Mercado fechado

Crítica | Uma Vida Oculta questiona o que estamos fazendo com nossos iguais

Sihan Felix

Pensar a obra de Terrence Malick talvez seja tão complexo quanto alguns dos seus filmes. Títulos como A Árvore da Vida (de 2011) podem ter a força de uma obra-prima a ponto de receber comparações com 2001: Uma Odisseia no Espaço (de Stanley Kubrick, 1968) e ser listado por Roger Ebert entre os 10 melhores filmes já realizados (junto com o de Kubrick). Por outro lado, os mesmos podem cair em um buraco negro de desacordos e encontrar, inclusive, quem os credite como herméticos, pretensiosos e até chatos.

Malick é, de fato, um sujeito excêntrico: suas aparições públicas são raras, entrevistas com ele são ainda mais difíceis e, entre Cinzas no Paraíso (1978) e Além da Linha Vermelha (1998), o diretor ficou sem lançar qualquer trabalho. Foram 20 anos de reclusão artística.

Cuidado! A crítica pode conter spoilers!

Decisão e consequências

Mas foi mesmo com a finalização de A Árvore da Vida que Malick parece ter redirecionado suas intenções. Se o filme de 2011 é muito mais abrangente do que o que é visto – como os anteriores –, foi a partir de Amor Pleno (2012) que o roteirista e diretor passou a construir uma unidade por meio da qual os filmes são mais diretos. Um exemplo claro é justamente Uma Vida Oculta, que, ao invés de carregar pensamentos intensos e profundos sobre a existência ou ser carregado de reflexões necessárias – mas subjetivas –, utiliza as privações da guerra para, a partir dela, criar laços com a realidade.

Não que o todo do filme seja muito claro, mas há uma linearidade muito mais palpável. É possível acompanhar a história do fazendeiro austríaco Franz Jägerstätter (August Diehl) sem que isso exija um esforço para além do que é exposto. Esse foco conseguido por Malick é fundamental para a dissolução posterior do filme, para que, a partir do que é contado, surjam interpretações. E estas são, em sua maioria, posteriores. O filme, assim, obedece a forma clássica para a contação de uma história: conta-se o que se tem para contar e somente depois busca-se a moral através de tudo o que fica na memória.

Esse formalismo alcançado dá-se desde a origem, com Malick escolhendo um ponto específico da vida de Jägerstätter: a recusa do fazendeiro em fazer o juramento à Hitler e a lutar na Segunda Guerra Mundial – o que o levou a ser preso e executado. Da história real, que ainda traz o fato de que Jägerstätter foi o único cidadão a votar contra o Anschluss – a anexação político-militar da Áustria por parte da Alemanha em 1938 –, são dois pontos que existem: a decisão daquele homem e as consequências para ele e sua família.

August Diehl em cena de Uma Vida Oculta. (Imagem: 20th Century Studios Brasil)

O que estamos fazendo?

A beleza dos planos, nesse sentido, acaba contrastando com a situação enfrentada pelo protagonista – por mais que tragam elementos opressores, como nuvens pesadas que parecem ameaçar a pequenez humana. A partir disso, o subtexto de Uma Vida Oculta age exatamente como subtexto que é. É como se todos os pensamentos de filmes anteriores do diretor (até A Árvore da Vida) encontrassem, enfim, um lugar e, a partir de então, passasse a existir uma conexão mais completa e instantânea com o espectador.

"Nuvens pesadas que parecem ameaçar a pequenez humana." (Imagem: 20th Century Studios Brasil)

Por essa lógica, a vida tranquila em Radegund (a aldeia austríaca que chegou a ser o título do filme antes de A Hidden Life – no original) é destituída de paz com a intromissão nazista. Toda a pureza estética transforma-se em uma moldura para os discursos de ódio que surgem ali mesmo, naquela aldeia que era aparentemente pacífica. Malick demonstra não estar buscando respostas inexistentes ou se aprofundando em sua mente inquieta, o que acontece é uma reflexão sobre a realidade. Toda a xenofobia que afeta a Europa está ali, assim como a falta de empatia que acaba por desmoronar a vida de um povoado na mesma proporção que destrói a humanidade.

Uma Vida Oculta não é um filme que, em sua primeira camada, carrega os pensamentos intensos e complexos de outros filmes do diretor, mas é um trabalho que, a partir da história – dos acontecimentos internos – faz esses pensamentos surgirem. Procurando alguma imersão na mente reservadamente inquieta de Malick, a Via Crucis do casal (completado por Fani – interpretada por Valerie Pachner) parece refletir as dúvidas do próprio diretor e refazer a pergunta que ele fez a Martin Scorsese após assistir Silêncio (de 2016): “O que Cristo quer de nós?”

As dúvidas de Malick na  Via Crucis do casal protagonista. (Imagem: 20th Century Studios Brasil)

A opção pelo foco na decisão de Franz Jägerstätter e nas consequências infligidas a ele e aos seus é, talvez e finalmente, uma espécie de releitura do Novo Testamento bíblico. Jägerstätter, que era tão católico quanto Malick, é o reflexo, enfim, de alguém que honestamente nunca teve respostas. E agora, quando surgem algumas muito claras – como as que nos destitui de caráter e da dita empatia –, ele faz de seu filme uma história simples que, no final das contas e em meio a uma guerra, questiona, sobretudo, o que estamos fazendo com nossos iguais.

Fonte: Canaltech

Trending no Canaltech: