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Crítica | Soul e a resposta para o sentido da vida

Laísa Trojaike
·12 minuto de leitura

Ainda que admire profundamente a técnica e a influência histórica, não sou muito fã das antigas animações da Disney pelo seu conteúdo, que vejo como muito datado e muitas vezes ruim para a sociedade contemporânea, sobretudo nas mesagens que são transmitidas ao público infantil. É impressionante, no entanto, como as produções mais recentes parecem muito mais incisivas, importantes, necessárias e atemporais, mesmo sabendo que futuramente algumas coisas talvez soem inadequadas. O mundo muda. Paciência.

O importante é que desde Toy Story esses filmes têm se tornado verdadeiros guias da vida, da valorização do cotidiano, da amizade, da família, da diversidade, dos sentimentos… enfim, do viver. Inversamente proporcional à complexidade gráfica das animações, as histórias exaltam a simplicidade. Numa trilha que nos trouxe o brinquedo DIY com o Garfinho, o poder da arte e da memória com Viva – A Vida é uma Festa e a valorização dos sentimentos “ruins” com Divertidade Mente, chegamos a um ponto da jornada em que a mensagem é sobre uma das perguntas mais caras à filosofia: qual o sentido da vida? Mas quem assistiu aos curtas Garfinho Pergunta, sabe que a Disney não teme a filosofia.

Imagem: Reprodução/Disney•Pixar
Imagem: Reprodução/Disney•Pixar

A sequência inicial do filme foi divulgada no YouTube pouco antes da estreia e mostra toda a essência de Soul, que será belamente desdobrada ao longo da narrativa. Soul é uma ode à sensibilidade. Não é um filme sobre música, sobre jazz ou soul (o gênero musical), nem se debruça em questões raciais, levantando uma das bandeiras da luta anti-racista: a voz negra não serve apenas para falar de questões raciais. Soul (que literalmente significa “alma”) também não se apega a alguma das versões religiosas sobre o além-mundo e nos oferece uma obra livre de certos pré-conceitos que tomamos como verdades no nosso cotidiano.

Desde a vinheta de abertura, com a tradicional música da Disney tocada displicentemente pelos alunos, até o momento em que o professor Joe (Jamie Foxx/Jorge Lucas) mostra seu prazer ao piano, passando pelo belíssimo momento em que a aluna se entrega completamente ao que está fazendo, Soul nos fala sobre a importância de “jazzar”, o ato de fazer jazz (e não estamos falando da música aqui). Mas o que significa isso? E por que Soul é incrível fazendo isso?

Atenção! A partir daqui, a crítica pode conter spoilers.

Jazzar

Quando Joe chega ao além-mundo e se torna o tutor de 22 (Tina Fey/Carol Valença), ele tem a oportunidade de ver sua vida. Nesse momento, o retorno àquela cena inicial se torna muito mais simbólica e complexa. Na exposição da sua vida — é interessante como a vida é mostrada em um formato de exposição, de galeria de arte —, quem você gostaria de ser? Os alunos apáticos ou a garota que se empolgou tocando? Não que devamos ser exatamente como ela, mas é a entrega que chama a atenção, o entregar-se ao sensível.

Imagem: Reprodução/Disney•Pixar
Imagem: Reprodução/Disney•Pixar

Por outro lado, o próprio filme justifica a atitude dos alunos: a grade escolar limita a criatividade e talvez por isso o lugar de “transcendência” no além-mundo tenha tão poucos artistas. Quando Joe fala sobre o momento em que descobriu o jazz, a aluna responde dizendo apenas “Eu tenho só 12 anos.” Nesse sentido, há algo bastante platônico na trama de Soul: sabemos de muitas coisas antes de “descermos” à Terra e cairmos em um corpo, cabe a nós praticar a filosofia (que essencialmente é a curiosidade) para “lembrar” o que nossa alma já sabe de alguma forma. Em Soul, a curiosidade filosófica é exaltada e o que precisamos saber é o que nos dá vontade de viver: o que as almas descobrem antes de nascer não é sua missão de vida, mas sim o que lhes dá vontade de encarnar em um corpo para viver.

Ao final, a Zé diz que está no ramo da inspiração. O professor ou o tutor não é exatamente quem nos ensina a fazer algo, ainda que muitas vezes isso possa acontecer. Inspirar, lidar com a vontade, guiar a pessoa pelas suas próprias vivências e interesses é o verdadeiro trabalho de tutoria em Soul. A escola (inclusive a de ensino superior) insiste em nos tratar como peças de engrenagem, ignorando e muitas vezes até silenciando o que nos torna singulares.

Imagem: Reprodução/Disney•Pixar
Imagem: Reprodução/Disney•Pixar

“Jazzar”, portanto, é um ato de resistência diante de um mundo que tenta nos enquadrar em certos moldes. A origem da palavra “jazz” é incerta, mas a versão mais aceita é de que possa ser uma derivação de uma gíria que significava “espírito”, “energia” ou “vigor”. O significado, ainda que incerto, casa perfeitamente com Soul (e não só pelo termo “espírito”). Não é incomum dizermos que algo tem alma: uma obra, um discurso, um esporte. Torna-se clara a falta de alma quando notamos algo feito unicamente pelo dinheiro ou mecanicamente, sem sentimentos, vivências, experiências que possam transbordar a matéria. Em Soul, “Jazzar” é esse ato de viver, uma necessidade essencial a todos os humanos e que encontra no jazz de Joe uma exemplificação.

Estética e arte

Estética vem do grego aisthésis, ou seja, essencialmente nada mais é do que aquilo nos diz a sua tradução: percepção, sensação ou sensibilidade. A experiência estética, amplamente estudada na filosofia contemporânea, abarca tudo o que vemos em Soul: do que sentimos assistindo ao filme a todas as possibilidades de experiência estética que a própria história nos mostra, um leque que abrange as múltiplas possibilidades de virtuose nas artes (técnicas), mas que também inclui, em pé de igualdade, folhas voando, uma conversa entre amigos, o prazer de uma comida, ou seja, qualquer coisa.

Joe morre justamente por perseguir um sonho, uma meta que ele considera sua missão e que foi capaz de o cegar para a vida ao seu redor. Soul não diminui a importância dessas coisas, tanto que reconhece os grandes ícones da história como tutores. O maior problema, no entanto, é entender isso como objetivo único e máximo da vida, que é justamente o que leva as almas à perdição, numa incrível representação das disfunções psicológicas que vimos também em Divertida Mente, condições como depressão e ansiedade.

Imagem: Reprodução/Disney•Pixar
Imagem: Reprodução/Disney•Pixar

Ainda que a libertação do personagem no escritório seja mais icônica, é a trajetória de 22 que mais chama a atenção. Quando sua alma se torna perdida, os nãos que ela recebe, as imposições, são o que fazem sua aparência monstruosa crescer e seu ódio é descontado justamente no Zé que diz que o lugar dela não é naquele local. Certos ou errados, suas atitudes têm um efeito bastante ruim. Joe só consegue tirar 22 dessa condição por lhe mostrar uma das coisas que mais lhe agradaram em sua passagem pela Terra, seu motivo para querer viver, dando caminhos possíveis para lidarmos com a depressão e outras disfunções.

Não descobrimos o que é a última insígnia de 22, mas entendemos que é a sua vontade de viver. Joe compreende, enfim, que o jazz não era sua grande missão, já que ao realizar seu sonho, ele não nota nenhuma grande mudança na sua vida. O jazz de Joe era apenas sua forma de jazzar. Quando ele diz a 22, logo no início das suas aventuras, que ela não gosta de música porque nunca escutou algo que prestava, Joe assume o posicionamento mais destrutivo da arte: dizer que algo presta ou não objetivamente. Viver implica dizer o que presta para si, subjetivamente, e, nesse sentido nenhuma arte é superior a outra, deixa que Soul solta muito sutilmente e que dá indícios de uma possibilidade de sequência da qual falarei mais adiante.

Inspiração

Não apenas os Zés trabalham com inspiração. Essa é a especialidade deles, mas tudo ao nosso redor pode ser inspiração, incluindo nós mesmos e nossas memórias. O filme todo é permeado por essas inspirações, como o próprio cotidiano insano de Nova York (e basta uma pesquisa por “Only in New York” no YouTube para ver como a cidade transpira quebras da rotina).

Imagem: Reprodução/Disney•Pixar
Imagem: Reprodução/Disney•Pixar

Há uma corrente de inspiração que não é colocada em destaque, mas que está lá e que vai culminar em um dos momentos mais marcantes de Soul. 22 diz estar sabotando o time Knicks há anos, mas, mesmo assim, os Knicks estão na parede da barbearia (a logo e a camiseta 33 de Patrick Ewing) e no boné que o músico do metrô está usando. Assim, Soul demonstra que não somente grandes feitos inspiram, mas também a persistência e a vontade de outros indivíduos, o que justifica tantas pessoas que continuam amando times de série D, por exemplo.

Essa corrente de inspiração iniciada pela sutil introdução dos Knicks na discussão ganha uma força tremenda quando 22 dá o que ela tinha de mais valioso no momento para o músico, um pedaço de donnut. O pedaço restante da rosquinha fica no bolso de Joe e, por fim, torna-se a melhor partitura que um músico poderia ter: suas vivências, o que facilmente se estende para qualquer arte, profissão, enfim, para a vida. Vivemos para viver, uma obviedade que se torna muito mais filosófica e profunda através da história do peixinho contada por Dorothea Williams (Angela Basset/Luciana Mello).

Imagem: Reprodução/Disney•Pixar
Imagem: Reprodução/Disney•Pixar

Aliás, não posso deixar de comentar que o auge técnico da animação de Soul está em Dorothea Williams cantando. Nunca havia visto movimentos tão incríveis em uma animação. A imagem dela tocando, sua expressão corporal, foi para mim um momento estético em si, potencializado pelo piano tocado por Joe. O piano de Soul, inclusive, me lembrou a única vez em que tive uma verdadeira empolgação com o instrumento, algo que aconteceu apenas muito recentemente ao escutar (e ver) Amaro Freitas tocando com Criolo e Milton Nascimento. A vida acontecendo enquanto Soul me ensinava a viver.

Do Jazz ao Hippie

O Jazz nasce como uma cultura de resistência e Soul não diminui a beleza desse gênero musical que, assim como a dita música erudita, tem um enorme apreço pela virtuose. Joe se encontra nesse mundo, mas Dorothea acaba sendo uma representação, das menos nocivas, de um efeito que é bastante tóxico (para utilizar uma palavra que anda bastante em vigor): para fazer parte do seu quarteto, é preciso ser o melhor, mas os efeitos colaterais incluem dizer que pessoas são facilmente substituíveis e assumir a arrogância como uma qualidade.

No lado oposto, temos a paz e o amor hippie, uma cultura que ofereceu, sobretudo em seu princípio, um tremendo apoio a gêneros como o jazz. A introdução do hippie que tenta mudar o mundo salvando almas ganha ainda mais camadas com o barco pirata: a história tratou de pintar os piratas como vilões, mas eles foram responsáveis pela libertação de muitas pessoas, incluindo muitos escravos. O hippie de Soul, liberta almas.

Imagem: Reprodução/Disney•Pixar
Imagem: Reprodução/Disney•Pixar

Não penso que seja coincidência o fato de que, tão pouco tempo após Coringa, o Bicho Grilo tenha exatamente o emprego do personagem interpretado por Joaquim Phoenix. Em Coringa, quando conhecemos o personagem, era essa função (associada a outros elementos da sua vida) que o mantinha estável e é somente quando a placa é roubada que tudo começa a desmoronar na sua vida. Se não for uma mera coincidência, a escolha dessa profissão para o Bicho Grilo pode ser uma tremenda homenagem à abordagem psicológica do filme Coringa.

Pistas para uma sequência

A virtuose do jazz infelizmente não é muito inclusiva: Joe tinha dificuldade para fazer as pessoas notarem a mesma beleza que ele via nesse gênero, porque de fato é um tipo de música que exige conhecimento musical para uma apreciação mais atenta aos detalhes. Alguém pode gostar de jazz sem entender nada, claro, mas é muito mais provável que esse gosto venha acompanhado também de certos conhecimentos. A figura levemente vilanesca de Dorothea Williams reforça essa exclusão.

Desde o início do filme, no entanto, 22 dá indícios de um gosto estético pelo hip-hop. A única coisa pela qual ela se interessa voluntariamente na galeria da vida de Joe, no além-mundo, é justamente uma música, um hip-hop, de um grupo do qual Joe participava como tecladista quando jovem, algo do qual ele se envergonha muito provavelmente pela limitação que ele mesmo se impôs ao se tornar um pianista de jazz. Posteriormente, quando precisa de mais tempo, é essa mesma cultura que é invocada por 22 quando ela diz que quer testar ser uma bailarina de hip-hop ou funk, quebrando também com a ideia de que bailarinos são apenas os dançarinos de balé, outra arte que infelizmente também foi elitizada e que também tem um enorme apreço pela virtuose.

Imagem: Reprodução/Disney•Pixar
Imagem: Reprodução/Disney•Pixar

Mais adiante, quando Joe entra no camarim de Dorothea, ela interrompe uma frase em que parece estar falando com desdém dos rappers. Na barbearia, o álbum “The Low End Theory”, do grupo de hip-hop A Tribe Called Quest, ganha um sutil destaque (através do enquadramento).

O jazz, revolucionário em sua origem, hoje já não tem a mesma força e não dialoga com as novas gerações como dialogava com quem viu o gênero nascer. Por outro lado, o hip-hop ainda tem uma função social revolucionária e dialoga profundamente com pessoas de diversas faixas etárias, classes sociais, culturas, escolaridades… com uma amplitude estética que passa pela poesia, pela música, pelas artes gráficas, pela dança e pela filosofia, na busca pelo conhecimento. Para além da técnica, das discussões sobre arte, sobre o que é e o que deixa de ser, um elemento é comum a tudo no hip-hop: viver, ou seja, jazzar.

Não vemos quem 22 se torna, mas uma sequência com ela vivendo através do hip-hop não apenas seria seguir as pistas dadas por Soul, mas seria ver essa manifestação cultural como um dos maiores exemplos da essência de Soul, assim como o foi o Jazz em suas raízes.

Soul está disponível no catálogo do Disney+.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech.

**Agradeço a Jeff Augusto pelo olhar incrivelmente atento à direção de arte de Soul, que me ajudou a criar a última parte deste texto; e a Igor Gomes que me deu uma verdadeira aula sobre o movimento hippie. Obrigada pelas inspirações!

Fonte: Canaltech

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