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Crítica | O Monstro ao Lado mostra que a história deve ser escrita pelo futuro

Laísa Trojaike

"História é aquela certeza fabricada no instante em que as imperfeições da memória se encontram com as falhas da documentação".
(Julian Barnes)

Fatos passados não nos são acessíveis no presente. A história, como um todo, não é uma ciência exata. História é uma construção, assim como o é o direito e o cinema. O Monstro ao Lado, minissérie documental que entrou esta semana no catálogo da Netflix, entrelaça sutilmente essas três linguagens e, após cinco episódios, nos deixa com mais questionamentos do que respostas. E isso é um excelente sinal (ao menos nesse caso).

A minissérie aposta no gosto do público por dramas grandiosos e controversos (afinal, John Demjanjuk foi ou não foi um carrasco sádico nazista?), mas na verdade vai muito além disso ao contrapor os argumentos de acusação e de defesa com a mesma intensidade, deixando que cada um fale por si e, quando uma opinião é proferida, não é através da voz de um narrador, mas sim dos entrevistados, que são personagens da história contada.

A partir daqui a crítica pode conter spoilers.

Só o gostinho

O primeiro episódio apresenta a história de um imigrante que é acusado de ser Ivan, o Terrível, um soldado nazista conhecido por seu sadismo. Embora sejamos induzidos pelo título da série a ver John Demjanjuk como culpado desde o princípio, não é difícil ignorar esse pressuposto: em pouco tempo a série começa a revelar que a história não era tão clara e que o suposto Ivan, o Terrível poderia ser não mais do que apenas suposto.

Imagem: Netflix

A montagem consegue brincar com as entrevistas e com as imagens de arquivo o suficiente para mudar nossa inclinação de um momento para o outro: ambos os lados parecem muito convincentes ao apresentarem seus argumentos e/ou provas ou ao desmentir os argumentos e provas opostos. Somos apresentados a um caso que parece terrivelmente óbvio e, no período de um episódio, somos submetidos a mudanças de perspectivas drásticas: está fisgado o espectador.

Ainda nesse primeiro contato a série já deixa transparecer o que virá a ser seu grande trunfo: há muito mais em jogo do que apenas a vida de um homem. Alguns casos dizem respeito à humanidade como um todo e, por se tratar de um relato ligado ao holocausto, a presença de judeus pedindo por justiça adiciona um fator ainda mais pesado ao julgamento.

Vai acabar

Ainda na esteira de que O Monstro ao Lado vai muito além da história de Demjanjuk, há uma sutil discussão que ganha corpo através dos personagens envolvidos com o julgamento: assim como o holocausto não está presente para análise, em breve também não estarão nenhum dos assassinos ou dos sobreviventes. A partir disso, restarão apenas as documentações, muitas delas possíveis falsificações ou mentiras.

Imagem: Netflix

É realmente comovente como os discursos das testemunhas são postos em xeque pela idade em que se encontram. A visível senilidade de uma das testemunhas deixa clara a frieza que pode atingir uma argumentação em um julgamento: a memória de uma experiência traumática pode ser completamente descartada por algo que é sintomático da idade.

Ao ver o caso de John Demjanjuk arrastar-se por décadas em meio a provas que parecem falhas e inconclusivas, fica claro que o trabalho de escrever a história não é um processo fácil. O documentário apresenta o caso segundo a lógica cronológica, explicando cada ponto de virada a favor ou contra John Demjanjuk e dá tempo suficiente para que os personagens do evento possam, anos depois, refletir sobre o que aconteceu na época e, nesse ponto, há um louvável tratamento com as entrevistas: não só os entrevistados parecem completamente a vontade ao falarem dos seus pontos de vista, mas os jogos de perguntas e repostas parecem ter sido tão bem pensados e construídos pela equipe que a montagem não parece ter tido dificuldade de driblar um possível spoiler do desfecho de John Demjanjuk.

Declaração política

Tendo construído sua narrativa com uma pretensa imparcialidade, O Monstro ao Lado convida ambos os lados, acusadores e apoiadores, a assistirem a mesma história e se deixar guiar pelos acontecimentos expostos: protestos judeus e da KKK têm o mesmo destaque pela montagem. O caso de John Demjanjuk não chega a ter um desfecho ideal e é justamente o desenrolar desse processo que surge ao final como uma espécie de alerta.

O caso de John Demjanjuk é emblemático e vai muito além de simplesmente provar se aquele imigrante ucraniano era ou não um soldado nazista, o que por si só já é um grande capítulo na história. A participação da mídia em um julgamento como esse, a pressão popular, os grupos extremistas, as polarizações e o ponto de interrogação que a justiça coloca sobre a própria cabeça são os primeiros e mais intensos efeitos colaterais que a minissérie revela.

Imagem: Netflix

Ao final, com John Demjanjuk morrendo antes de ter sua sentença definida, por estar em fase de apelação, a declaração de inocência de um provável culpado surge como um gatilho social perigoso: o julgamento é muito mais do que tentar descobrir se John Demjanjuk é um nazista, é ainda muito maior do que a escrita da história que passou simplesmente no sentido de ter o registro do que aconteceu de fato. O surgimento de uma nova entrevistada ao final dos cinco episódios revela o verdadeiro intuito de O Monstro ao Lado: “Se dissermos ‘Nazistas estão livres. Certo, vamos deixar pra lá.’ Que mensagem isso passa para os assassinos de hoje?”, diz ela enquanto vemos imagens de grupos extremistas contemporâneos.

O efeito é semelhante ao final de Infiltrado na Klan (de Spike Lee, 2018): mais assustador do que o que aconteceu no passado, é a ideia de que ainda exista quem queira fazer tudo novamente no presente. A sensação desesperadora de que as vezes parece que não saímos do lugar ou, pior, de que vivemos um retrocesso.

Fonte: Canaltech

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