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Crítica | Pânico Abaixo de Zero é drama claustrofóbico higiênico

Sihan Felix
·4 minuto de leitura

Filmes com personagens expostos em um só ambiente podem ser bem intensos a partir da utilização por parte da direção de elementos imersivos. Acontece com os recentes Enterrado Vivo (de Rodrigo Cortés, 2010) e Locke (de Steven Knight, 2013), por exemplo. Ainda, pode ser bem alarmante quando o aviso baseado em uma história real surge. Parece que tudo ganha um contorno mais urgente. Pânico Abaixo de Zero inicia por esse caminho.

Enquanto o filme de Cortés trabalha com seu protagonista aprisionado em um caixão e, de fato, enterrado vivo, o trabalho de Knight acompanha um homem em seu carro, no trânsito, indo de um ponto a outro. Centigrade (título original) é como uma mistura — involuntária, claro — entre ambos: um casal, que estava indo de um ponto a outro, enterrado dentro de um carro.

Atenção! Esta crítica pode conter spoilers sobre o filme!

Retirando a força

Há obstáculos a mais para os protagonistas de Pânico Abaixo de Zero: o frio absurdo que Naomi (Genesis Rodriguez) e Matt (Vincent Piazza) passam por estarem, na prática, dentro de um enorme bloco de gelo e o fato de que ela está grávida. O filme, portanto, é uma bomba de dificuldades para a dupla. Há um universo inteiro dentro do carro, seja a relação ora conturbada devido ao estresse crescente ora amorosa dos personagens, seja a condição de trazer a um mundo estéril de tão gelado uma nova vida, sejam as dificuldades de sede, fome, higiene... tudo é material suficiente para se criar uma tensão nervosa no espectador.

Por outro lado, o diretor Brandon Walsh (estreante em um longa-metragem para cinema) parece não saber exatamente como lidar com todo o conteúdo narrativo e dramático que tem, conduzindo o filme com uma estranha impessoalidade. Há, de fato, uma agonia presente ali, mas é uma aflição não-construída pela direção — tudo existe devido à história real na qual o filme se baseia e, consequentemente, ao roteiro de Daley Nixon (também estreante) e do próprio Walsh.

Nesse sentido, a luta por sobrevivência de Naomi e Matt é erguida por um trabalho ironicamente frio. Pode, inclusive, surgir uma sensação de distanciamento para com a dupla. Isso porque Walsh, a partir do seu olhar sem personalidade, parece não provocar a tensão implícita do contexto; não há, aparentemente, a tentativa de imergir o espectador naquele universo.

<em>Passeando pelo interior do carro... (Imagem: Reprodução/Telecine)</em>
Passeando pelo interior do carro... (Imagem: Reprodução/Telecine)

Isso pode ficar claro com a percepção de que, por mais que exista um ambiente claustrofóbico, a visão do diretor nunca admite a clausura. Existem cenas que vão, justamente, contra essa imersão, como quando a câmera passeia por dentro do carro e vai revelando um interior que parece enorme e, de algum modo, até confortável. Por mais que seja óbvia a situação horrível do momento, Walsh não consegue causar qualquer experiência mais intensa. Na verdade, ele retira boa parte da força do momento.

A inquietação

Pânico Abaixo de Zero conta, também, com uma higienização do todo que pode ser, em alguma medida, medrosa. Após três semanas presos no carro, passando por um parto e estando com uma bebê recém-nascida há dias, a única menção a qualquer tipo de fluido é sobre urinar em uma toalha branca. Por essa perspectiva, existe um distanciamento da condição humana que não condiz com a humanidade necessária para um acontecimento tão carregado. Não que haja qualquer necessidade de momentos explícitos, de cenas escatológicas — longe disso —, mas o diretor conduz tudo com um distanciamento asséptico.

<em>A toalha branca como saída. (Imagem: Reprodução/Telecine)</em>
A toalha branca como saída. (Imagem: Reprodução/Telecine)

Com isso, por mais que o tempo seja implacável nas condições mostradas, a morte de Matt é tão fria que a dor de Naomi no momento pode nem ser tão sentida. Não existe essa busca por sentimentos. Não há um plano fechado que busque a sensação da tal claustrofobia; não há uma escolha que cause nervosismo para além dos próprios fatos. Aliás, Olivia (a bebê) chorando é capaz de produzir muito mais inquietação do que qualquer opção da direção.

No final das contas, Pânico Abaixo de Zero é um filme que se apoia demais na história real e deixa de olhar para si mesmo enquanto filme que é. Assim, afastando-se de si, a probabilidade de não ter um bom efeito sobre o espectador só aumenta e, com isso, as chances de se tornar somente mais um trabalho esquecível acabam sendo enormes — o que é uma pena por se tratar de uma situação tão potente.

Pânico Abaixo de Zero está disponível no streaming do Telecine.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech

Fonte: Canaltech

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