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Crítica | O feminismo cuidadoso e contundente de Bela Vingança

Laísa Trojaike
·5 minuto de leitura

Não existe uma fórmula perfeita para assistir filmes (ou ter contato com obras de arte). Cada obra causa um impacto diferente e demanda coisas diferentes de cada espectador e, no caso de Bela Vingança, não podemos fugir muito do maniqueísmo dos gêneros. Nesse ponto, o filme depende da identificação gerada com o público feminino e/ou queer, e da empatia dos demais grupos. Em Bela Vingança, nem todos os homens são vilões, o que já demonstra uma recusa da cineasta Emerald Fennell em fazer generalizações.

Por outro lado, histórias se repetem. Há muito falamos e, conforme ganhamos espaço e voz, temos a oportunidade de contar e recontar essas histórias na esperança de que mudanças mais significativas ocorram. Para além de documentários como Rede de Abuso, que expõem a realidade do machismo estrutural, a ficção tem trazido muitas mulheres pistolas.

Imagem: Reprodução/Focus Features
Imagem: Reprodução/Focus Features

A Vingança de Jennifer (que ganhou o remake Doce Vingança), Garota Sombria Caminha pela Noite, Elle e Bela Vingança são apenas algumas das muitas histórias de mulheres que estão sem paciência, porque já sofreram demais nas mãos dos caras. E para quem acha que isso é um "mimimi" contemporâneo, vale a pena conhecer vidas como a da pintora Artemisia Gentileschi, que viveu entre 1593 e 1653, período em que pôde deixar para a história suas próprias ficções de vingança.

Atenção! A partir daqui, a crítica pode conter spoilers.

GRL PWR

Nem sempre o tema ou a história são os elementos mais fortes de um filme, ainda que cinema seja uma forma de contar histórias. Às vezes, o conteúdo está ali apenas para o desenvolvimento da técnica, mas este não é o caso de Bela Vingança. Apesar de produzido pela Focus Features, o longa-metragem é um indie pop com aquela paleta pastel que deixa quase tudo muito gostosinho de se ver, como uma vitrine repleta de macarons de todas as cores.

Imagem: Reprodução/Focus Features
Imagem: Reprodução/Focus Features

A leveza da fotografia e da direção de arte, no entanto, contrastam diretamente (e propositalmente) com o conteúdo, que é nada leve. A cultura do estupro, presente de forma quase sistemática em alguns ambientes como escolas e universidades, continua existindo mesmo quando os “garotos” se tornam homens adultos e supostamente mais conscientes das suas ações. Bela Vingança expõe o que muitas mulheres já sabem por experiência própria: não é uma questão de maturidade, mas sim de empatia, conhecimento e ética (ou moral, como preferir).

O filme desmistifica a ideia de que a mulher bêbada “pediu” pelo que aconteceu com ela, algo que vemos comumente quando há culpabilização da vítima. O que Cassandra (Carey Mulligan) faz, na primeira parte, é justamente demonstrar isso: ela nos mostra que quando demonstrava estar sóbria, os homens desistiam de ter relações com ela. É importante notar que a relevância disso encontra inúmeros respaldos na vida real. Eu mesma tenho minhas próprias histórias.

Imagem: Reprodução/Focus Features
Imagem: Reprodução/Focus Features

Fennell, no entanto, é extremamente cuidadosa ao criar essas sequências. Cassandra sempre dá claros sinais (ainda que falsos) de que não está consciente e é justamente isso que ativa o “modo predador” em suas vítimas, colocando esses personagens como reais vilões e demonstrando que o ódio não é pelo gênero masculino, mas pelas atitudes que continuam sendo normalizadas, inclusive por mulheres, como a reitora da universidade.

Depois, quando Al (Chris Lowell) entra na história, o que Cassandra faz é criar situações para que algumas pessoas sintam na pele o que ela ou Nina sentiram, ou seja, sofrer o estupro ou viver com a ideia de que uma pessoa amada passou por essa situação. O filme ainda expõe como as mulheres costumam carregar os traumas para o resto das suas vidas, enquanto os homens têm uma facilidade muito maior de se livrar dessas situações, inclusive juridicamente.

Imagem: Reprodução/Focus Features
Imagem: Reprodução/Focus Features

Bela Vingança é muito cuidadoso como um filme feminista que não recai no femismo, ou seja, um filme que evoca a discussão por sua urgência, mas sem intenção alguma de vilanizar todos os homens (vale repetir). A inserção do romance, inclusive, demonstra como Cassandra estava disposta a viver uma nova vida e superar suas dores e traumas. Ryan (Bo Burnham), embora muitas vezes pareça uma vítima, um cara legal que não fez nada demais, é, na verdade, um dos personagens mais complexos e nocivos da trama.

Ryan é a representação do machismo mais difícil de ser detectada. Com ares de príncipe encantado de filmes românticos, ele pode até mesmo alimentar a esperança de que um relacionamento saudável seria capaz de “salvar” Cassandra. A recusa da protagonista diante do pedido de perdão, no entanto, expõe outro detalhe: acabar com a cultura do estupro também é uma responsabilidade masculina. Ser conivente com um estupro não é menos pior do que ser o próprio estuprador.

Imagem: Reprodução/Focus Features
Imagem: Reprodução/Focus Features

Coringa

De 2020, Bela Vingança chamou ainda mais a atenção dos espectadores quando o foi indicado ao Oscar 2021 (Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Atriz, Melhor Roteiro Original e Melhor Edição). A popularização levantou rumores e debates sobre a semelhança do filme com Coringa. Particularmente, acredito que os filmes são sobre coisas completamente diferentes, mas uma das interpretações de Coringa levanta reflexões interessantes em Bela Vingança: a interpretação que vê Coringa como um incel.

Em Bela Vingança, sequências como as que mostram Cassandra com a cabeça para fora do carro em movimento ou borrando o batom vermelho diante do espelho evocaram as imagens similares do Coringa que vimos em suas versões cinematográficas. O que é uma conexão interessante e que revela o background dos espectadores.

Imagem: Reprodução/Focus Features
Imagem: Reprodução/Focus Features

Não defendo a ideia de que Coringa seja um incel (embora esteja aberta a contra-argumentos), mas é inegável que a internet fervilhou com o assunto após o lançamento do filme. Como resposta, o que Bela Vingança faz é remover o caráter de vilã das mulheres e demonstrar o porquê de muitos homens serem rejeitados (e empurrados para o que chamam de "celibato involuntário"): suas próprias atitudes machistas.

A comparação com Coringa, agora que Bela Vingança está concorrendo às populares estatuetas, atingiu outro nível de discussão, que tem a ver com os incels, mas extrapola muito esta questão: a raiva feminina será respeitada da mesma forma como é respeitada a raiva masculina?

Fonte: Canaltech

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