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Crítica | Milagre na Cela 7 usa drama inocente como fachada panfletária

Laísa Trojaike

O drama Milagre na Cela 7 (disponível na Netflix) não poupa o espectador do drama e são diversos os momentos que podem arrancar lágrimas até daqueles que geralmente são mais resistentes. A direção de Mehmet Ada Öztekin é precisa ao explorar esses pontos, mas é difícil entender porque um diretor turco teve interesse em reproduzir, na sua cultura, a história (muito menos “felizes para sempre”) do original homônimo sul-coreano.

Com atuações que muitas vezes beiram o cômico, Milagre na Cela 7 consegue conquistar corações pela relação familiar sincera e pela inocência de Memo (Aras Bulut Iynemli) e Ova (Nisa Sofiya Aksongur), mas, ao mesmo tempo, parece mascarar a realidade do seu próprio país, o que é algo amplamente praticado por produções cinematográficas de todo o mundo, mas que se torna muito mais perigoso quando o filme inicia com um telejornal que noticia o fim da pena de morte, decisão estratégica com vistas à entrada do país na União Europeia, mas que não reflete a opinião de diversas autoridades turcas. Existe, aqui, a possibilidade de Milagre na Cela 7 seja uma obra panfletária.

Atenção! A partir daqui, a crítica pode conter spoilers.

Lado A

A atuação de Nisa Sofiya Aksongur como Ova é essencial para o sucesso dramático do filme. Presente em quase todos os momentos da trama, a atriz-mirim sustenta a carga dramática prodigiosamente, indo de situações de alegria às de desespero com naturalidade. A melhor atuação, no entanto, é a menos comentada: Celile Toyon Uysal, como vovó Fatma, mesmo sem ter sua personagem desenvolvida, transmite apenas com o olhar uma longa trajetória de luta para manter sua família, claramente engolindo o choro em momentos mais intensos.

Imagem: Netflix

Além do protesto contra a pena de morte, Milagre na Cela 7 parece evocar também uma reflexão sobre a paternidade. Além do colega de cela de Memo, que tem no passado uma história de violência contra a própria filha e se voluntaria em uma decisão suicida para que Memo possa continuar com sua filha, o roteiro traz também o comentário da Professora Mine (Deniz Baysal), que fala sobre a falta de afeto paterno como uma questão cultural, uma masculinidade tóxica muito maior do que a que estamos acostumados por aqui. Além disso, há também o comentário dos detentos, que reconhecem não serem pais melhores que Memo e, por fim, a mudança de postura de Askorozlu (Ilker Aksum) com relação à sua família.

Lado B

A direção de arte contribui para o teor idílico da trama: a casa de Fatma é colorida, limpa, aconchegante e, apesar da ambientação nos anos 1980, chega a ser turisticamente convidativa. A cela também parece bastante aconchegante, com muitas cores, plantas e espaço suficiente que conflitam enormemente com a brutalidade policial demonstrada na figura de Yarbay Aydin (Yurdaer Okur) e com os registros documentais das prisões turcas, sobretudo se lembrarmos que, na época, a Turquia estava vivendo um dos seus diversos Golpes de Estado.

Imagem: Netflix

Soa estranho, inclusive, que o herói da história seja justamente um feminicida, no filme de um país que registra não somente números altíssimos, mas também histórias públicas de feminicídio.

Milagre na Cela 7 não deixa de ser um bom filme por sua moral questionável. A relação entre Memo e Ova sobrevive, convence, faz chorar e é capaz de gerar reflexões sinceras, como contos de fadas que nos convidam a refletir sobre princesas e maldições, mesmo sem representar a realidade.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech


Fonte: Canaltech