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Crítica | Vampiros X The Bronx carrega crítica social sem deixar de entreter

Beatriz Vaccari
·4 minutos de leitura

Outubro chegou e a Netflix já começou a disponibilizar produções para ambientar o público no clima de Halloween, tanto com o melhor do cinema de terror quanto com comédias do terror, para não deixar o assinante que não é muito fã do gênero de fora. Vampiros X The Bronx foi comprado pela Netflix em setembro e chegou ao catálogo do streaming na última sexta-feira (2) justamente para compor esse setor e agradar também o público adolescente.

Com uma quantidade enorme de curtas em sua filmografia, Osmany Rodriguez se arrisca como diretor e roteirista de seu primeiro longa-metragem, praticamente recriando o filme Goonies no ano de 2020 no Bronx, distrito de Nova York cuja população de moradores é majoritariamente não-branca. Essa não é a primeira produção da Netflix ambientada no bairro estadunidense que é o berço do rap e do hip hop, o filme promete dar logo no início alguns minutos de nostalgia para os fãs de The Get Down, série da plataforma que foi cancelada com apenas uma temporada.

Rita (Coco Jones), Miguel Martinez (Jaden Michael), Luis Acosta (Gregory Diaz IV) e Bobby Carter (Gerald Jones III) entregam cenas divertidas fáceis de entreter o público (Imagem: Divulgação / Netflix)
Rita (Coco Jones), Miguel Martinez (Jaden Michael), Luis Acosta (Gregory Diaz IV) e Bobby Carter (Gerald Jones III) entregam cenas divertidas fáceis de entreter o público (Imagem: Divulgação / Netflix)

A história apresenta ao espectador o senso de comunidade logo na primeira cena com Miguel Martinez (Jaden Michael), carinhosamente chamado pelos moradores do bairro de "Prefeitinho", distribuindo folhetos para uma festa beneficente que busca arrecadar fundos para a loja de Tony (The Kid Mero) de uma falência. Os comércios estão sendo vendidos um atrás do outro depois da chegada da imobiliária Murnau Properties chegar ao bairro com a proposta de gourmetizar os locais. "Ela pegou o dinheiro e vazou, agora temos cappuccinos caros", comenta uma personagem depois de Martinez questionar o sumiço da manicure de um salão de beleza que foi vendido no dia anterior.

Há uma estereotipagem em alguns filmes de Hollywood em que personagens sobrenaturais são interpretados por atores negros, contribuindo para uma desumanização de pessoas negras e reforçando uma ideia antiga de que essas pessoas são seres místicos e exóticos. Em Vampiros X The Bronx, esses papéis são invertidos. Mais cômicos do que aterrorizantes e com aparências bem caricatas, os vampiros não demoram para fazerem a primeira aparição e mostrarem que estão altamente ligados à imobiliária Murnau Properties.

Os três protagonistas estão dispostos a combater a gentrificação urbana no Bronx, distrito de Nova York (Imagem: Divulgação / Netflix)
Os três protagonistas estão dispostos a combater a gentrificação urbana no Bronx, distrito de Nova York (Imagem: Divulgação / Netflix)

Após presenciar o assassinato de um dos membros da comunidade por um vampiro, Miguel vai atrás de Tony e de seus dois melhores amigos: Bobby Carter (Gerald Jones III), que está gradualmente seguindo os mesmos passos do seu falecido pai, quando começou a se envolver com o tráfico de drogas e Luis Acosta (Gregory Diaz IV), jovem latino que acaba contribuindo na caça aos vampiros com seus conhecimentos tirados de revistas em quadrinhos. Os três protagonistas ganham o espectador com o carisma e a inocência pré-adolescente, com ideias e tiradas criativas e espontâneas que prometem entreter o público em seus 86 minutos de duração.

O filme não procura reinventar os mitos, como vemos na Saga Crepúsculo, a história permanece no básico, em que os vampiros são seres que não podem ver a luz do sol, não possuem reflexo e hibernam durante o dia em caixões. As criaturas são utilizadas muito mais para fortalecer a crítica social presente no filme do que de fato provocar medo em alguém. Miguel, Bobby e Luis estrelam uma divertida cena discutindo sobre repelentes das criaturas, como água benta, estacas de madeira e alho, além de dar boas referências ao clássico Blade, O Caçador de Vampiros de 1998, mais uma vez acenando para a representatividade.

Mais cômicos e caricatos do que assustadores, os vampiros acabam permanecendo na zona de conforto mitológica (Imagem: Divulgação / Netflix)
Mais cômicos e caricatos do que assustadores, os vampiros acabam permanecendo na zona de conforto mitológica (Imagem: Divulgação / Netflix)

Apesar da curta duração, as cenas não parecem ter sido feitas com pressa. É possível acompanhar todos os detalhes da trama, que diverte sem precisar de muito, mas, ao mesmo tempo, não deixa de apresentar uma forte crítica social aos esvaziamentos das periferias urbanas e a gentrificação do Bronx. "É fácil viver num lugar em que ninguém liga quando alguém some", declara a comandante do clã de vampiros, Vivian (Sarah Gadon) enquanto explica aos personagens sobre o intuito da compra exacerbada de comércios feitos pela imobiliária Murnau.

O filme ainda conta com a aparição de fortes nomes, como o de Zoe Saldana (Avatar, Guardiões da Galáxia) e da cantora Coco Jones. Vampiros X The Bronx não inventa a roda e também não deixa escapar alguns amadorismos que Osmany Rodriguez entrega em seu primeiro longa-metragem, mas acaba sendo uma ótima pedida para quem está a fim de entrar no clima de Dia das Bruxas e não é muito fã do gênero de terror, além de carregar consigo mesmo uma rica crítica social.

Vampiros X The Bronx já está disponível na Netflix.

Fonte: Canaltech

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