começa a ganhar outras camadas, como as discussões sobre maternidade e, por causa do protagonista, todas as dificuldades de tratar um problema sobrenatural centrado em uma criança autista. Nesse sentido, a fotografia é excelente ao adotar os tons de azul que remetem ao autismo e, ao mesmo tempo, ajuda a criar a atmosfera de solidão que será trabalhada ao longo do filme.

Vem Brincar está longe de ser um filme genial de terror. Mas ser perfeito não é necessário. Tampouco é uma completa desgraça. Esse é daqueles filmes que são apenas muito bons, com alguns defeitos e alguns momentos em que enxergamos os mecanismos de roteiro nos conduzindo de um lado para o outro, mas nada que chegue a prejudicar a experiência de se divertir com o terror.

Imagem: Reprodução/Focus Features
Imagem: Reprodução/Focus Features

Atenção! A partir daqui, a crítica pode conter spoilers.

Espectro

A inserção de uma criança portadora de autismo é representatividade, claro, mas vai muito além disso. Com todas as características do espectro de Oliver (Azhy Robertson), o filme ganha novas possibilidades de lidar com a criatura que se esconde na dimensão paralela, tornando o terror menos previsível. É interessante também ver o autismo sendo abordado em um filme de gênero, já que na maioria dos casos o tema aparece em dramas.

Vem Brincar aborda uma pluralidade enorme de assuntos que se transpassam e o resultado é que nenhum dos pontos é profundamente explorado. Com isso, alguns diálogos, para trazer as reflexões à tona, são bastante artificiais e soam forçados, como os momentos em que, quase ao final do filme, a mãe de Oliver grita pedindo que ele seja normal por apenas um momento para logo em seguida pedir desculpas por isso.

Imagem: Reprodução/Focus Features
Imagem: Reprodução/Focus Features

Enquanto, em termos de roteiro, esses momentos chegam a ser quase desconfortáveis para quem assiste, assuntos sérios e pouco debatidos são jogados nos espectadores que não têm para onde fugir e são obrigados a incorporar essas reflexões, o que não é de todo ruim. Boas intenções inseridas em uma história de qualidade capenga é quase um mimo para os fãs de terror que não se importam com isso e, se forçarmos um pouco a imaginação, quase soa como um Ed Wood.

"Smart-terror"

Não sei se por saudosismo exacerbado ou por não saber como inserir a tecnologia nas antigas fórmulas, mas a questão é que os filmes de terror demoraram muito para começar a inserir os smartphones e todas as suas possibilidades de interação nos filmes. É difícil, hoje, pensarmos em alguém correndo perigo sem fazer uma ligação ou pelo menos uma live com a entidade.

Enquanto muitos filmes optam por deixar os personagens sem acesso aos celulares, seja por algum acordo, seja porque não há sinal ou porque a bateria acabou, Vem Brincar vai no sentido contrário e incorpora diversos usos do celular ao roteiro do filme. O que é útil para ajudar Oliver a interagir com o mundo ou para assistir a Bob Esponja, pode ser também reflexo de um isolamento social exacerbado que já nos assombra desde muito antes da pandemia.

Imagem: Reprodução/Focus Features
Imagem: Reprodução/Focus Features

Vem Brincar cai em muitos clichês e abusa dos jump scares em momentos desnecessários, mas consegue fazer bom uso da tecnologia na sua trama. Mesmo o recurso mais popular dos smartphones em filmes de terror é feito de uma forma diferente neste filme: enquanto a maioria usa o recurso de reconhecimento facial (que nos possibilita usar filtros) apenas para mostrar onde está alguma entidade, Vem Brincar consegue unir isso a um jump scare que, apesar de ser um recurso que já saturou os fãs do gênero, ainda assim soa fresco pelo modo como foi inserido na cena.

Larry

O título do livro é excelente: “Monstros incompreendidos”. Ao longo do filme acabamos descobrindo que Larry é fruto da solidão das pessoas que se apegam cada vez mais às telas dos celulares, tablets e afins. Larry pode até não existir, mas acaba sendo uma representação visual de um problema bastante real e que pode ser o responsável pelos números impressionantes de disfunções mentais, como depressão e ansiedade, que têm acometido as pessoas em diversos lugares.

Larry não é exatamente um monstro. Nenhum monstro é apenas um monstro. A ideia é compreender que pessoas tornam-se más pelas circunstâncias às quais são submetidas. Larry deixa claro que não tem intenção de machucar, mas sim de fazer amizade, o que pode até mesmo ser sincero e demonstrar que ele talvez nem saiba que está sendo tão mau. Ao final, a mãe reconhece que ele também queria proteger Oliver, alguém que ele viu tanto tempo sozinho no celular.

Imagem: Reprodução/Focus Features
Imagem: Reprodução/Focus Features

Acontece, no entanto, que não há ruindade intrínseca no smartphone. Com Oliver podemos ver que esses equipamentos são, na verdade, ferramentas. O que irá diferenciar algo bom de algo ruim é justamente o seu uso. Como terror, Vem Brincar está longe de ser muito memorável, mas pontualmente é um filme bastante interessante e que usa recursos muito bons, o que demonstra uma tremenda criatividade do diretor e roteirista Jacob Chase, que já havia surpreendido com o tema no curta que deu origem ao longa. Advinha o nome do curta? Larry.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech.

Fonte: Canaltech

Trending no Canaltech: