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Crítica | Retorno de Rambo tem a ação que queríamos e o enredo que não pedimos

Rafael Arbulu

Considerando que ela não deveria ter passado do primeiro filme (quem leu o livro pelo qual ele tira sua base sabe o motivo), a franquia Rambo fez um ótimo trabalho em se manter não apenas viva, mas relevante. Em um mundo em que Jóias do Infinito e releituras ultrarrealistas de desenhos clássicos permeiam a preferência dos cinéfilos em 2019, a chegada do quinto filme da série do ex-soldado da Guerra do Vietnã agora sexagenário John Rambo traz um respiro muito bem-vindo ao colocar os pés do espectador no chão e ignorar, ao menos temporariamente, elementos excessivamente fantasiosos de outros filmes.

Mas não se iluda: como todo bom filme com a marca registrada de Sylvester Stallone — que assina o roteiro e o enredo deste lançamento — Rambo: Até o Fim (Rambo: Last Blood, no original em inglês) é extremamente “mentiroso” em todos os aspectos. E você vai gostar bastante do filme por isso. E somente isso.

O enredo é simplista. Depois de deixar a Tailândia e voltar para a fazenda da família no Arizona, conforme vimos ao final de Rambo IV, o ex-soldado que dá nome ao título (Stallone) tem vivido com Maria (Adriana Barraza) e sua neta Gabrielle (Yvette Montreal). Por motivos familiares, Gabrielle acaba indo para o México sob protestos de Rambo e Maria, onde acaba caindo nas mãos de traficantes ligados a um cartel de prostituição de menores. A partir daqui, você já sabe o que acontece: Rambo vai atrás da “filha por consideração” em cenas carregadas de um drama exagerado, mas característico de Stallone.

Em pouco menos de duas horas de duração, o que segue é um retalho de fatos obviamente segmentados, tudo no objetivo de entregar — tal qual os filmes que eternizaram a franquia no Hall da Fama dos filmes de ação — uma sequência de cenas de ação culminantes em um confronto final, ao mesmo tempo simples em proporção e épico em seu significado. Rambo não está em algum país longínquo, isolado do mundo e chafurdado em lama, chuva e autopiedade, lidando com o estresse pós-traumático da Guerra do Vietnã. Aqui, vemos um homem que tem todas as ferramentas para defender sua casa e sua família, e não tem vergonha nenhuma de usá-las.

Um parágrafo específico para uma cena sensacional de tortura improvisada: você sabia que uma clavícula pode ser quebrada e puxada para fora do corpo com as mãos? Pois Rambo sabe. É visceral e traz uma carga visual e de drama que faz você encolher um pouquinho na cadeira.

De um lado, uma clara vantagem militar; do outro, dezenas de traficantes pensando: "Danou-se" (Imagem: Divulgação/Imagem Filmes)

O grande problema deste filme é, infelizmente, no enredo. Não que ele seja ruim, mas, particularmente, houve uma pressa em acelerar a narrativa para chegar aos "finalmentes", as confrontações épicas entre herói e antagonistas. Claro, ninguém espera de Rambo o mesmo peso narrativo de, digamos, Morro dos Ventos Uivantes. Se você está no cinema para ver John Rambo, então é claro que deseja ver tiros, flechadas e explosões. Quer uma prova prática? Veja o trailer incorporado a este texto: sem spoilers diretos, dá para afirmar que 70% das cenas dele correspondem ao final do filme. Tem tão pouca coisa antes disso que não dá nem para montar um trailer.

Mesmo assim, essa pressa acaba causando problemas: os antagonistas principais — os irmãos Victor e Hugo Martinez (Óscar Jaenada e Sergio Peris-Mencheta) — até criam uma derivação narrativa entre si, como irmãos em crescente disputa de poder pelo comando do bando, mas isso tudo é jogado para escanteio com uma participação quase nula de ambos no filme inteiro. Mesmo ao final de tudo, quando Hugo leva seu bando — com equipamento militar o suficiente para fazer frente a um pequeno exército — para o Arizona e à fazenda de Rambo, tudo parece servir apenas ao propósito de “dar a Rambo pessoas para matar”. Não há envolvimento, impacto ou qualquer tipo de ação que os torne memoráveis, nem mesmo por cinco minutos.

(Imagem: Divulgação/Imagem Filmes)

Até mesmo uma pequena reviravolta na segunda metade do filme falha em impressionar, estando posicionada na produção apenas como uma engrenagem esquecível para que Rambo elabore um “superplano militar” para se defender de futuros atacantes, tal qual praticamente todos os filmes da série, onde a segunda parte de cada um envolvia algum confronto majoritário, uma espécie de crescendo onde a história atingiria seu ápice, seguida de sua resolução. Há pontos soltos que foram abandonados, mas dariam uma ótima densidade à história se fossem aproveitados de alguma forma.

(Imagem: Divulgação/Imagem Filmes)

É pouco provável que isso seja uma falha de atuação dos dois atores antagonistas: o espanhol Jaenada ainda é lembrado por Luis Miguel: La Serie (2018) e Peris-Mencheta também teve reconhecimento por seu papel na série espanhola Isabel. Dada a forma como a história progride em Rambo: Até o Fim, é bem óbvio que o enredo acelerou demais. De repente, uns 20 ou 30 minutos a mais de filme resolveriam isso, mas é difícil dizer.

Ademais, Rambo: Até o Fim cai no mesmo balaio de Velozes e Furiosos: Hobbs & Shaw: em ambos os casos, a ação tem qualidade de primeira linha. Ambos os filmes servem muito bem ao seu propósito (embora Idris Elba lá tenha sido um melhor vilão do que Jaenada e Peris-Mencheta aqui) e ambas as produções servem muito mais para alimentar o ego de seus protagonistas do que propriamente contar uma história.

Não que tenha algo de errado nisso: eu me divirto à beça em filmes assim. Às vezes apenas queremos ver “o pau quebrando” e, nisso, Rambo: Até o Fim é ótimo. É o tipo de filme do qual não se deve esperar um Oscar de melhor enredo, mas se você desligar o cérebro e apenas curtir a viagem, não vai se arrepender de assistir.


Fonte: Canaltech

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