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Crítica | Os Favoritos de Midas moderniza debate sobre até onde vai a ganância

Natalie Rosa
·5 minuto de leitura

Na mitologia grega, a ganância é representada pelo Rei Midas, da Frígia, que, ao receber a oportunidade de fazer qualquer pedido, escolheu que tudo o que tocasse virasse ouro, tornando-se ainda mais obcecado pelas riquezas. Ele não contava que, no entanto, a escolha de poder o impediria de viver, uma vez que até mesmo o seu próprio alimento seria transformado em ouro.

Com banquetes refinados à sua disposição, não conseguia comer, pois bastava um toque mínimo para que a comida deixasse de ser comestível e macia para se tornar um mineral reluzente e maciço. E para se livrar do presente, que acabou se tornando uma maldição, ele precisaria cumprir uma tarefa: ir até o Rio Pactolo e se banhar em uma nascente. A partir de então, Rei Midas deixou de viver pelas suas riquezas.

A história do Rei Midas foi a inspiração para a criação da minissérie Os Favoritos de Midas, original da Espanha e que acaba de chegar ao catálogo da Netflix. Na verdade, a produção foi criada por Mateo Gil com base em um conto de mesmo nome do autor Jack London, norte-americano, publicado em 1901. A trama acompanha a vida do personagem Víctor Genovés, interpretado por Luis Tosar, um milionário que começa a ser misteriosamente extorquido.

<em>Imagem: Divulgação/Netflix</em>
Imagem: Divulgação/Netflix

Atenção: esta crítica contém spoilers de Os Favoritos de Midas!

Até que ponto a ganância de uma pessoa pode chegar? Se algum parente ou amigo nosso estivesse com a vida ameaçada e pudéssemos salvá-lo apenas transferindo uma quantia de dinheiro, que teríamos e não faria falta, talvez isso seria feito imediatamente, antes mesmo de uma intervenção policial. Mas e quando se trata de desconhecidos, pessoas que você nunca viu na vida? Reagiria da mesma forma?

Os Favoritos de Midas coloca essa questão em jogo quando mostra o que vem acontecendo com Víctor. Ele começa a receber cartas misteriosas de um grupo de pessoas que leva o nome da série, pedindo para que ele transfira a quantia de 50 mil euros para evitar que uma pessoa aleatória morresse ali, na cidade de Madrid, a capital da Espanha. Em nenhum momento ele pensa em se livrar desse dinheiro, que foi conquistado através de uma herança inesperada e que, provavelmente, está relacionada às ameaças.

<em>Imagem: Divulgação/Netflix</em>
Imagem: Divulgação/Netflix

Com a polícia e o jornal no qual é dono comandando a investigação, pessoas que estava no lugar errado e na hora errada acabam pagando pela ganância do milionário. A cada momento que ele desobedece às ordens do grupo, que seria a transferência do dinheiro, uma nova pessoa acaba pagando o preço por isso. Para contar essa história, a série apela para o mistério, mas que falha no momento de ser empolgante, mesmo com as cartas aparecendo absolutamente do nada e com as mortes sendo chocantes, a frieza do protagonista na hora de sentir emoções não nos traz uma vontade inquietante de tentar decifrar o que está acontecendo.

É difícil, até mesmo, tentar decifrar o que realmente está passando pela cabeça de Víctor, que em nenhum momento tenta se questionar se não deve apenas pagar a quantia para salvar vidas inocentes. Ele não quer se render, e ponto final. Obviamente ele se preocupa com o que está acontecendo, mas consegue, por exemplo, se envolver tranquilamente em um novo romance com a jornalista Mónica Báez (Marta Belmonte), que futuramente se torna vítima com a autorização do novo amado.

A inspiração na história do Rei Midas, no entanto, é interessante, e assim como toda série de suspense a curiosidade se mantém firme mesmo diante ao tédio. Aos poucos, Os Favoritos de Midas, o grupo, vai se revelando e vamos descobrindo que se tratam de milionários que cansaram de suas fortunas e estão tentando trazer novos integrantes para a equipe, e lentamente Víctor começa a demonstrar sinais de que está sendo corrompido com sucesso.

<em>Imagem: Divulgação/Netflix</em>
Imagem: Divulgação/Netflix

Em meio aos seus questionamentos morais, a série traz também como cenário uma movimentação social chamada de Revolta Espanhola, que também parece estar ligada ao grupo criminoso, mostrando que tudo foi muito bem orquestrado e que conta com pessoas de poder na liderança. O grande debate da história da minissérie, que modernizou os acontecimentos do livro, é mostrar o quanto as pessoas se veem absorvidas pelo poder, possuindo quantias de dinheiro surreais para apenas uma pessoa, sem a intenção de abrir mão disso, mesmo que custe a morte de vidas inocentes.

Na teoria, Os Favoritos de Midas conta uma história intensa, mas, na prática, se tornou rasa e dinâmica. Diversos momentos ao longo dos poucos episódios são desperdiçados em conflitos pessoais construídos de forma fraca. Além disso, a voz da narração que faz a leitura das cartas não desperta qualquer tipo de emoção, como o medo, parecendo mais uma voz que vai anunciar qual será o filme de amanhã no canal de televisão mais popular do país. As ameaças são, de fato, bem explicadas, mas não vemos qualquer identidade dos criminosos.

<em>Imagem: Divulgação/Netflix</em>
Imagem: Divulgação/Netflix

A série não mostra quem são esses milionários envolvidos no grupo criminoso, nem mesmo na cena final, quando Víctor é aceito como um deles e entra em um carro após terem ido o buscar depois da morte de Mónica, autorizada pelo próprio. Porém, alguns personagens envolvidos na investigação e na vida corporativa do homem acabam sendo os suspeitos, mas a resposta fica apenas na imaginação de quem está assistindo, o que mostra que a trama se importou apenas trazer esse debate à modernidade.

A minissérie Os Favoritos de Midas está disponível na Netflix em seis episódios.

Fonte: Canaltech

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