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Crítica | Possessor pontua a violência e deixa faltar sangue

Sihan Felix
·4 minuto de leitura

Herdar um sobrenome no cinema — provavelmente em qualquer área — pode gerar uma expectativa muito alta (ou muito baixa). Talvez por isso, Sofia Coppola tenha um talento enorme, mas segue uma linha bem diferente da construída por seu pai, Francis Ford (da trilogia O Poderoso Chefão — 1972, 1974 e 1990 respectivamente). Possessor, por sua vez, tem direção de um Cronenberg não-lendário: Brandon. Mas, diferentemente de Sofia em relação ao pai, as semelhanças entre os Cronenbergs são grandes.

Acontece que o interesse de Brandon Cronenberg pelo terror corporal distorce ainda mais os limites alcançados pelo pai em filmes como Videodrome: A Síndrome do Vídeo (de 1983) e A Mosca (de 1986). Existe, no filme em questão, uma fascinação perturbadora sobre os elementos do body horror que fundamentam uma espécie de viagem semissurreal que abraça seriamente a ficção científica.

Atenção! Esta crítica contém spoilers sobre o filme!

Pesadelo

Possessor, que foi chamado de splendid mindfuck (algo como "um fod*-se esplêndido" em tradução livre) no programa oficial do Festival de Sundance, é guiado com o claro intuito de segurar e, ao mesmo tempo, alertar o público. Sua abertura, nesse sentido, já liga as luzes amarelas para quem não consegue lidar com a experiência. Nesse princípio, Cronenberg parece indicar que se pare de assistir ao filme naquele momento caso ele tenha afetado com muita força.

A inserção de uma agulha e a posterior descoberta de um tipo de calibrador de emoções é só o princípio de um assassinato brutal. O diretor, que não poupa detalhes, não está mais do que apresentando Tasya Vox (Andrea Riseborough) por meio do objeto possuído — e digo objeto porque é justamente assim que a direção parece lidar com os corpos, justamente o que difere Cronenberg pai do Cronenberg filho.

Portanto, é possível que buscar ligações com os personagens e, a partir disso, um aprofundamento psicológico destes, não seja o caminho mais adequado para a apreciação de Possessor. O filme pode funcionar muito melhor se a nossa entrega for sensorial, fato que é reforçado pelo desgaste do último corpo hospedeiro de Tasya. Nesse ponto, a impressão pode ser a de um clique, uma mudança de chave — exatamente de humor —, e o todo deixa de ser visceral para abraçar uma doença muito mais próxima do surrealismo.

<em>Uma doença mais próxima do surrealismo. (Imagem: Distribuição/Rhombus Media)</em>
Uma doença mais próxima do surrealismo. (Imagem: Distribuição/Rhombus Media)

Todo o sangue, que conta com cenas visualmente fantásticas — como um personagem que veste o rosto de outro (porém longe do A Outra Face, de John Woo) —, logo é substituído por um domínio total das sensações. O exagero, que evidencia muitos dos elementos do cinema e, inclusive, expõe as atuações a níveis performáticos, faz com que o espectador, mesmo sem querer, crie uma ligação muito mais forte com as imagens do que com a narrativa. Cronenberg não utiliza os tais elementos a favor da história, ele utiliza um fio de história para provocar um pesadelo real, quase como uma louca paralisia do sono.

Ovelha Dolly

Para além do visual e da competência estética demonstrada em Possessor, existem entrelinhas que, de repente, podem ter sido sufocadas pela visão quase surrealista e sangrenta. A facilidade humana de penetrar e se deixar penentrar por ideias e conceitos repulsivos; a realidade frágil da vida; e até mesmo a união entre duas pessoas que, fundidas, parecem encontrar um mundo melhor — deixando subentendido os conceitos de dependência e autoestima.

Todas essas idealizações são pulverizadas ao longo do filme, mas há um momento em que elas podem vir à tona com muita força: uma cena de sexo. Nesta, o quarto aparentemente frio, iluminado pelo azul neon da direção de fotografia de Karim Hussain (de Sete Minutos na Escuridão), faz homem e mulher se fundirem em uma mesma pessoa (ou perto disso). A revelação simbólica da fluidez de identidade a partir de uma cena erótica intensa e propositadamente confusa carrega Possessor, enfim, de metáforas clássicas da filmografia cronenberguiana.

<em>Revelações simbólicas... (Imagem: Distribuição/Rhombus Media)</em>
Revelações simbólicas... (Imagem: Distribuição/Rhombus Media)

No final das contas, não há muito como fugir do sangue. As entranhas e vísceras expostas por Brandon, supostamente diferentes daquelas trabalhadas por David, afastam o filho da genialidade do pai. Se o veterano sempre fez da violência e do terror físico as vírgulas dos seus filmes, o talentoso herdeiro talvez esteja sufocando seu trabalho com muitos pontos finais.

As comparações, finalmente, não têm como ser esquecidas ou menosprezadas. Se vamos seguir a mesma carreira dos nossos pais, precisamos valorizar e aprender muito com eles. Sofia, ao assumir a mesma carreira de Francis Ford, conseguiu desviar dessa herança ao criar sua própria forma autoral. Brandon, com Possessor, até tenta quando subverte a sanguinolência e a traz ao primeiro plano. Pode ser suficiente em se falando de uma experiência isolada, mas não me parece exatamente original a ponto de cordar o cordão umbilical.

O resultado é um ótimo filme, mas a sensação é de que falta algo... Falta, surpreendentemente, sangue — mas é o sangue próprio e não com um DNA de ovelha Dolly, porque este tende a envelhecer precocemente, como aquele animal clonado que, hoje, está exposto em museu, empalhado.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech.

Fonte: Canaltech

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