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Crítica | A Mulher na Janela é um belíssimo Frankenstein de filmes de suspense

·7 minuto de leitura

Preciso ser sincera e dizer que não tenho condições de entregar uma análise definida (ainda que pessoal) da qualidade de A Mulher na Janela. Isso acontece porque o filme nos empurra para os polêmicos limites entre plágio, referência e reciclagem natural da arte. Afinal, nada se cria, tudo se transforma.

A Mulher na Janela é um Frankenstein de filmes de suspense, sobretudo dos filmes de Alfred Hitchcock, o que até era bem óbvio na divulgação. O histórico polêmico do autor pode até nos fazer pensar em plágio, mas no que a obra da Netflix se difere dos filmes de Quentin Tarantino, por exemplo?

A Mulher na Janela tem um elenco impressionante, um roteiro repleto de reviravoltas (plot twists) empolgantes e uma direção maravilhosa que, aliada à fotografia e à direção de arte, entrega imagens belíssimas. É daqueles filmes que você não consegue dizer que não vale a pena ver, porque você sabe que, se a pessoa gosta de suspense, ela irá se divertir assistindo ao filme. Ele empolga. Lidemos com isso.

Imagem: Reprodução/Netflix
Imagem: Reprodução/Netflix

É bastante incômodo sentir que o filme tenta impressionar com o que já vimos em Janela Indiscreta e Um Corpo Que Cai, mas não posso falar por todos nesse sentido. Eu vi alguns filmes de Hitchcock, mas outras pessoas viram todos e muitos outros suspenses que não foram identificados por mim. Por outro lado, outras pessoas nunca viram um filme de Hitchcock ou sequer ouviram falar desse diretor. A culpa é do espectador que não correu atrás de saber toda a história do cinema? Ou nós que estamos implicando demais?

A Mulher na Janela parece demais com obras que não são tão antigas ao ponto de pouquíssimas pessoas identificarem “a original”. Parece plágio, porque aparenta ir além da referência; mas não parece plágio, porque cria algo completamente novo a partir desse patchwork de suspenses. Amar ou cancelar? Ou podemos buscar um meio-termo?

Imagem: Reprodução/Netflix
Imagem: Reprodução/Netflix

Atenção! A partir daqui a crítica pode conter spoilers.

Linha tênue

No documentário Saída pela Loja de Presentes (2010), Banksy apresenta Mr. Brainwash, uma espécie de Andy Warhol bizarro da arte de rua. No filme, Banksy mostra como a ideia de reciclagem de artes alheias pode perder o controle nas mãos de alguém que está mais preocupado em vender arte do que em fazê-la.

Mr. Brainwash, Tarantino e A Mulher na Janela têm muito em comum. Mr. Brainwash fazia séries inteiras de obras com base em artes alheias. Tarantino faz seus filmes a partir de obras alheias. A Mulher na Janela é uma amálgama de grandes ideias de obras alheias. Por que isso soa tão incômodo? Realmente é algo antiético ou chegou a hora de admitirmos que é isto mesmo? Será que vivemos a Babilônia das referências e reciclagens da arte e só estamos nos negando a ver?

Imagem: Reprodução/Netflix
Imagem: Reprodução/Netflix

Iniciei este texto com um tremendo desgosto por A Mulher na Janela: os clássicos cults pareciam maculados nessa trama interessante que deságua no maior clichê freudiano dos filmes de serial killers. O processo de análise dessas ideias sobre referências, no entanto, mostra o quanto esse pensamento é hipócrita, sobretudo para alguém como eu, que (até então) gosta muito da filmografia de Quentin Tarantino e o defende como uma forma de pastiche.

O desgosto por A Mulher na Janela, no fundo, não tem a ver exatamente com a mineração que o autor fez de outros filmes, mas sim com o final, que não mantém o nível de impacto dos plot twists. Quando Ethan Russell (Fred Hechinger) se revela como vilão ao estilo Os Suspeitos (1995), temos a última grande revelação do filme e, daí em diante, o discurso do personagem vai ladeira abaixo.

É como se A Mulher na Janela fosse um enorme pastiche do que há de melhor e mais popular no cinema de suspense hichcockiano (incluindo aqueles que foram influenciados pelo “mestre”), guardando para o final o que há de mais desatualizado em todos esses filmes: o psicologismo freudiano. A direção de arte chega a fornecer a prova dessa referência, colocando em destaque no canto mais estratégico da estante de livros, um exemplar que grita o sobrenome do pai da psicanálise.

Imagem: Reprodução/Netflix
Imagem: Reprodução/Netflix

Quando Ethan começa a falar sobre seu padrão de serial killer e quando entendemos como maternidade e sexualidade são entrelaçadas em um Complexo de Édipo clichê, A Mulher na Janela revela o embuste que é. Usando obras alheias como muleta, o filme é incrível, mas decepciona por não dar um passo além. Não li o livro, portanto não tenho condições de falar sobre a adaptação feita pelo roteirista Tracy Letts (Lady Bird: A Hora de Voar), mas é interessante como o melhor deste filme surge justamente do que não é literário.

Contadores de histórias

Joe Wright, de Orgulho & Preconceito e O Destino de uma Nação, faz um trabalho de direção maravilhoso ao lado do cinefotógrafo Bruno Delbonnel (O Fabuloso Destino de Amélie Poulain) e do diretor de arte Kevin Thompson (Birdman). Os ângulos, as cores, os movimentos de câmera e o cenário formam imagens que, além de bonitas, são impactantes, tornando o ato de assistir ao filme um experiência que vale a pena em si mesma.

Somado a isso, há a atuação da maravilhosa Amy Adams, capaz de dosar muito bem as intensidades de vulnerabilidade e força da sua personagem. Gary Oldman, Julianne Moore, Jennifer Jason Leigh, Wyatt Russell, Brian Tyree Henry, Jeanine Serralles e Anthony Mackie fazem aparições pontuais, mas poderosíssimas, justificando com folga suas presenças no elenco.

Imagem: Reprodução/Netflix
Imagem: Reprodução/Netflix

A Mulher na Janela usa recursos alheios, mas é uma história muito bem contada, do tipo que nos faz ficar sem piscar até o final — caso não estejamos ocupados demais desdenhando do filme porque ele se apropria de obras supostamente intocáveis. O filme funciona e é um entretenimento muito mais certeiro que outros suspenses que vimos surgir nos últimos meses. Não vou ousar dizer que A Mulher na Janela não vale a pena porque vampiriza outros diretores, em especial Hitchcock, cuja fama me deixa ainda menos propensa a defendê-lo.

Talvez seja melhor usar A Mulher na Janela como uma obra sumária para novos apreciadores do suspense, do que discutir sobre os limites embaçados da arte (o que não esgotaríamos aqui). O filme da Netflix traz, nas próprias imagens, diversos outros que podem garantir a diversão dos fãs de suspense, indicando que existem referências e deixando a adaptação mais sincera. A Netflix também ajudou bastante nesse sentido e teve a bondade de listar todos os filmes referenciados por A Mulher na Janela, porque é melhor assistir a um filme novo, do que ficar reclamando do caráter duvidoso de uma obra que, bem ou mal, está divulgando um bocado de títulos que raramente são lembrados:

Trocando lentes

Deixei transparecer minha mudança de pensamento, porque acredito que funciona como um bom exemplo de algo que repito sempre: não existem filmes bons ou ruins em si, mas filmes que achamos bons ou ruins. Há uma tremenda diferença entre essas duas perspectivas e é bastante comum esquecermos disso. O que pensamos, o que vivemos, nossas memórias ou mesmo onde e como vemos um filme, enfim, tudo nos afeta como espectadores. Tudo isso se soma e funciona como uma lente, distorcendo as imagens.

Ao assistir A Mulher na Janela, fui conquistada pela estética e fiquei curiosa para saber aonde todas aquelas “cópias” estavam indo. Após a sessão, veio o desgosto por um final tão canastrão. O processo de reflexão da escrita, no entanto, me fez entender que talvez A Mulher na Janela seja uma grande declaração de amor pelo gênero, como fazem também muitos cultuados títulos do terror. Diversas trocas de lente depois, ainda podemos alimentar sentimentos conflitantes sobre A Mulher na Janela, o que significa que este é um filme que custa a esgotar as discussões que levanta. Será que isso basta?

A Mulher na Janela está disponível no catálogo da Netflix.

Fonte: Canaltech

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