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Crítica | O Turista Suicida esquece que a vida tem mais de uma nota

Sihan Felix
·4 minuto de leitura

Há quem consiga pensar de maneira completamente formal e bem definida, decupando as cenas com um rigor extremo. Diretores como o grego Yorgos Lanthimos (de A Favorita – filme de 2018) não estão somente ilustrando o roteiro, mas construindo de um jeito muito específico e preestabelecido cada momento. Jonas Alexander Arnby – diretor de O Turista Suicida – busca esse caminho black tie e, a partir dessa escolha, alcança bons momentos. Por outro lado, talvez lhe falte a consciência de Lanthimos.

De todo modo, comparações podem ser bem traiçoeiras. Arnby, se tenta arquitetar tudo à base de uma solidez estrutural e estética, o faz de maneira burocrática. Não existe tempero em toda a construção. Essa direção acaba sendo a alma gêmea da morbidez da história de Rasmus Birch (de Broderskab – de 2009) – uma alma gêmea que, infelizmente, carece de química. Na prática, não existem contrapontos em qualquer aspecto, seja narrativo ou técnico, o que pode fazer os curtos 90 minutos de duração passarem se arrastando.

Nesse sentido, a tonalidade sempre fria da fotografia pode intensificar a depressiva situação de Max (Nikolaj Coster-Waldau) sem dar margem para a complexidade já intrínseca ao momento de sua vida. Ao mesmo tempo, a trilha sonora de Mikkel Hess (de Camping – de 2009) contorna cada momento com uma sinestésica palidez e, quando procura crescer e criar alguma tensão, parece estar em um desespero triste. Sem respiros fora do óbvio, O Turista Suicida pouco a pouco começa a se perder dentro de si, como se agonizasse preso em uma armadilha criada pelo seu próprio diretor.

Atenção! Esta crítica contém spoilers sobre o filme!

Sem vida

Existem, claro, promessas de discussões que têm um certo aprofundamento, especialmente nos dois primeiros atos, até o momento em que Max decide fugir do peculiar Hotel Aurora. Assim, saber que os dias estão contados é um vilão destruidor, que ativa, inclusive, processos ansiosos sobre manter a dignidade nos últimos dias da vida.

Dentro dessa perspectiva, Coster-Waldau parece tentar fugir das amarras impostas pela mise-en-scène de Arnby e pode até conseguir que seu amor pela parceira e sua dor por deixar tudo para trás sejam vistos como opostos, mas é tudo muito duro nas mãos da direção. Dessa forma, emoções opostas tornam-se quase iguais, monocórdicas, e todo um universo possível para subtextos dentro do roteiro de Birch fica engasgado. O simbolismo do renascimento, por meio de vasos em formato oval (de ovo mesmo) nos quais os corpos sem vida são depositados e alimentam o crescimento de uma planta, pode, inclusive, parecer esquemático demais, sem força e, ironicamente (ou não), sem vida.

<em>Coster-Waldau tenta... (Imagem: Snnowglobe Films)</em>
Coster-Waldau tenta... (Imagem: Snnowglobe Films)

Sem cor

Ainda, por mais que possa ser necessário evitar comparações, há um nível de proximidade com O Lagosta (de Lanthimos, 2015) que vez ou outra pode causar algum desconforto em quem assistiu ao filme do grego. O problema para Arnby é que, enquanto o filme de 2015 está sempre entregue ao realismo fantástico, O Turista Suicida busca a realidade pela realidade – até mesmo em sua emulação daquele filme, que é explícita tanto no Hotel Aurora (O Hotel em O Lagosta) quanto quando Max faz uso de psicotrópicos.

Se os dois estabelecimentos oferecem conforto e, enfim, concedem um último desejo (seja ele pós-vida ou pró-morte), eles também têm exigências (seja ela uma obrigação suicida ou um romance distópico). No final das contas, as comparações, infelizmente, ficam somente como analogias e, olhando mais de perto, podem até ser covardes. Porque, enquanto o filme de Lanthimos dificilmente deixará de causar alguma sensação – gostando ou não dele –, o de Arnby tem a força (ou fraqueza) de poder não causar comoção alguma… o que é bem complicado para um filme que investe tanto em uma nota só.

<em>Tudo em uma nota só. (Imagem: Snowglobe Films)</em>
Tudo em uma nota só. (Imagem: Snowglobe Films)

Então, nos segundos finais, não adianta muito fazer crescer misteriosamente uma planta ou querer ser ambíguo. Depois de tanta martelada na realidade, a fantasia perde a cor.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech

Fonte: Canaltech