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Crítica | Pequenos Grandes Heróis e a beleza do trash infantil

Laísa Trojaike
·6 minuto de leitura

Por culpa da própria trajetória da crítica, espera-se que o crítico diga se um filme é ou não é bom, se vale ou não a pena. Adianto que esse não é o meu trabalho e que, ainda mais além, um filme não precisa ser bom para ser bom. O que quero dizer com isso é que um filme não precisa ser uma obra-prima da sétima arte, nem ser perfeito em todos os aspectos para ser um bom filme para alguém. Particularmente, acredito que é até mesmo embrutecedora essa perspectiva de procurar sempre "o melhor" e, em termos de filmes infantis, isso pode ser até mesmo desastroso.

Pequenos Grandes Heróis obviamente não é um grande filme no sentido de merecer ser premiado em Cannes, Veneza, Berlim ou no Oscar. Não estamos falando desse tipo de produção. Este é um filme pensado em si mesmo, por si mesmo, com um objetivo muito específico de entreter crianças, oferecer um momento de nostalgia para quem gostava de As Aventuras de Sharkboy e Lavagirl e, de quebra, entregar uma boa mensagem para quem é o futuro da nossa espécie.

Imagem: Reprodução/Netflix
Imagem: Reprodução/Netflix

Além disso, vale lembrar que Pequenos Grandes Heróis é um filme de Robert Rodriguez, que, talvez você não saiba, é o diretor de grandes títulos como O Mariachi, Alita: Anjo de Combate, Sin City: A Cidade do Pecado e o episódio "The Tragedy" de O Mandaloriano, mas é também a mente criativa por trás de deliciosos trashs como Um Drink no Inferno, Planeta Terror e Machete. Ah, ele também dirigiu todos os quatro Pequenos Espiões. Se Rodriguez quisesse que Pequenos Grandes Heróis fosse algo muito “melhor”, ele com certeza teria competência para tanto.

Atenção! A partir daqui, o texto pode conter spoilers.

Nossa, mas que m***a é essa?

Robert Rodriguez chama a atenção para o quanto o adulto é chato. Se pensarmos nas artes, não é difícil notar como tudo ficou tão rebuscado e complexo, o que é incrível, mas não deveria ser uma condição excludente como de fato é. No cinema, há ainda o fator financeiro: para fazer grandes filmes, pense na casa dos milhões. O que Rodriguez faz em Pequenos Grandes Heróis vai na contramão disso tudo.

Nos tornamos chatos quando exigimos que toda obra de arte criada seja sempre a melhor versão possível, com um primorismo técnico cuja exigência não se justifica (e nem sequer é passível de verificação). Rodriguez, que recebeu um orçamento reduzido para a produção de Pequenos Grandes Heróis, demonstra sua arte na criatividade utilizada para a realização do filme: poderes fáceis de serem realizados com alguns truques e uma vibe artesanal que dispensa a qualidade nível Marvel.

Imagem: Reprodução/Netflix
Imagem: Reprodução/Netflix

Inclusive, é interessante lembrar que Rodriguez trabalhou em sets Disney com O Mandaloriano, o que significa que ele sabe muito bem como é trabalhar com orçamentos estratosféricos. Ainda assim, estamos diante de um diretor que arregaça as mangas e se multiplica — Rodriguez também escreveu, produziu e fotografou Pequenos Grandes Heróis —, não tendo vergonha de demonstrar que é possível se divertir fazendo um filme.

Pequenos Grandes Heróis é apenas um roteiro divertido, filmado de forma divertida e com muita diversão na pós-produção. Claro que não deve ter sido um conto de fadas gravar um filme nível Netflix e com tantas crianças, mas é possível sentir a liberdade criativa transbordar em cada frame, o que permite irmos de piadas infantis (que parecem toscas quando prismadas pelos adultos) a referências incríveis, como aproveitar que a filha do Sharkboy tem o poder de manipular água para introduzir divertidas referências ao pôster e à trilha do clássico Tubarão (ou será que as habilidades dela foram pensadas para poder introduzir essas referências?).

Imagem: Reprodução/Netflix
Imagem: Reprodução/Netflix

A arte não precisa seguir uma lógica, ela cria a sua própria lógica e o cinema não escapa disso. Por que exaltamos, inclusive nos livros de história da arte, a declaração de Picasso em que ele diz pintar como uma criança e não reconhecemos também um cineasta que se atreva a dirigir como uma criança? É como se Rodriguez não deixasse de forma alguma morrer sua infância interior e nos explicasse isso com a ideia de como foi construída a nave alienígena: ela não foi feita para crianças, foi feita por crianças.

Se é bom, porque é?

Um dos melhores reflexos dessa liberdade infantil pode ser vista nas atuações. As crianças, em sua maioria, realmente entregam atuações sofríveis aos olhos do padrão hollywoodiano contemporâneo de boa atuação. Por outro lado, elas não são piores que outros tantos anônimos escolhidos por nomes que hoje estão entre os maiores da história. A diferença é que elas não estão em um filme francês cultuadíssimo dos anos 1960, mas sim numa comédia despretensiosa dos nossos dias e que deliberadamente nos convida a desligar os neurônios.

Do outro lado, temos os adultos. Em seus filmes infantis, é impressionante como Robert Rodriguez consegue sempre reunir grandes atores que muito provavelmente não participariam de um filme dessa qualidade se fosse de outro diretor. Priyanka Chopra, Pedro Pascal, Christian Slater, Sung Kang e Christopher McDonald estão incríveis não porque entregam uma atuação de tirar o fôlego, mas porque parecem estar se divertindo muito ao fazer personagens tão caricatos. É justamente pela liberdade para ser qualquer coisa, inclusive ridículo, que vemos grandes atores fazerem certas ações que automaticamente se tornam risíveis: uma comédia fácil e inocente.

Imagem: Reprodução/Netflix
Imagem: Reprodução/Netflix

Pequenos Grandes Heróis é um verdadeiro trash dos filmes de super-herói, uma espécie de Os Vingadores nível Ed Wood que se orgulha de ser uma verdadeira quimera, como seria qualquer obra de uma criança que não é tolhida por adultos chatos. Talvez Rodriguez já estivesse nos mostrando há anos, através de um ativismo cinematográfico e pedagógico, o que muito recentemente nos falou também Soul, a nova animação da Disney/Pixar: o modelo de educação mais difundido hoje é um dos maiores limitadores da criatividade.

Espero que muitas crianças vejam Pequenos Grandes Heróis: tem crianças protagonistas, o que gera identificação fácil, e com uma representatividade interessantíssima, além de trazer mensagens que incentivam as crianças a desenvolverem suas habilidades e se verem como cidadãs do mundo, em conjunto e não de forma egocêntrica. Muitas crianças verão este filme e não será surpresa se ele também se tornar uma febre entre os pequenos. Muitas crianças moldarão sua personalidade para melhor através de um filme que não é uma obra-prima, como aconteceu anteriormente com os demais filmes infantis de Rodriguez.

Sim, Pequenos Grandes Heróis é um filme péssimo que é, ao mesmo tempo, um excelente filme infantil. Ainda que o público alvo seja as crianças, os cinéfilos todos também poderiam se beneficiar no sentido de entender que o trash é um dos gêneros com maior liberdade criativa, além de ser uma tremenda resistência à ideia de que, para fazer um bom filme, precisamos de muitos, muitos milhões. Mais punk que muitos punks, Pequenos Grandes Heróis é, enfim, uma carta de amor ao ato de simplesmente contar histórias usando através do cinema.

Pequenos Grandes Heróis está disponível no catálogo da Netflix.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech.

Fonte: Canaltech

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