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Crítica | Por Trás da Inocência é como um carro de autoescola no trânsito

Sihan Felix
·4 minuto de leitura

Existem filmes que podem ser considerados ofensivos em seus conteúdos morais ou sociais, especialmente nas relações deles com a atualidade. É o caso do recente 365 Dias (de Barbara Bialowas e Tomasz Mandes, 2020), por exemplo. Outros, porém, têm algo que pode ser interessante em alguma medida — por mais que não se saiba o que é exatamente —, mas são tão mal executados que aqueles nocivos despontam como obras-primas em comparação. O cultizado The Room (de Tommy Wiseau, 2003) e Por Trás da Inocência são desses com o poder generoso de revelar a competência técnica de filmes moralmente e socialmente infelizes.

Por outro lado, esses mesmos filmes podem conter alguma ingenuidade e, com isso, alimentar a sensação de que a equipe envolvida não tem muita noção de como lidar com a linguagem do cinema. A aparente construção amadora, então, pode fazer muitas opções serem relevadas e a experiência de assistir ao filme ser muito menos irritante. Talvez seja como estar com pressa no trânsito, mas com um carro de autoescola travando o fluxo. Desculpa-se, justamente, por não ser uma situação ofensiva.

Atenção! Esta crítica pode conter spoilers sobre o filme!

Um piquenique diferente

Por Trás da Inocência tem um ar ingênuo desde a sua abertura, com a imagem percorrendo um longo caminho até chegar a uma livraria na qual um livro da escritora Mary Morrison (Kristin Davis) é vendido como água. A relação, portanto, de um mar calmo inicialmente enevoado e, em seguida, com suas ondas chocando-se nas rochas pode criar uma rima interessante para o percurso percorrido pela protagonista.

<em>Ondas revoltosas depois da calmaria da água. (Imagem: Reprodução/Netflix)</em>
Ondas revoltosas depois da calmaria da água. (Imagem: Reprodução/Netflix)

É uma questão, de repente, bem pensada pela diretora e roteirista Anna Elizabeth James (de Pistachio, 2018), mas executada de maneira, no mínimo, estranha. Isso porque existe uma criação de tensão alimentada pelo ostinato (um padrão rítmico-melódico repetitivo) da trilha musical de Drum & Lace (de The Penny Black) que funciona como um anúncio de algo realmente interessante. Além disso, a montagem de Brian Scofield (de Miss Virginia) — que dá a impressão de só saber usar a transição cruzada (quando a próxima cena surge por cima da anterior) — consegue uma contemplação visual por meio do ritmo que ainda não é desmedida.

<em>Água, transição cruzada e névoa. (Imagem: Reprodução/Netflix)</em>
Água, transição cruzada e névoa. (Imagem: Reprodução/Netflix)

Então, finalmente, Scofield corta para um liquidificador em funcionamento. Pronto. Está feito o resumo do filme, que é quase minimalista e metafórico pelo plano detalhe do eletrodoméstico batendo toda a introdução e despedaçando-a. A partir desse ponto, tudo o que Drum & Lace faz soa errado, no momento errado e com uma utilização errada da provável ideia de James, como quando a babá (Greer Grammer) está na piscina com as crianças e o universo criado pela música se assemelha a um piquenique com Peppa Pig e Mary Poppins.

<em>Brincando na piscina ao som de uma trilha musical duvidosa... (Imagem: Reprodução/Netflix)</em>
Brincando na piscina ao som de uma trilha musical duvidosa... (Imagem: Reprodução/Netflix)

Indesculpável

Fica, talvez, nítido que a diretora queria deixar a situação ambígua entre a beleza de Grace (Grammer) e seu poder de sedução com a figura psicologicamente infantil que mora dentro do seu corpo. O problema maior, porém, é que ela (James) nunca se utiliza de planos eficientes quando quer fomentar a carga sexual do filme.

Há motivos extrafilme para isso, como a tentativa de não sexualizar o corpo da mulher, mas é uma motivação que se torna defasada quando a intenção é, justamente, a dualidade entre uma mulher sexualmente ativa e perigosa e a mente infantil de quem quer brincar com os gêmeos como seus iguais.

Junto a isso, James, evitando a sexualização de Por Trás da Inocência, sufoca questões explícitas como a do transtorno dissociativo de personalidade — que deságua em um final, na prática, cômico — e perde a chance de criar os contrastes necessários para uma experiência muito mais intensa por parte do espectador. Nem mesmo os planos detalhes — além do que mostra o liquidificador — funcionam com objetividade.

<em>Talvez o plano mais revelador do filme. (Imagem: Reprodução/Netflix)</em>
Talvez o plano mais revelador do filme. (Imagem: Reprodução/Netflix)

Enquanto isso, a montagem de Scofield segue com suas transições cruzadas, desenvolvendo uma falsa fluidez que, de tão repetitiva, pode cansar. Nesse embalo, tudo é devorado por uma inocência amadora, com boas intenções, que, ao contrário dos filmes ofensivos, não são um insulto moral ou social, mas, se o espectador estiver cansado, previamente irritado ou em algum nível de estresse, pode dar uma vontade grande de cravar a mão na buzina com toda força. E sem pedir perdão.

Por Trás da Inocência está disponível na Netflix.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech

Fonte: Canaltech

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