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Crítica | O Mediador é ação insossa com irresponsabilidade internacional

Laísa Trojaike
·4 minuto de leitura

Uma premissa internacional é sempre bem-vinda, sobretudo em tempos de abstinência de 007, Missão: Impossível e afins. Não podemos nos esquecer, no entanto, que a história do cinema nos mostrou o quanto esses filmes costumam endossar ou criticar certas relações internacionais. O Mediador lida com o vespeiro do colonizador versus colonizado e faz um tremendo jogo de cintura para entregar uma narrativa white savior menos óbvia.

O Mediador é o segundo longa-metragem de Esteban Crespo, o que pode demonstrar inexperiência do diretor, inábil também em maquiar o filme para que soasse um pouco menos falastrão. Na verdade, Crespo comete muitos erros e entrega um filme chato, confuso e com uma narrativa clichê que já não tem mais muito espaço entre os espectadores mais críticos.

Imagem: Reprodução/Netflix
Imagem: Reprodução/Netflix

Atenção! A partir daqui, a crítica pode conter spoilers.

Quê?

O Mediador é, no mínimo, um filme muito desconfortável. A história, confusa desde o princípio, nos mostra um improvável herói de ação ao enviar um advogado para uma zona de conflito. Não há nada que nos indique suas habilidades, a não ser algumas linhas dos diálogos que indicam Carlos (Raúl Arévalo) como a pessoa ideal para a missão. Enviado meio que contra a sua vontade e com muita pressa para voltar a tempo de ver o parto da sua filha, o próprio Carlos já deveria ser uma injeção de adrenalina no filme de ação, mas nem isso acontece.

Além de não conseguir entregar uma ação empolgante, o filme parece tentar a tensão que surgem de negociações complicadas, mas isso também não funciona, porque não temos conhecimento das partes envolvidas e nem sequer conseguimos compreender o que está acontecendo. Isso é bastante conveniente para O Mediador, já que nos ajuda a ver o filme até o fim na esperança de que alguma reviravolta aconteça. Mas nada acontece, a não ser desenvolver a história de Carlos até o ponto em que ele possa voltar para casa.

Imagem: Reprodução/Netflix
Imagem: Reprodução/Netflix

Produzido através de uma parceria entre Espanha, Bélgica e EUA, não podemos ver O Mediador com olhos inocentes, sobretudo quando o filme leva a história para a África (sem localizar muito bem a cultura do país africano no qual Carlos estava). O que temos de mais palpável também é um aparente embuste. O filme da Netflix cita como inimigos a organização terrorista Zande, sem explicar que Zande é um grupo étnico e não um grupo terrorista.

Colonizador

Pior do que identificar um grupo étnico com um grupo terrorista é ignorar que o filme é produzido por países colonizadores, com um protagonista também de uma cultura colonizadora, que vai criar diversas tretas no país colonizado. Há artigos que citam a violência do governo Zande e, curiosamente, existem artigos científicos especificamente sobre como a colonização afetou o direito dos Zande. Igualmente curioso é o fato de que, além de “colonizador”, o protagonista também é envolvido com Direito e, ainda pior, advogado de uma petroleira que enriquece a Espanha a partir da exploração de territórios não-espanhóis.

Imagem: Reprodução/Netflix
Imagem: Reprodução/Netflix

Os poucos personagens locais (para evitarmos o termo generalista “africanos”) são caricatos ou vítimas que adquirem sempre posição de inferioridade diante do protagonista. O Mediador tenta compensar isso tudo com a representatividade feminina da personagem Ale (Candela Peña), cuja influência e liberdade também permanecem sem justificativa e só servem como estratégia de roteiro para facilitar ou dificultar a trajetória do protagonista.

A cereja do bolo é o endeusamento da atitude não-fez-mais-que-a-obrigação de Carlos. Em uma reprodução absolutamente pobre e pouco explorada da trágica (e ainda comum) atitude de estrangeiros que deixam mulheres e filhos para trás, o longa faz questão de glorificar a preocupação de Carlos com Calixto Jr.(Dairon Tallon), o que culmina em uma patética cena final em que somos obrigados a ficar com o desfecho do colonizador.

Imagem: Reprodução/Netflix
Imagem: Reprodução/Netflix

Carlos chega ao banheiro, onde Calixto Jr. está tomando banho na banheira, e senta no vaso sanitário. Um lento zoom in nos mostra Carlos reflexivo e a princípio profundamente marcado por tudo o que aconteceu, o que seria um final digno, ainda que triste. Mas não. Somos obrigados a terminar essa história com um zoom in que chaga ao primeiríssimo plano para que possamos apreciar o melodrama de uma lágrima que escorre enquanto Carlos sorri.

A Netflix tem excelentes filmes espanhóis em seu catálogo, mas este é uma verdadeira bomba, já que nem as sequências de ação valem a pena por aquilo que se propõem, ou seja, serem sequências de ação. Particularmente, não acredito que o catálogo da plataforma de streaming seja tão ruim e, no final das contas, o sucesso de certos títulos reflete muito mais o público do que o serviço. O Mediador, ainda que seja um filme bastante dispensável, serve pelo menos como uma prova de que há um longo caminho reflexivo e ético a ser traçado.

O Mediador está no catálogo da Netflix.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech.

Fonte: Canaltech

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