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Crítica | Rede de Ódio expõe impacto social de atitudes virtuais e pessoais

Laísa Trojaike
·6 minutos de leitura

Sinopses às vezes descrevem a essência do filme, às vezes se detêm apenas ao pontapé inicial da história. Rede de Ódio foi algumas vezes descrito como a história de um rapaz ambicioso que se divide eticamente entre o trabalho que precisa fazer (como um hater na internet) e a tentativa de impressionar a família da mulher por quem nutre sentimentos. Nem essa descrição, nem sinopse alguma que li faz jus a Rede de Ódio, um filme que usa essa premissa (o pontapé) para falar de situações muito mais complexas e perigosas do que um dilema moral entre trabalho e relacionamento.

Essa história, de amor e ódio andando de mãos dadas, ganha tantos desdobramentos, camadas e profundidade que o filme todo se torna muito maior do que qualquer descrição simplificada poderia dar a entender. Não custa nada lembrar também que Rede de Ódio foi dirigido por Jan Komasa, de Corpus Christi, um dos indicados ao Oscar de Melhor Filme Internacional na edição de 2020 da premiação, informação que não atesta a qualidade do filme, mas é um indício de que não se trata de uma obra rasa.

Atenção! A partir daqui, a crítica pode conter spoilers.

O início

A apresentação do personagem Tomasz Giemza (Maciej Musialowski) é leve, mas já revela características que só crescerão posteriormente no filme: Tomasz parece vulnerável e, apesar de plágio ser algo inaceitável, sentimos empatia ao vê-lo chorar ao ser expulso da universidade. Conhecemos Tomasz em um estado bastante ruim, pois, além da expulsão, logo descobrimos que ele não tem renda e estuda com auxílio financeiro da família do seu interesse amoroso.

Imagem: Netflix
Imagem: Netflix

Não demora para que as atitudes de Tomasz fiquem cada vez mais assustadoras e é na sua relação com Gabi Krasucka (Vanessa Aleksander) que isso começa a surgir. Além de stalker, Tomasz começa a demonstrar seu lado manipulador e até mesmo assediador. Ao contrário da maioria dos filmes, no entanto, a direção de Komasa faz questão de humanizar o personagem, mesmo que concordemos que suas atitudes são completamente repreensíveis.

Ainda no princípio da trama, quando Tomasz sai da casa de Gabi e o vemos escutando a gravação e se sentindo ofendido com o modo como falam dele, há um apelo para a sensação comum de que, apesar da nossa curiosidade, talvez o melhor seja não saber o que falam pelas nossas costas. Rede de Ódio já amplia sua complexidade aí, nesse momento em que nada de grandioso está acontecendo ainda, pois, além de termos compaixão por um personagem de caráter duvidoso, também começa o desdobramento da família de Gabi, que está tendo sua privacidade invadida e, nesse processo, revela que a bondade deles não é exatamente pura.

Avalanche

A bola de neve iniciada no princípio do filme não guarda em si indícios que nos permitam antecipar o que está por vir. O desenvolvimento dos personagens é gradual e os closes nos permitem ver os sentimentos crescendo dentro de cada um, não permitindo que personagem algum seja unidimensional. No caso de Tomasz, é possível ver como ele passa do amor ao ódio em pouquíssimo tempo, sendo este o sentimento que impulsiona quase todas as suas atitudes mais perversas e dá nome ao filme — no original (Hejter) ainda faz referência à palavra hater, ou seja, a pessoa que dissemina ódio na internet, geralmente protegida pela suposta sensação de anonimato.

Imagem: Netflix
Imagem: Netflix

A diferença de Tomasz para um hater comum é a sua inteligência e sagacidade, além dos facilitadores que ele encontra pelo caminho, que é a bondade e a confiança das pessoas. O problema, no entanto, é que não é possível saber quais dos haters são capazes de ir além dos não tão inofensivos comentários na internet e o final aparentemente feliz do personagem fortalece essa ideia enquanto ainda nos mostra que não conhecemos as pessoas profundamente.

O ódio desenfreado aliado a todas as outras qualidades de Tomasz, que ainda encontra um trabalho que favorece suas atitudes, conduz o personagem a armação de uma chacina que, até o último minuto, ainda nos deixa na dúvida se de fato irá acontecer. O roteiro de Mateusz Pacewicz, por sua vez, se recusa a absolver Tomasz e impede que o personagem, após ter conseguido conquistar a atenção de Gabi, tente evitar o massacre, mostrando Tomasz completamente imerso em seu poder de manipulação, o que é potencializado em todos os momentos finais de Rede de Ódio.

Público-Privado

Rede de Ódio começa como um romance às avessas e termina como uma vingança movida pela ambição e pelo ódio. O meio, o recheio, no entanto, é igualmente interessante e de suma importância. As muitas camadas do filme incluem relacionamentos interpessoais, família, trabalho, amizade, redes sociais, extremismos, sentimentos, patologias psicológicas, banalização da violência e talvez eu precisasse de muitos parágrafos para esgotar os temas explorados. E é mérito da direção e do roteiro impedir que tudo isso se torne apenas um amontoado de assuntos polêmicos: enquanto o roteiro adiciona camadas com cuidado a partir das ações de Tomasz e das pessoas que o rodeiam, a direção tem o cuidado de dar tempo e espaço para Maciej Musialowski desenvolver os sentimentos do seu personagem.

Imagem: Netflix
Imagem: Netflix

Um dos pontos mais fortes, particularmente, é justamente a mistura de público e privado que Rede de Ódio faz. A motivação de Tomasz é pessoal, diz respeito à aceitação pessoal e a sentimentos que querem ser correspondidos a qualquer custo, o que nos leva ao outro lado. Ele extrapola os limites do pessoal e do privado, não somente invadindo a privacidade das pessoas, mas criando uma onda na internet que tem consequências devastadoras a nível público. A inserção de uma disputa eleitoral em meio a isso não deve ser visto com inocência, sobretudo quando as fake news se tornaram objeto de preocupação internacional, um problema muito discutido em todo o mundo.

É quando Rede de Ódio encontra a política, no entanto, que surge o problema mais notável do filme. A limitação temporal força o roteiro a correr com os fatos para levar o protagonista ao ponto desejado. O resultado disso, no entanto, é a rápida e pouco crível confiança que o candidato Pawel Rudnicki (Maciej Stuhr) desenvolve por Tomasz, apesar dos facilitadores, como a família Krasucki e a droga colocada em sua bebida. Rede de Ódio provavelmente seria uma excelente série, mas, já que não é, a experiência não é menos enriquecedora por causa desse detalhe.

Rede de Ódio é, além de uma excepcional história de suspense com um desenvolvimento impactante, um convite à reflexão sobre nossas próprias atitudes virtuais, mesmo que seja uma aparentemente inocente curtida, afinal o ambiente virtual de redes sociais e outros facilitadores têm ajudado as ideias pessoais a ganharem apoio e gerar impacto social real e significativo. É imperativo que tenhamos responsabilidade com relação às nossas ações virtuais, pois há muito elas já deixaram de ser irrelevantes.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech.

Fonte: Canaltech

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