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Crítica | Maus Momentos no Hotel Royale é farsa que expõe a fragilidade humana

Sihan Felix

A farsa é um gênero teatral ligado a um modo caricatural de ver o mundo. Situações simples, passagens que beiram o ridículo e que, justamente por isso, tendem a causar o riso. Ao mesmo tempo, essa forma cômica de se fazer teatro é muito mais de ação do que de diálogos; com as roupas, os cenários, o gestual e as atitudes físicas prevalecendo sobre as falas. Com seus personagens sem tanta profundidade psicológica ou complexidades, tudo em uma farsa é muito mais direto do que em uma comédia.

Cuidado! Daqui em diante a crítica pode conter spoilers!

Um conto político

A abertura de Maus Momentos no Hotel Royale (disponível no serviço de streaming do Telecine) já diz muito: Ao não apresentar um personagem e sim o próprio hotel – que parece ter vida dado o grau de voyeurismo empregado pela direção de Drew Goddard (de O Segredo da Cabana, 2011) –, ela parece dizer que há algo mais importante por ali. Um homem inquieto é exposto para observação em plano de conjunto, com Goddard colocando o público em um contato quase que local. Sem cessar a contemplação do homem cada vez mais agitado, cortes aceleram o ritmo até uma interrupção brusca de tudo.

"Sem cessar a contemplação do homem cada vez mais agitado..." (Imagem: Fox Film do Brasil)

A edição de Lisa Lassek (de Vingadores: Era de Ultron) é fundamental para atestar, já nesse ponto, que o filme é para ser assistido com uma concentração a mais. Por outro lado, os cortes cada vez mais acelerados parecem esconder detalhes entre eles – como se os intervalos temporais das elipses não fossem exatamente descartáveis. É um prenúncio do que viria na sequência. E o público assiste como se fosse Jeff (James Stewart) em Janela Indiscreta (De Alfred Hitchcock, 1954) àquele homem sendo morto.

Há, nesse sentido, uma igualdade entre os personagens que pode ser incômoda inclusive. O roteiro (do próprio Goddard) não está interessado em aprofundar-se de maneira reflexiva. A questão principal é contar uma história e, para isso, usar os personagens. Assim, tudo parece sob um controle indiscutível. Cada passo dado por alguém é um acréscimo no desenvolvimento geral e pouco diz sobre o mundo particular.

Se isso pode aparentar alguma frieza, é exatamente seguindo por esse caminho que Goddard – que já subverteu o terror com o dito O Segredo da Cabana – utiliza sua linguagem para transformar Maus Momentos no Hotel Royale em um conto político por meio do todo e não de situações específicas. Isso pode ficar claro quando, em certo momento, o plano aproveita bem um discurso do então presidente Richard Nixon e, mais tarde, apresenta Miles Miller (Lewis Pullman) como alguém traumatizado pela Guerra do Vietnã. Enquanto ambos os pontos não interferem na história, ao mesmo tempo cedem um peso fundamental para que o filme ganhe alguma sensibilidade – tanto em relevância quanto emotiva.

Neo noir

A verdade é que a estética e as linhas narrativas superpostas – e simples – coordenam um trabalho que, além de abraçar o suspense hitchcockiano, brinca (no melhor sentido) com o cinema noir da forma mais direta possível. Todos os arquétipos estão ali: a femme fatale (Emily – Dakota Johnson), o homem com problemas em seu passado (dois: Miles e a personagem de dupla identidade interpretada por Jeff Bridges), o detetive ou policial (ou pseudo ambos – vivido por Jon Hamm), a personagem indefesa (mas nem tanto) que cai nas graças do antagonista (Rose – Cailee Spaeny), um vilão alucinado (Billy Lee – Chris Hemsworth)...

E isso tudo existe para Goddard subverter. O roteirista e diretor parece um menino traquina que só fica satisfeito quando consegue provar que consegue fazer algo que diziam impossível. O pior – ou melhor – é que ele consegue. E esse neo noir de Maus Momentos no Hotel Royale ainda consegue espaço para trabalhar uma espécie simplificada de Efeito Rashomon: enquanto no clássico de 1950 (de Akira Kurosawa) as verdades são expostas por cada personagem sem que uma absoluta seja declarada, aqui a questão é como a verdade é vista e qual atitude ela (a verdade) é capaz de causar.

O roteiro segue situações de causa e efeito, passeando entre seus oito (sete após a abertura) objetos sem que as mudanças interfiram na percepção do sentido. É interessante constatar, por esse ângulo, a diferença de proposta entre o filme em questão e Os Oito Odiados (de Quentin Tarantino, 2015). Ao passo que na produção dirigida por Tarantino os embates tensitivos se dão por meio dos diálogos, aqui é tudo muito mais ligado ao silêncio visual. É como se, realmente, não houvesse muito a dizer e tudo fosse sendo revelado e, em seguida, despido. As decisões de Darlene (Cynthia Erivo) são transparentes quanto a isso: nada do que ela faz é explicado verbalmente. Por mais que sua voz diga muito sobre si (ainda mais sendo cantora e tendo seu canto como o que de sonoramente há de mais original no filme), são sua atitudes que marcam quem ela é. 

 "São as atitudes de Darlene que marcam quem ela é." (Imagem: Fox Film do Brasil)

A fotografia de Seamus McGarvey (de Obsessão, 2018) é fundamental na construção das metáforas visuais propostas por Goddard. A escuridão atrás do espelho, por exemplo, que mais parece um local ameaçador quando acidentalmente descoberto por Emily, tem ares de mistério quando, pouco antes, Laramie Seymour Sullivan (Hamm) assiste quarto a quarto sem entender exatamente o significado daquilo. Inclusive, esta cena é quase metalinguística, com Laramie sendo observador dos quartos e o público, guiado por um plano-sequência milimétrico, embarcando nessa indiscrição.

"A Roupa Nova do Rei"

No final das contas, Maus Momentos no Hotel Royale é uma farsa política de suspense hitchcockiano neo noir, com Billy Lee fazendo o papel de líder de seita que, antes de ser uma crítica óbvia a falsos profetas, é uma alegoria do quanto a humanidade é frágil e sedenta por atenção. Sem pretensão de generalizar, nós somos carentes e, quanto mais confiança temos, a possibilidade de estarmos nus é maior.

"O rei está nu!" (Imagem: Fox Film do Brasil)

Não que estar nu seja algo ruim. A questão é que acreditar que estamos vestidos com uma roupa que somente os inteligentes podem ver (e sentir) é um perigo. “O rei está nu!”, pode gritar alguém. E é aí que podemos perceber o quanto nos enganamos e nos deixamos levar por uma vaidade sem sentido. Longe de fazermos parte de uma farsa – divertida como somente ela ao nos fazer rir de nós mesmos –, acabamos nos tornando, como Billy Lee, farsantes.

Maus Momentos no Hotel Royale pode ser assistido pelos assinantes da plataforma de streaming do Telecine.

Fonte: Canaltech

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