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Crítica | The Secrets We Keep tem poder dramático, mas se perde em problemas

Sihan Felix
·4 minuto de leitura

Existe uma ambiguidade em The Secrets We Keep que pode ser difícil de digerir. A impressão inicial é a de que a direção de Yuval Adler (de Agente Infiltrada — produção de 2019) se esforçou muito mais para enfatizar a atuação de Noomi Rapace do que para chegar a um resultado satisfatório mais unitário. A dor de Maja (Rapace), que é confrontada pela agonia de um passado na Segunda Guerra Mundial, é, assim, mais forte do que todos os 97 minutos do filme.

Não há nada de errado em buscar uma atuação mais intensa do elenco — ainda mais de sua protagonista. Por outro lado, talvez isso precise corresponder ao todo. Acontece que o talento de Rapace para interpretar personagens emocionalmente destruídas parece ultrapassar — e muito — a linha na qual Adler equilibra The Secrets We Keep, o que faz o lado bom da experiência de assistir ao filme ser mérito, basicamente, da atriz.

Atenção! Esta crítica contém spoilers sobre o filme!

Arquiteto de pesadelos

A todo instante, os diálogos são mantidos de maneira seca. Adler, que escreveu o roteiro junto ao estreante em longas-metragens Ryan Covington, pode dar a entender seu apego pelas palavras. Nesse sentido, a preferência por uma abordagem que mais parece a ilustração do texto e que pouco indica qualquer tipo de conceito criado pelo diretor acaba por construir uma sensação de que tudo o que é mostrado poderia ser mais; poderia ser maior; poderia ter uma força intimidadora, inclusive, especialmente tensa.

Apesar disso, o primeiro ato de The Secrets We Keep pode ser interessante. Mesmo que Adler, como diretor, não tenha quase qualquer trabalho para desenvolver toda a aflição inicial, que nasce do crescente pânico de Maja, existe, ao menos, um mistério convincente ao redor de Thomas (Joel Kinnaman). A violência dela (de Maja) para com ele (Thomas) move não somente a estrutura dessa primeira parte como, ainda, acrescenta incertezas para o público — o que é fundamental para um thriller.

<em>Thomas e Maja. (Imagem: Divulgação/AGC Studios)</em>
Thomas e Maja. (Imagem: Divulgação/AGC Studios)

Aliás, essa falta de certeza sobre as ações dos personagens acrescenta subtextos essenciais para que entendamos, mais à frente, suas motivações. O instinto de sobrevivência de Maja é a força que segura o trabalho de Adler de maneira mais firme. A confusão convincente da primeira meia hora encontra um aliado que pode ser fundamental para interpretações extrafilme: aquela mulher, que vive na aparente paz suburbana encontra no protestante recém-chegado o monstro nazista, o arquiteto dos seus pesadelos.

Onde a paz parece morar podem existir perversidades das maiores. A angústia de Maja entra em conflito com sua memória, com a incredulidade do marido e com a vizinhança. Não se sabe, até então, do que se trata, se um lobo no corpo de um cordeiro ou um cordeiro visto como lobo. Kinnaman é certeiro em sua interpretação, fazendo com que as expressões e os gestuais da sua personagem permaneçam tão incertos quanto as acusações de Maja.

Não é o melhor dos sinais...

Por tudo, existe poder dramático em The Secrets We Keep. A questão, porém, é que a direção de Adler prefere espalhar o maior dilema durante todo o tempo e, assim, o confronto mais intenso do filme pode perder força pouco a pouco. O diretor, por essa perspectiva, parece investir mais em subtramas, como a de Rachel (Amy Seimetz) — perdida em relação ao paradeiro do marido —, do que naquilo que constrói inicialmente. É uma opção arriscada que tem potencial para transformar o todo em algo menos vivo.

É interessante, em meio a essa exposição mansa de Adler, como ele foge de extremos, rejeitando até mesmo uma atriz competente o suficiente para convocar uma agonia generalizada e passar boa parte de suas emoções para o público. O diretor prefere uma experiência mais tranquila, por mais que jogos mentais e alguma violência mais significativa tentem avivar os acontecimentos.

<em>Rapace é absoluta em cena. (Imagem: Distribuição/AGC Studios)</em>
Rapace é absoluta em cena. (Imagem: Distribuição/AGC Studios)

E é essa pseudotranquilidade, no final das contas, que pode desaguar em uma conclusão moralmente problemática, transformando o terceiro ato em uma espécie de vilão. Felizmente, durante todo o tempo, temos Rapace tão absoluta em cena que essa questão pode ser superada e The Secrets We Keep ter alguma eficiência expressiva. Mas, geralmente, não é o melhor dos sinais quando uma atuação é, de longe, o que há de melhor em um filme.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech.

Fonte: Canaltech

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