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Crítica Os Anéis de Poder | Um retorno com o pé direito à Terra-Média

O Senhor dos Anéis é um gigantesco marco cultural, seja na literatura ou mesmo no cinema. A obra de J. R. R. Tolkien fundamentou praticamente tudo aquilo que a gente conhece hoje de fantasia — um legado que Peter Jackson soube levar muito bem para as telas na trilogia original. Não por acaso, a devoção e a paixão que muitos fãs dedicam a esse universo são gigantescas. Tão grande quanto a pressão que isso criou em torno de O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder.

A nova série da Amazon Prime Video inspirada no mundo de Tolkien sempre foi cercada de desconfiança, seja pela ideia de expandir uma história que já tinha sido explorada à exaustão em seis filmes ou pelo simples fato de trazer um novo olhar para uma Terra-Média que fala tanto ao nosso saudosismo. Contudo, o seriado não poderia ser mais respeitoso tanto com os livros e mesmo com os longas. Mais do que isso, a estreia é um enorme abraço a todo fã de fantasia — a adaptação que todos queriam ver e não sabiam.

E com tanta coisa em jogo, é realmente admirável o trabalho do streaming de equilibrar tantas variáveis de uma só vez. Os dois primeiros episódios disponibilizados na última quinta-feira (1º) mostram o tamanho do cuidado dos produtores em ser fiel às milhões de páginas e detalhes deixados por Tolkien ao longo dos anos, ao imaginário da Terra-Média que Jackson apresentou nos cinemas e, ainda assim, dar seu toque pessoal para apresentar algo realmente novo.

Os Anéis de Poder não só exala frescor por trazer uma história ambientada milênios antes de O Senhor dos Anéis, em uma época em que o mundo ainda era jovem. Para além disso, é uma volta muito bem-vinda ao high fantasy em um momento em que as histórias se tornam mais cinzas e sombrias.

Assim, para quem temia que a Terra-Média fosse contaminada pelo efeito Game of Thrones da cultura pop, a Amazon começa com o pé direito ao nos conduzir por um mundo tão mágico e que nos fazia tanta falta.

Acertando o tom

O grande acerto de Os Anéis de Poder foi ter mantido a distância correta da trilogia O Senhor dos Anéis. A série não se afasta demais do que os filmes apresentaram, da mesma forma que não tenta se aproximar muito para evitar se limitar ao trabalho de outra pessoa.

Série se aproxima da estética dos filmes, mas ainda encontra espaço para imprimir algo próprio (Imagem: Divulgação/Amazon Prime Video)
Série se aproxima da estética dos filmes, mas ainda encontra espaço para imprimir algo próprio (Imagem: Divulgação/Amazon Prime Video)

Como dito, ela soa familiar ao mesmo tempo em que introduz muita coisa nova e imprime uma cara própria a esse universo tão rico. Para isso, a escolha de levar a trama para a Segunda Era é mais do que precisa, explorando muitas das histórias que aparecem apenas em livros como Silmarillion e Contos Inacabados — que não são leituras tão simples assim.

Dessa forma, o foco fica muito menos na ameaça do Um Anel, que nem chegou a ser criado ainda, e passa a olhar para as raças da Terra-Média e para a vastidão e as infinitas possibilidades que esse mundo ainda jovem tem a oferecer.

Assim, a partir dos olhos de Galadriel (Morfydd Clark), acompanhamos a jornada dos elfos neste novo mundo tentando estabelecer uma nova sociedade fora do seu antigo paraíso ao mesmo tempo em que vivem assombrados pelo retorno iminente de um mal antigo.

Levar a história para a Segunda Era abre muito espaço para explorar a mitologia da Terra-Média e apresentar algo novo (Imagem: Divulgação/Amazon Prime Video)
Levar a história para a Segunda Era abre muito espaço para explorar a mitologia da Terra-Média e apresentar algo novo (Imagem: Divulgação/Amazon Prime Video)

Aliás, a personagem é o grande destaque desses capítulos iniciais. Embora seja alguém que a gente já conhece dos filmes, essa versão da Galadriel é muito mais humana, por mais contraditório que isso soe. Ela não é aquela Senhora da Floresta, sábia e enigmática, que ajuda Frodo em A Sociedade do Anel. Nessa época, ela é muito mais uma guerreira com personalidade forte e com quem é muito mais fácil o público se relacionar — e a atriz segura muito bem essa barra.

Além disso, toda essa ambientação abre espaço também para a série explorar a rica mitologia que Tolkien criou. O primeiro episódio dá muito bem esse tom, contando de forma bem sucinta toda a cosmogonia tolkiana, das Árvores Sagradas ao surgimento do mal por Morgoth.

E ainda que algumas coisas sejam apressadas ou mal explicadas, não dá para negar como tudo isso é visualmente impactante. Sem exagero, é um belo cartão de boas-vindas para nos lembrar que estamos de volta à Terra-Média.

Tanto que o aspecto visual é outro ponto forte da estreia. A produção soube combinar esse visual familiar deixado pela trilogia de Jackson com essa ideia de um mundo jovem e, de quebra, casar tudo isso com o tom religioso que Tolkien sempre imprimiu em seus livros. Não por acaso, toda a representação de Valinor e a ida dos elfos escolhidos para esse paraíso carregam essa aura sagrada, da mesma forma que a dúvida plantada sobre o retorno de Sauron ecoa muito o medo do demônio cristão.

A construção dessa ameaça iminente faz com que até a aparição dos primeiros orques na tela seja assustadora (Imagem: Divulgação/Amazon Prime Video)
A construção dessa ameaça iminente faz com que até a aparição dos primeiros orques na tela seja assustadora (Imagem: Divulgação/Amazon Prime Video)

E Os Anéis do Poder consegue alinhar tudo isso dentro desse clima de high fantasy que é fundamental a O Senhor dos Anéis — o que ajuda muito a construir o clima que deve ser adotado ao longo de toda a temporada. Tanto que, quando vemos o surgir dos primeiros orques, a cena se torna muito mais tensa do que quando os monstros apareciam para Frodo e Gandalf, por exemplo.

Novas caras (mas nem tanto)

Voltando para os personagens, a nova Galadriel é a dona da série, mas não é o único nome a chamar a atenção nesta estreia. Robert Aramayo faz um Elrond bem diferente daquele vivido por Hugo Weaving e fica claro que a ideia é desenvolvê-lo ao longo das temporadas até que ele se torne o sábio senhor de Valfenda. Por enquanto, porém, ele ainda é até um pouco ingênuo, mas o que ajuda a trazer uma leveza interessante para a trama. Toda a sua interação com os anãos em Khazad-Dûm é ótima.

Galadriel brilha e mostra quem é que manda de verdade na série (Imagem: Divulgação/Amazon Prime Video)
Galadriel brilha e mostra quem é que manda de verdade na série (Imagem: Divulgação/Amazon Prime Video)

Ao mesmo tempo, há algumas adições que ainda precisam mostrar para o vieram. É o caso de Arondir (Ismael Cruz Cordova) que vive um elfo patrulheiro que é apaixonado por uma humana e que, até agora, não foi nada além de mediano. E, ao que tudo indica, sua história vai ser vital na trama daqui em diante.

Um detalhe em relação ao elenco é o quanto alguns nomes foram escalados para criar a ponte com os filmes. Enquanto Elrond e Galadriel são aqueles lembretes de que Os Anéis de Poder é algo novo e distinto do cinema, Nori (Markella Vanenagh) e o Estranho (Daniel Weyman) foram escolhidos para serem equivalentes ao Frodo de Elijah Wood e o Gandalf de Ian McKellen — embora não esteja claro se o homem que caiu do céu é mesmo o Cinzento.

Da mesma forma, a própria caracterização dos anãos também remete muito ao que vimos antes, principalmente em O Hobbit. Da personalidade de Durin (Owain Arthur) à própria maquiagem usada nos atores para dar forma ao caricato rosto, tudo ali soa bem familiar.

Um belo começo

Para quem temia que O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder maculasse a obra de Tolkien ou mesmo as nossas memórias dos filmes, pode ficar tranquilo. A nova série é respeitosa a todo o legado da Terra-Média em um nível tão impressionante que é de encher os olhos e querer mergulhar a fundo mais uma vez naquele universo.

Anéis de Poder é um abraço não só aos fãs de Tolkien, mas também em quem sentia falta de uma boa fantasia clássica (Imagem: Divulgação/Amazon Prime Video)
Anéis de Poder é um abraço não só aos fãs de Tolkien, mas também em quem sentia falta de uma boa fantasia clássica (Imagem: Divulgação/Amazon Prime Video)

Ao saber dosar bem a distância entre o que já foi feito e o que tem de novo, o seriado consegue encontrar sua própria identidade com certa facilidade e explora toda a mitologia tolkiana com aquilo que ela tem de melhor: a estética, o espírito e o brilho do que há de melhor em high fantasy.

Com apenas dois episódios, ela dá o tom do que está por vir e ainda planta bom mistérios para serem explorados ao longo de sua curta temporada de apenas oito capítulos. Ela sabe se apoiar no que a gente já conhece de O Senhor dos Anéis para construir tensão em torno desse retorno de Sauron e na própria identidade do Estranho — tudo isso enquanto explora novas facetas de personagens já conhecidos e nos apresenta alguns rostos inéditos.

Só que, mais importante do que tudo isso, Anéis de Poder é uma série que não se limita a ser apenas para os fãs de Tolkien. É claro que quem conhece o universo vai se deleitar com cada detalhe e referência apresentado, mas o maior mérito do seriado é abrir as portas mais uma vez da Terra-Média para que novos públicos se encantem com esse mundo tão rico.

Em uma época em que o dark fantasy parece ter se tornado regra e todo mundo quer contar histórias sombrias em mundos sujos e violentos, é sempre bom voltar para o início de tudo e lembrar o porquê um clássico é um clássico. Como é bom estar de volta à Terra-Média.

Os dois primeiros episódios de O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder já estão disponíveis no Prime Video.

Fonte: Canaltech

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