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Crítica | Uma Invenção de Natal brilha pela representatividade e beleza visual

Beatriz Vaccari
·6 minuto de leitura

A Netflix dá continuidade à lista de lançamentos de Natal na plataforma dando uma pausa nas comédias românticas e apostando no gênero de fantasia. Uma Invenção de Natal, traduzido oficialmente de Jingle Jangle: A Christmas Journey, chegou ao catálogo na última sexta-feira (13) e acumulou 95% de aprovação da crítica estrangeira no Rotten Tomatoes, tornando o primeiro musical live-action original da empresa um verdadeiro sucesso.

Embora filmes de Natal encarem uma enorme dificuldade de se reinventar o que acaba resultando em clichês intermináveis, Uma Invenção de Natal surpreende pela ousadia desses elementos nos 120 minutos de trama, mesmo que não acabe trazendo muitas novidades. O cineasta David E. Talbert assina o roteiro e assume a cadeira de direção trazendo sua enorme bagagem no teatro para a frente das câmeras, além de incluir premiados nomes na produção e trilha sonora, como John Legend e Usher.

Atenção! A partir daqui o texto contém spoilers do filme Uma Invenção de Natal. Leia por sua conta e risco.

Elenco escolhido a dedo: Forest Whitaker interpreta o protagonista Jeronicus Jangle (Imagem: Divulgação / Netflix)
Elenco escolhido a dedo: Forest Whitaker interpreta o protagonista Jeronicus Jangle (Imagem: Divulgação / Netflix)

É possível notar a identidade de Talbert em cada cena do longa e em diversos elementos, como os momentos musicais e performáticos, monólogos teatrais, figurino e principalmente o elenco escolhido a dedo, em que o diretor optou por apostar na representatividade negra, trazendo o vencedor do Oscar Forest Whitaker como Jeronicus Jangle e revelação mirim Madalen Mills no papel de Journey Jangle, que acaba tornando-se a melhor parte do filme. Uma Invenção de Natal ainda apresenta escolhas ousadas, como as cenas de animação em CGI e stop-motion que embora parecessem arriscadas, dando ao filme aquele exagero que pode levar o espectador à confusão, são bem utilizadas.

A trama começa sendo narrada pela vencedora do Emmy Phylicia Rashad, que promete contar uma história inédita para seus netos na noite de Natal que tomará as próximas duas horas de filme. A avó apresenta a Jangles and Things, uma enorme e mágica loja de brinquedos e invenções na fictícia Cobbleton, uma vila cujo visual inverossímil pode dar aos fãs de Harry Potter uma nostálgica lembrança do Beco Diagonal — essa inclusive é uma sensação que se tornará recorrente ao espectador, visto que diversos aspectos do filme dão referência ao musical O Rei do Show, ou a estética de A Fantástica Fábrica de Chocolate e até a magia de Peter Pan.

A revelação Madalen Mills se diverte interpretando Journey Jungle (Imagem: Divulgação / Netflix)
A revelação Madalen Mills se diverte interpretando Journey Jungle (Imagem: Divulgação / Netflix)

Dando vida a Jeronicus mais novo, Justin Cornwell apresenta um inteligente inventor e matemático, além de grande sonhador cuja realização de Natal é dar felicidade às pessoas por meio de seus brinquedos. Ao lado da filha Jessica (Diaana Babnicova, que a interpreta mais nova) e a esposa Joanne (Sharon Rose), o protagonista estrela a primeira performance musical do filme, apresentando o restante dos personagens e a alegre vida que tinha antes do primeiro ponto de virada do roteiro.

Jeronicus se vê perdido a partir do momento em que seu funcionário Gustafson (interpretado por Miles Barrow quando mais jovem) rouba seu caderno de invenções com sua mais recente criação, o brinquedo falante Don Juan Diego — interpretado por ninguém menos que Ricky Martin, que mesmo sem fazer uma aparição personificada no filme, garante uma das mais marcantes atuações apenas com a voz. Numa história que traz muita referência ao conto de Charles Dickens, A Christmas Carol, Jeronicus Jangle se torna uma espécie de Ebenezer Scrooge, como se a perda de suas invenções tivessem o mesmo peso da vida tirada de si. De repente, o Natal não faz mais sentido para o protagonista, cuja amargura e desapontamento acabou virando uma bola de neve com a morte da esposa e o afastamento da filha, vivendo sozinho e remoendo suas lembranças.

A escolha das cores para caracterização dos personagens em Uma Invenção de Natal (Imagem: Divulgação / Netflix)
A escolha das cores para caracterização dos personagens em Uma Invenção de Natal (Imagem: Divulgação / Netflix)

É necessário enaltecer a impecável Direção de Arte de Phil Harvey (Assassinato no Expresso Oriente, Episódio I - A Ameaça Fantasma), que utiliza da psicologia das cores para dar identidade e emoção ao cenário e principalmente ao figurino do elenco. O que mais chama atenção é a presença do verde nas roupas do antagonista Gustafson quando já interpretado por Keegan-Michael Key, em algumas cenas o vilão está vestido da cabeça aos pés em tons esverdeados, e quando não, há apenas um elemento ou acessório em seu figurino com a cor. O mesmo acontece com a carismática Journey de Madalen Mills, trazendo vermelho e roxo em diferentes momentos desde sua chegada à Cobbleton, constrastando diretamente com o amarelo acinzentado do que se tornou a Jangles and Things e seu avô Jeronicus.

Uma Invenção de Natal ainda tira várias cartas da manga durante o decorrer da história. Com uma capacidade de entretenimento universal, o filme apresenta elementos que podem agradar tanto o público adulto quanto o infantil, embora apresente personagens com nomes de difícil memorização para o público mais novo, além da duração fugir da média da maioria dos filmes destinados a crianças. Além disso, embora de um enorme espetáculo visual com coreografias e vocais de se aplaudir de pé — com destaque para a voz e presença de palco da pequena Madalen Mills, que entrega inocência à trama e transmite a diversão em interpretar a sua personagem — nenhuma delas é marcante a ponto do espectador lembrar sua letra ou melodia, ponto crucial na hora de apresentar um filme musical.

Mesmo que apenas como voz original, Ricky Martin brilha como Don Juan Diego (Imagem: Divulgação / Netflix)
Mesmo que apenas como voz original, Ricky Martin brilha como Don Juan Diego (Imagem: Divulgação / Netflix)

É necessário ressaltar a boa atuação tanto de Whitaker como Jeronicus quanto a de Michael Key, que convence sobre sua personalidade vilanesca do início ao fim. Além disso, Talbert ainda traz Anika Noni Rose no papel de Jessica, filha de Jangle já adulta, sendo uma agradável surpresa ao público infantil, já que a atriz foi a voz original da Princesa Tiana na animação da Disney A Princesa e o Sapo. Além disso, há também a presença do carismático Kieron L. Dyer interpretando o inventor mirim Edison como seu primeiro papel no cinema.

A mensagem final pode ser um tanto batida já que repete a de outros filmes de Natal, mas se o espectador está disposto a se mergulhar na temática festiva com todos os clichês que as produções estão dispostas a oferecer, não tem erro. Uma Invenção de Natal destaca-se pela variedade de elementos bem aproveitados por Talbert, já que se caíssem em outras mãos acabariam pecando pelo excesso; além de oferecer representatividade tanto no elenco quanto na trilha sonora, que conta com a faixa ganaense Grandpa Me Nie', do cantor Bisa Kdei, sem deixar de oferecer a magia dos filmes de Natal.

Uma Invenção de Natal está disponível no catálogo da Netflix.

*Este texto não reflete necessariamente a opinião do Canaltech

Fonte: Canaltech

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