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Crítica Um Lugar Silencioso: Parte 2 | A sequência é ainda mais intensa

·11 minuto de leitura

As coisas se repetem, isso tem sido praticamente um mantra no cinema contemporâneo e a lição é importante, porque, mesmo que a arte seja a mesma depois de um tempo, nós nunca somos os mesmos. Em março de 2020, quando Um Lugar Silencioso: Parte II estava prestes a estrear nos cinemas, o diretor e roteirista John Krasinski falou sobre o que era o filme e comentou o que parecia ser uma jogada de marketing, mas que se torna ainda mais significativa agora, no pós-pandemia.

Por termos sido bombardeados pelo tema “pandemia” nos últimos meses, o termo começa a soar comum e toda uma vida afetada por essa tremenda experiência começa a ser chamada de “novo normal”, o que levanta reflexões por si só. A chegada da sequência de Um Lugar Silencioso neste momento, no entanto, não revela somente que somos outros espectadores, completamente diferentes daqueles do ano passado, mas também como o nosso pensamento continua conectando tudo, mesmo no anacronismo das coisas.

Quando Um Lugar Silencioso estreou, o sucesso de público e crítica tornaram o filme um cult instantâneo e, agora, a sequência mostra que sempre há novas histórias para serem contadas e, se o tempo não para, porque a arte deveria frear a si mesma?

Imagem: Reprodução/Paramount Pictures
Imagem: Reprodução/Paramount Pictures

Atenção! A partir daqui a crítica pode conter spoilers.

Sequências

O primeiro filme nos colocou no centro do recorte de um evento: não sabemos se o mundo todo foi afetado, não sabemos de onde vieram as criaturas e o desenvolvimento da trama nos mostra muito pouco sobre o universo dessa nova espécie, mistério que contribui muito para a tensão do filme. Com os personagens isolados e sem poder fazer barulho, o roteiro consegue desenvolver lentamente a ciência desse novo universo, que ainda tem muito a ser revelado, porque as informações são liberadas em doses homeopáticas.

A sequência começa com uma brevíssima prequela e mostra como a normalidade cotidiana foi interrompida pela invasão e como foi esse primeiro contato da família Abbott com as criaturas. Assim, a prometida “prequela” deixa espaço para outra prequela (talvez mais grandiosa e com muito mais ação), em que a área do impacto, por exemplo, possa ser explorada em uma futura sequência ou em um spin-off.

Essas migalhas deixadas por Krasinski não são apenas material para novos filmes, mas também surgem como elementos que podem ser explorados por outros artistas que se sentirem inspirados por esse universo. O surgimento dessa sequência, portanto, tem muito mais a ver com uma obra que precisava sair da mente de um artista e muito menos com uma sequência feita para saciar a curiosidade dos fãs.

Imagem: Reprodução/Paramount Pictures
Imagem: Reprodução/Paramount Pictures

Com essa licença artística, Krasinski tem liberdade para focar nas conexões dos personagens e no desenvolvimento de uma família em que as crianças são maioria e, agora, precisam amadurecer em um mundo completamente diferente daquele que conheceram. A influência oitentista de Stranger Things não passa despercebida e Um Lugar Silencioso embarca na “moda” fotográfica que tem se tornado não apenas uma marca do terror, mas tem se revelado uma tendência estética dos nossos tempos.

Subiu o nível

Um Lugar Silencioso: Parte 2 consegue aprimorar tudo o que vimos no primeiro filme: a tensão é maior, a ação é mais intensa, a montagem é mais significativa e o som é ainda mais impactante. Para quem só quer ver os aliens atacando todo mundo, tem um bocado disso também. É tudo tão maravilhosamente executado que há pouco espaço para questionarmos pontas soltas ou atitudes dos personagens; e mesmo quando o roteiro recorre a um deus ex-machina, a surpresa é razoavelmente justificada: embora Regan (Millicent Simmonds) seja salva no último momento por Emmett (Cillian Murphy) no trem, já sabíamos que ele estava a caminho e, assim, o diretor reduz a sensação de que a solução veio "do nada".

Imagem: Reprodução/Paramount Pictures
Imagem: Reprodução/Paramount Pictures

Logo no início, quando termina o trecho prequela, a história é retomada a partir do ponto que havia encerrado o filme anterior e, ao percorrerem pelo local, objetos e importantes elementos do outro filme são discretamente mostrados, o que funciona como uma espécie de resumo, como os que vemos antes dos episódios semanais de séries. Embora seja um recurso simples, esse breve momento em que os Abbott sobreviventes pegam o essencial antes de partir em sua nova jornada funciona como um flashback, mas sem ter que recorrer a esse recurso.

Krasinski também inova na forma de criar tensão temporal e, no lugar em que geralmente temos um relógio contando os segundos para o grande clímax, o autor colocou os cilindros de oxigênio, que dão uma intensa sensação de desespero, tensão e pressa, mas com um objeto que não está diretamente relacionado ao tempo, mas sim com a quantidade: a sobrevivência passa a depender do racionamento de oxigênio. Ar é vital e o sufocamento é um terror que pode ser compreendido por qualquer ser humano, o que torna esse terror em particular um dos mais universais de todo o filme.

Imagem: Reprodução/Paramount Pictures
Imagem: Reprodução/Paramount Pictures

No novo filme, a estabilidade da família é muito mais frágil, não pela perda da figura paterna e masculina, mas pela sobrecarga recebida pela mãe, que precisa lidar com tudo como se não tivesse seus próprios problemas pessoais. Antes de os personagens serem separados, o grupo via Evelyn como a personagem mais forte e a atuação de Blunt é essencial para demonstrar que, apesar de ser uma mulher forte, sua personagem tem muito mais a ver com a responsabilidade materna do que com sua aparente experiência em sobrevivência.

No primeiro filme, o ponderado pai ajudava na construção de uma atmosfera mais calculista, cuidadosa e estratégica, o que deu à produção uma empolgante e contraditória sensação de calma e medo. Sem essa peça, o time ficou um pouco desfalcado e, no segundo filme, o improviso toma conta das atitudes dos personagens, que passarão por provações que os deixarão mais resistentes.

A Um Lugar Silencioso 2 começa com um bebê, uma menina surda, um garoto assustado, uma mãe sobrecarregada e um pai de família traumatizado. Quando a história termina, temos um grupo completamente diferente de pessoas, embora o bebê continue um bebê por motivos óbvios: a deficiência física não se confundiu com incapacidade, o medo se transformou em bravura por proteção e sobrevivência, e o trauma se converteu em novo início, evocando, portanto, esperança. A grande magia das fábulas.

Imagem: Reprodução/Paramount Pictures
Imagem: Reprodução/Paramount Pictures

O departamento de som do primeiro filme também foi extremamente elogiado por lidar muito bem com as formas de silêncio e, na Parte II, essa função é ainda melhor trabalhada. O som vai e volta sem recorrer a cortes de imagem, apoiando-se em elementos que estamos vendo na tela. O momento em que Regan pensa ter sido roubada e abandonada por Emmett é, provavelmente, um dos mais memoráveis do filme nesse sentido e é incrível como o diretor faz todo o som ambiente retornar exatamente no ato do toque, que faz Regan voltar do solipsismo para o qual se voltou no momento de dor.

Conexões

No início do texto, comentei sobre como o filme ganha significações diferentes em contextos diferentes. Quando foi pensado e gravado, Um Lugar Silencioso: Parte II era um filme completamente alheio aos eventos que tomariam conta do planeta em 2020, ano da sua estreia internacional. Aqui no Brasil, o filme chegou mais de um ano após a data original de lançamento e, agora, qualquer coisa apocalíptica ganha outra dimensão nas nossas mentes.

Nesse sentido, a sequência ganhou uma camada sobre a qual não pensou, mas que torna o filme ainda mais importante para seus espectadores. Enquanto o início da pandemia foi marcado pelo isolamento, esse momento de retomada que vivemos tem feito muitas pessoas voltarem seus olhares para as conexões humanas, que agora parecem estar mais fragilizadas.

Imagem: Reprodução/Paramount Pictures
Imagem: Reprodução/Paramount Pictures

A família estruturada e a perfeita vida suburbana da busca pelo sonho americano têm sua estabilidade interrompida por um evento completamente imprevisível, o que já é metáfora suficiente para o que experienciamos. Mas não para por aí. A família, agora com dois membros a menos, precisa abandonar o ninho e se afastar da zona de conforto (que já não era tão confortável assim) e o primeiro contato humano é justamente com uma pessoa que vive uma situação oposta, um pai que perdeu toda a família.

A montagem alternada, embora mostre os personagens vivendo aventuras paralelas e aparentemente desconectadas pelo espaço, nos ajuda a compreender que a conexão é a chave da sobrevivência e mesmo o grupo vilanizado que vive nas docas entende o poder do grupo.

É um pouco clichê o modo como Emmett parece ser a peça perfeita de encaixe para a família e Krasinski parece fazer isso de propósito ao deixar brotar na mente do espectador a possibilidade de fazer nascer um clima romântico entre o casal de adultos. Essa sensação é intensificada pela sequência em que Evelyn explode um dos cilindros de oxigênio, iniciando uma trilha de ação que torna mais orgânico o corte de volta às docas, onde Emmet inicia uma luta corporal que acidentalmente inicia um incêndio.

Imagem: Reprodução/Paramount Pictures
Imagem: Reprodução/Paramount Pictures

A montagem, aqui, não é clássica e, portanto, não se esconde. Os cortes são rápidos o suficiente para desenvolver os acontecimentos com clareza, mas garantindo que ambas as histórias se conectem como paralelas na pente do espectador: um efeito de afastamento, que gera estranheza e um elemento de aproximação, que gera conexão. A ferramenta é novamente utilizada na sequência final do filme e, ao invés de repetir a fórmula, Krasinski insere uma quebra de hierarquia cultural que tem muito a dizer sobre as passagens de gerações.

Nos momentos finais da história, Evelyn e Marcus (Noah Jupe) estão encurralados no cofre, enquanto Regan utiliza a microfonia em uma Rádio e acaba transmitindo o som através da tecnologia. Tudo isso acontece naquele ritmo de montagem que afasta e conecta ao mesmo tempo, mas o conteúdo é completamente diferente, porque os heróis são diferentes. São tempos duros: a maternidade e o apocalipse não podem se somar nas costas de Evelyn. Com isso, o filme afasta a ideia de shippar personagens (algo que provavelmente seria de tom desagradável nesse momento da história) e ressignifica os papéis familiares e de gênero.

Tal como a mãe-solo que se tornou, Evelyn tem peso demais sobre seus ombros quando a família é composta por uma mãe e três filhos. Emmett surge para ocupar o papel da figura paterna e representa um intenso luto familiar. Essa estrutura, no entanto, coloca as crianças como meros cordeiros, criaturas indefesas, que precisam ser pastoradas até a idade adulta. O filme, no entanto, nos mostra que a única criatura realmente indefesa é o bebê.

Imagem: Reprodução/Paramount Pictures
Imagem: Reprodução/Paramount Pictures

Na Parte II, temos a emancipação das crianças e não a toa a fotografia do filme tem uma guinada surpreendente. Embora mostre os eventos da ilha e do cofre como anteriormente, a montagem agora conecta os irmãos e, juntas, são as crianças que salvam os adultos. E é nesse ponto que Krasinski parece entrar na rede de conexões Bloodflix em um movimento que pode ser interpretado como referência, homenagem, reconhecimento ou… uma enorme coincidência.

Do terror para o terror

Destaco uma sessão especialmente para isso, porque um dos maiores impactos de Um Lugar Silencioso: Parte II está na mudança de paleta de cores em uma das partes da sequência final. Ao longo da história que vimos começar no primeiro filme, as fontes de luz geralmente eram amareladas, provenientes do sol ou do fogo na maioria das vezes, e, em outros momentos, a paleta adquiria os tons de verde tradicionais da ficção científica e, em alguns momentos, apostava também no contraste da luz branca, mais adequada aos momentos de urgência. Quando vemos algo colorido, são as luzes vermelhas de alerta.

Imagem: Reprodução/Paramount Pictures
Imagem: Reprodução/Paramount Pictures

A Parte II mantém o padrão e as paletas se repetem ao longo do filme, até que Emmett e Regan encontram a Rádio, onde o ambiente passa a ser bombardeado por luzes azuis e vermelhas, nos moldes do que sempre indicamos como uma referência aos gialli italianos. Essa iluminação, no entanto, lembra muito mais Stranger Things quando notamos que Regan e Marcus são os heróis da sequência. Além disso, assim como a série, o segundo filme rejeita os estereótipos padrão de menino e menina, mostrando que cada um tem sua forma de bravura, como também nos mostrou o diversificado e representativo grupo central da série teen — isso sem contar que os aliens lembram bastante o Demogorgon.

Apesar do gancho para mais, Um Lugar Silencioso convenceu que seria um filme solo e o anúncio de uma sequência certamente deixou muitos fãs apreensivos. Este, no entanto, é daqueles casos em que a ideia simplesmente cresceu e foi amadurecida pelo seu artista, que ampliou o universo e, agora, nos deu uma abertura para matança e gore em um próximo capítulo.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech.

Fonte: Canaltech

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