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Crítica | O Halloween do Hubie não é o pior filme com Adam Sandler

Sihan Felix
·4 minutos de leitura

Há alguns meses, Adam Sandler prometeu que faria o pior filme de sua carreira caso não fosse reconhecido com uma indicação ao Oscar 2020 pelo seu trabalho em Joias Brutas (de Benny Safdie e Josh Safdie, 2019). A indicação não veio e, consequentemente, O Halloween do Hubie (disponível na Netflix) tornou-se uma brincadeira entre fãs e detratores sobre as palavras do ator.

Acontece que o filme, que faz parte do contrato de Sandler com a Netflix, traz muito daquilo que transformou seu protagonista em uma espécie de ícone do besteirol. Toda a inocência — que é ainda mais transparente em seu stand up Adam Sandler: 100% Fresh —, todos os clichês, a reunião de amigos na composição do elenco... tudo acaba transformando essa investida em uma espécie de horror para quem detesta o gênero (ou estilo) e uma satisfação para quem sabe bem o que esperar e, claro, não espera muito mais do que um trabalho tipicamente sandleriano (ou sandlerista?) geralmente oferece.

Atenção! Esta crítica contém spoilers sobre o filme!

Quase o de sempre

No filme, Hubie Dubois (Sandler) é um sujeito devotado à sua cidade, mas que é alvo da zombaria de quase todos os moradores locais. Hubie, que mais parece uma caricatura de muitas das comédias realizadas durante a carreira do seu intérprete, é bobo, mas tem um coração gigante. Durante o Halloween, acontecimentos inusitados assombram a vizinhança e resta a ele (Hubie) salvar o dia.

A partir dessa premissa, O Halloween de Hubie traz absolutamente nada de novidade, mas também passa longe de cumprir a promessa que foi realizada. Há, de certa forma, uma tentativa de inflar de besteiras tudo o que acontece, passando por piadas escatológicas, coadjuvantes bizarros, romance inusitado e, claro, a redenção do subjugado.

<em>Coadjuvantes bizarros... (Imagem: Reprodução/Netflix)</em>
Coadjuvantes bizarros... (Imagem: Reprodução/Netflix)

Ainda assim, existe alguma magia no funcionamento da narrativa. É como se, ao coescrever o roteiro, Sandler soubesse exatamente o que esperam de suas comédias e não tivesse vergonha alguma de se expor dessa maneira. Ao mesmo tempo, há um carinho considerável em como ele lida com personagens infantis. Nesse sentido, por mais que o filme tenha recebido uma classificação indicativa de 14 anos de idade, há momentos que, sem dúvida, fariam crianças pequenas embolarem de rir, dada a ingenuidade tanto do personagem principal quanto das piadas — especialmente as físicas.

Aliás, o próprio Hubie é, praticamente, uma metáfora sobre a permanência da infância na vida adulta e o quanto isso é importante para a manutenção de uma sanidade frente a um mundo tão hostil. Essa hostilidade, inclusive, está tanto no tratamento dado à personagem de Sandler por parte de todos — especialmente do Sargento Steve Downey (Kevin James) — quanto no crescimento do que é arremessado contra ele: inicia-se com ovos e, mais à frente, já são monitores de computador, pás e etc.

<em>Sargento Steve Downey (Imagem: Reprodução/Netflix)</em>
Sargento Steve Downey (Imagem: Reprodução/Netflix)

É o que resta...

Tudo é defendido por uma agilidade fora do comum para a esquiva que, em parte, parece acontecer devido ao costume de ser tratado dessa forma durante toda a vida e, por outro lado, por não se deixar abater, visto que existe uma criança intocada ali dentro, que rege seu humor e sua visão sobre a vida. Além disso, sua garrafa térmica à la Inspetor Bugiganga talvez seja um símbolo do quanto pode ser extraído das coisas mais simples da vida ou do quanto a simplicidade pode ser uma arma de defesa.

<em>A arma de defesa (Imagem: Reprodução/Netflix)</em>
A arma de defesa (Imagem: Reprodução/Netflix)

De todo modo, não há nada de novo, como dito, e, ainda, as interpretações sobre o filme podem parecer bem forçadas. Isso porque o público foi acostumado a odiar tudo o que vem de Adam Sandler ou a amá-lo por produzir besteiróis. Ele, claro, sabe brincar com esse fator. Somente ao dizer que fará o pior filme de sua carreira, por exemplo, ele já criou uma aura de expectativa. Só resta, para os detratores, assistirem para estarem munidos de argumentos ou não assistirem e ficarem no discurso ad hominem.

<em>Hubie: bobo e inocente (Imagem: Reprodução/Netflix)</em>
Hubie: bobo e inocente (Imagem: Reprodução/Netflix)

Já para os fãs, O Halloween do Hubie talvez não seja mais do que um filme bobo mesmo, um passatempo. E tudo bem. É verdade que é possível extrair muito de quase qualquer filme, mas talvez seja melhor não pensar... ou pensar com inocência sobre o trabalho de Sandler. Pode ser que funcione melhor assim.

O Halloween do Hubie está disponível no catálogo da Netflix.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech.

Fonte: Canaltech

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