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Crítica Meu Fim. Seu Começo. | Nada é uma simples obra do acaso

·6 minuto de leitura

Há uma cena em Meu Fim. Seu Começo. que Aron (Julius Feldmeier) revela à namorada Nora (Saskia Rosendahl) como gostaria de tocar instrumentos musicais. Ela rebate, dizendo que música talvez seja a única coisa da qual se arrepende de ter feito na vida. "Mas são essas coisas que te trouxeram até aqui", responde o rapaz.

Por mais que pareça que essa fala tenha sido tirada de qualquer discurso de senso comum, é na simplicidade do ordinário que Mariko Minoguchi torna o longa alemão um must watch para os fãs de drama nos cinemas escondidos pelo Brasil. O filme escrito e comandado pela cineasta define sua estreia na cadeira de direção e marcou presença em diversos festivais de cinema ao redor do mundo, incluindo o BFI London Film Festival e o Festival de Cinema de Warsaw.

Com aparência de Lado B entre lançamentos blockbuster como o de 007: Sem Tempo para Morrer, Meu Fim. Seu Começo. teria sangue e lágrimas transbordando pela tela se estivesse nas mãos de outro cineasta. Com material de sobra para tornar a história uma novela das nove, Minoguchi opta por explorar tragédias pessoais de forma invisível, implodindo seus próprios personagens de uma maneira que nenhum outro em cena imagine a catástrofe particular que acontece logo ao lado.

(Imagem: Divulgação / Telepool)
(Imagem: Divulgação / Telepool)

O longa começa enganando o espectador, com Aron palestrando e questionando seus alunos sobre estranhos com a sensação de que se conhecem há muito tempo; seguido por cenas de romance cotidianas, com o professor universitário caminhando lado a lado à namorada sem muitas afetuosidades, apenas jogando conversa fora e discutindo o que poderiam almoçar. O que parece ser uma trama inocente logo é interrompida por um assassinato brutal num banco, com Nora observando seu amado dar o último suspiro.

"Lugar errado e hora errada", diria qualquer pessoa diante da ocasião — e é exatamente isso que Minoguchi deseja quebrar com Meu Fim. Seu Começo.: montando sua história como alguém costura uma colcha de retalhos, a cineasta alemã prova da forma mais inocente como nada é uma simples obra do acaso e como o destino é um mero resultado da aleatoriedade. É muito além do que uma escolha que não afeta ninguém (como a própria Nora comenta em um momento, ao roubar mercadoria de onde trabalha): toda e qualquer ação e decisão é capaz de afetar às pessoas ao nosso redor seja em curto ou a longo prazo.

(Imagem: Divulgação / Telepool)
(Imagem: Divulgação / Telepool)

Minoguchi constrói essas relações pensando no não-julgamento do público e em como esses caminhos são traçados e cruzados em algum momento do cotidiano, por mais banal que pareça. Nora é uma pessoa incapaz de encarar seu luto, então decide apenas flutuar sob as consequências emocionais da trágica morte de seu namorado ao encarar e cultivar uma ferida na ponta do dedo e forçar risadas todas as vezes que sente as lágrimas aparecerem.

Esse processo (muito semelhante à sensação mórbida da embriaguez) é transmitido ao público com o auxílio da montagem de Andreas Menn, em que Nora cumpre sua rotina com o mesmo desânimo que alguém risca uma lista de tarefas, procrastinando o velório do amado ao mesmo tempo em que se lembra dos momentos ao lado de Aron. O interessante aqui, no entanto, é justamente a forma que Minoguchi foge das típicas cenas de romance do cinema industrial, que usualmente contariam com beijos na chuva e cenas de sexo a luz de velas — Meu Fim. Seu Começo. é simplista e cotidiano, e mostra que o amor está presente nos mínimos detalhes (talvez até invisíveis por fora): seja num afago no rosto, uma rápida visita ao emprego de Nora, uma caminhada à noite ou um diálogo hipotético no chão da lavanderia, após uma crise de ansiedade de Aron.

(Imagem: Divulgação / Telepool)
(Imagem: Divulgação / Telepool)

Essa simplicidade no casal se estende ao personagem de Natan (Edin Hasanović), um pai cuja filha tem leucemia e, mesmo que mais uma vez a situação abra margem para cenas repletas de lágrimas e muito drama, é no equilíbrio entre a negligência e o carinho que Minoguchi resolve desenhar seu personagem. O homem se importa com a filha mais do que qualquer outra pessoa no mundo, mas dificilmente consegue mostrar isso nas decisões em que toma, viajando por dois extremos em questão de segundos.

Natan não derrama uma lágrima sequer desde o momento em que fica sabendo da condição médica da pequena Ava ou quando sua vida profissional amarra uma corda em seu pescoço para pagar as despesas hospitalares. Sua preocupação e atenção é mostrada em diálogos particulares e rápidos sussurros — ele não chega a proferir um "eu te amo", mas suas ações mostram que não há nada que ele mais deseje naquele momento do que uma cura para o câncer da filha.

Momentos particulares e praticamente invisíveis (Imagem: Divulgação / Telepool)
Momentos particulares e praticamente invisíveis (Imagem: Divulgação / Telepool)

Meu Fim. Seu Começo. é acima de tudo sobre como os mais simples momentos e ocasiões são os que mais nos tornam humanos. É sobre tomar responsabilidade dos atos — e como às vezes culpar o acaso é se sabotar como dar um tiro nos próprios pés. O roteiro de Minoguchi dá margem para essas situações de maneira fluida, enquanto sua direção torna esses momentos tão íntimos que é inevitável para o público não se encolher na cadeira com a sensação de estar se intrometendo em algo que não é seu. É um tempo considerável, mas que dificilmente torna-se maçante para aquele que o assiste.

O longa da cineasta acontece e ressoa de forma muito particular tanto em seus personagens quanto em seus espectadores. A jornada emocional de Nora pode ser familiar para qualquer um (mesmo quem nunca tenha presenciado a morte da pessoa amada): a personagem vive um luto de um relacionamento que lhe foi tirado e escorreu por entre seus dedos e, de repente, precisa tocar sua vida na mesma rapidez com que alguém tira um band-aid.

O destino é um mero resultado da aleatoriedade (Imagem: Divulgação / Telepool)
O destino é um mero resultado da aleatoriedade (Imagem: Divulgação / Telepool)

Esse simbolismo está retratado em diversos elementos do filme: seja o armário de louças empilhadas que cairão e se quebrarão quando a porta abrir ou o ato de correr mais rápido para pegar o metrô mais rápido. Minoguchi brinca com os paradigmas do acaso de forma quase debochada em Meu Fim. Seu Começo., ao mesmo tempo que reflete sobre o efêmero e o contínuo. "Nada é eterno", afirma Nora em um dos flashbacks com Aron, enquanto ele replica: "Tudo é eterno", referindo-se às marcas que os humanos deixam nos outros.

O longa encara a vida como um vai e vem. Quando Aron "vai para o céu", como brinca um personagem, "quando chover, estará chovendo Aron", e são nesses momentos que Minoguchi retrata os impactos emocionais humanos um nos outros de forma praticamente poética. Ao aceitar seu luto e vivê-lo como um processo da vida, a cineasta arremessa o espectador para o primeiro encontro do casal, unido (não ironicamente) pelo "acaso" da chuva e um simples atraso do metrô. Entre começos e recomeços, o filme de Mariko Minoguchi é pouco racional e transborda emoção, nos aproximando de todos os extremos que fazem de nós seres humanos.

Meu Fim. Seu Começo. uma analogia aos nomes de Aron e Nora começarem por seus finais (Imagem: Divulgação / Telepool)
Meu Fim. Seu Começo. uma analogia aos nomes de Aron e Nora começarem por seus finais (Imagem: Divulgação / Telepool)

Meu Fim. Seu Começo. está em cartaz nos cinemas de todo o Brasil; garanta seu ingresso na Ingresso.com.

Fonte: Canaltech

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