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Crítica | O Gambito da Rainha e o preço da genialidade

Beatriz Vaccari
·8 minuto de leitura

Quando se ouve falar de uma série sobre xadrez, é compreensível que o público não se mostre muito interessado. O xadrez não é um esporte que atrai a maioria das pessoas justamente por seu estilo de jogo silencioso, estrategista e individual. Torneios desse esporte não são os locais mais divertidos do mundo, muito pelo contrário, qualquer tipo de barulho pode prejudicar a concentração dos jogadores, o que faz do silêncio o grande som ambiente de toda a partida, praticamente o contrário de um estádio de futebol ou ginásio de basquete.

Para retratar a vida da enxadrista Beth Harmon, uma garota fictícia criado pelo autor norte-americano Walter Tevis no romance O Gambito da Rainha, a Netflix teve a genial sacada de atrair o público pela escolha do elenco da minissérie homônima, já que o enredo não cumpriria o trabalho num primeiro momento. Ao colocar Anya Taylor-Joy no papel principal, a empresa garantiu que os fãs da atriz ao menos ficassem curiosos pela produção, mesmo que não entendessem nada de xadrez.

Atenção! A partir daqui o texto contém spoilers da minissérie O Gambito da Rainha, leia por sua conta e risco.

Minissérie de sete episódios é estrelada por Anya Taylor-Joy (Imagem: Divulgação / Netflix)
Minissérie de sete episódios é estrelada por Anya Taylor-Joy (Imagem: Divulgação / Netflix)

O Gambito da Rainha mostra, sem dúvida alguma, uma das melhores atuações da carreira de Anya Taylor-Joy. Ela já deu vida a Casey Cooke nos dois últimos filmes da trilogia Corpo Fechado e estrelou o terror A Bruxa, mas não é precipitado afirmar que sua Beth Harmon é a sua melhor personagem até agora. A atriz chegou a dar entrevistas após gravar a minissérie que se conectou de uma maneira tão forte ao papel que ao gravar a última cena, ela apenas se sentou no chão e começou a chorar.

Mas não é apenas a atuação de Taylor-Joy que a minissérie cativa o espectador, afinal, O Gambito da Rainha acompanha a vida de Beth Harmon desde a conturbada infância até o estrelato e carreira internacional de enxadrista. A série conta com a atriz mirim Isla Johnston no papel principal que estrela os 60 minutos inteiros do episódio piloto, deixando o segundo episódio em diante para Taylor-Joy. De uma atuação impecável, Johnston incorpora a teimosa e de poucas palavras Beth Harmon. Sua aparição é essencial para introduzir o espectador na história que vem a seguir, além de contextualizar diversos problemas que a protagonista terá que lidar com as consequências mais tarde, como o vício em calmantes disponibilizados pelo orfanato, questões com sexualidade e, é claro, o início de uma paixão que se tornará um enorme talento: o xadrez.

Em seu terceiro trabalho da carreira, Isla Johnston dá vida à Beth Harmon mais jovem (Imagem: Divulgação / Netflix)
Em seu terceiro trabalho da carreira, Isla Johnston dá vida à Beth Harmon mais jovem (Imagem: Divulgação / Netflix)

O grande responsável por apresentar o jogo para a órfã é justamente o zelador do local Shaibel (Bill Camp), um senhor inteligente, pouco sociável e rabugento no primeiro momento, mas que acaba tornando-se uma das pessoas mais especiais da vida de Beth Harmon, que faz questão de mencioná-lo e agradecê-lo em todos os seus momentos de sucesso como enxadrista profissional nos episódios subsequentes. Shaibel ensina as principais regras e jogadas para Beth aprender literalmente "na marra", o que constrói a sua principal característica como competidora: o foco em vencer, o rápido raciocínio, humildade de reconhecer a derrota e acima de tudo a jogada que se tornará praticamente a marca registrada de Beth Harmon como enxadrista profissional, O Gambito da Rainha, que não é a toa que dá nome à série.

É importante também destacar a atuação de Moses Ingram como a colega de dormitório de Beth, Jolene. A personagem não faz tantas aparições quanto os espectadores gostariam de ver, mas sua presença na vida da enxadrista é de extrema importância, principalmente nos momentos finais. Jolene acaba ficando para trás quando a protagonista é adotada aos treze anos por um tradicional casal de Lexington, no Kentucky cujos cidadãos assistem a tensão política com a Guerra Fria crescer a todo vapor na década de 1960. Esse momento de transição na vida de Beth funciona também como uma metáfora, para que a garota possa, finalmente, escolher a pessoa que deseja se tornar no mundo real, e seguindo a paixão de criança, um de seus primeiros passos fora do orfanato é justamente se inscrever num torneio de xadrez local.

Como uma novela, Beth passa pelos primeiros momentos no colégio público e se familiariza com a ideia de ter pais adotivos, um quarto pra si só e uma rotina para chamar de sua. A jovem, que agora está entrando na adolescência, também passa a conhecer aos poucos seu próprio corpo e viver sua primeira menstruação, mas é nesse momento que O Gambito da Rainha comete talvez sua primeira falha, que pode passar despercebido para alguns espectadores, por justamente repetir algo que já cansamos de assistir.

A receita pronta d'A Garota Diferente: o estereótipo que já cansamos de assistir (Imagem: Divulgação / Netflix)
A receita pronta d'A Garota Diferente: o estereótipo que já cansamos de assistir (Imagem: Divulgação / Netflix)

Ao entrar no colégio, Beth é A Garota Diferente, o que dá o pontapé inicial para uma série de estereotipagens e desfechos repetitivos de praticamente toda série ou filme que traz uma personagem feminina e inteligente no papel principal. Ela é julgada pelas outras garotas da escola, não se veste bem e não liga para a aparência (pelo menos no primeiro momento) e nas cenas em que possuiu o menor dos diálogos com as outras personagens femininas da história, houve um contraste de interesses. Porque, é claro, aparentemente trazer uma garota talentosa (seja nos esportes ou intelectualmente capaz) que também se interesse por garotos, moda e maquiagem é praticamente impossível em alguma produção da cultura pop. Essa estereotipagem que passa despercebida pela sua discrição acaba reforçando a ideia ultrapassada de que mulheres inteligentes, habilidosas ou talentosas de qualquer forma não possam se interessar por coisas femininas, o que é puro atraso trazer essa imagem em um ano como 2020.

Felizmente, Beth acaba trabalhando sua aparência, interesse por roupas sofisticadas e desenvolvendo sua vida afetiva mais tarde, quase no mesmo ritmo que sua genialidade como enxadrista cresce. É uma pena que essa rivalidade feminina tão sutil ainda esteja presente nos breves encontros e referências que a série faz com as outras garotas do colégio que a protagonista frequentou, mas que ainda assim não torna a minissérie dispensável.

A vulnerabilidade e os vícios funcionando como um fácil escape dos problemas (Imagem: Divulgação / Netflix)
A vulnerabilidade e os vícios funcionando como um fácil escape dos problemas (Imagem: Divulgação / Netflix)

A garota vence todas as partidas que são colocadas à sua frente e não demora muito para seu nome ficar conhecido por todo o país, amedrontando seus futuros adversários e atiçando a curiosidade dos mais famosos profissionais de xadrez norte-americanos. Nesse meio-tempo, o espectador acompanha o crescimento da protagonista no esporte título após título nos mais diversos torneios acompanhados de sua mãe adotiva, uma dona de casa que é abandonada pelo marido logo após adotar Beth. Alma Wheatley (Marielle Heller) dá seu total apoio à filha adotiva e é a primeira pessoa do "mundo real" que reconhece o talento de Beth no xadrez, mas acaba revivendo o vício da protagonista por pílulas, além de dar margem para que a mesma desenvolva alcoolismo justamente por sofrer do mesmo.

Beth Harmon acaba entregando tudo de si em cada partida, jogando como se fosse a última de sua vida, e é por isso que as derrotas são tão sentidas pela enxadrista, que acaba descontando toda a frustração em calmantes e garrafas de whiskey. Não demora muito para o espectador ver a protagonista em sua mais vulnerável e miserável forma, disposta até a desistir da brilhante carreira que construiu no xadrez.

Famosa por destinar boa parte do orçamento para direção de arte, Netflix acerta mais uma vez (Imagem: Divulgação / Netflix)
Famosa por destinar boa parte do orçamento para direção de arte, Netflix acerta mais uma vez (Imagem: Divulgação / Netflix)

São nesses momentos que a Netflix leva pontos tanto pelo roteiro bem estruturado quanto pela impecável montagem de algumas cenas, que acaba atrelando suas brilhantes jogadas em cada partida de xadrez com os passos de Beth em sua vida pessoal. A empresa já é conhecida por destinar boa parte do orçamento na direção de arte de suas produções originais, então o público pode esperar um espetáculo visual tanto nos cenários quanto os diversos figurinos utilizados pelos personagens.

Além de Anya Taylor-Joy, vale destacar a atuação de Thomas Sangster como o enxadrista profissional Benny Watts que acaba tornando-se uma peça essencial para a evolução estratégica de Beth em seus jogos. Marcin Dorocinski também traz uma impecável atuação como o que virá a ser o maior medo, rival e obstáculo entre Harmon e o título de campeã mundial de xadrez, o soviético Vasily Borgov.

Coadjuvante, mas destacável: Thomas Sangster é uma boa surpresa (Imagem: Divulgação / Netflix)
Coadjuvante, mas destacável: Thomas Sangster é uma boa surpresa (Imagem: Divulgação / Netflix)

Parte pelo trabalho de Taylor-Joy, parte pelo resto do elenco e parte pela excelente direção de arte da Netflix, O Gambito da Rainha é uma minissérie cuja maratona vale cada segundo. Com sete episódios longos e intrigantes, a produção tão bem trabalhada acaba funcionando de uma forma que o espectador até esquece que se trata de uma ficção. Embora haja erros, não há nada que faça a minissérie não merecer os elogios e a boa recepção da crítica especializada, totalizando o surpreendente 100% de aprovação no Rotten Tomatoes.

O Gambito da Rainha está disponível na Netflix.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech.

Fonte: Canaltech

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