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Crítica | História de um Casamento: entre o amor e o tempo

Sihan Felix

Talvez não seja possível falar de amor sem falar de tempo. Esse tempo é único, individual, intransferível. Não existe sincronia perfeita entre duas ou mais pessoas. O que pode existir é uma sensação de parceria, uma movimentação a favor de ajustes, de encaixes. Ao resolvermos compartilhar as nossas vidas, também estamos aceitando que as vidas de outras pessoas sejam compartilhadas conosco. Com o tempo – justamente ele –, acabamos por nos tornar o que não éramos. E, a depender do amor envolvido, nunca mais voltaremos a ser quem um dia fomos.

Cuidado! Daqui em diante a crítica pode conter spoilers!

Há um momento, porém, que pode ser o limite entre quem somos e o que gostaríamos de fazer com quem nos tornamos. Charlie (Adam Driver) e Nicole (Scarlett Johansson), nesse ponto, personificam esse limite, sendo muito mais do que pessoas comuns se divorciando: eles são um tempo específico, o momento em que o amor se transformou em liberdade. Essa liberdade, por sua vez, traz a independência: quando as tentativas de encaixes parecem não mais fazer sentido, fica o sentimento de um tempo que construiu, transformou, guiou e, enfim, era e permanecerá sendo o próprio amor.

Os pequenos atos

O roteiro de Noah Baumbach (de Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe, 2017) não somente entende o tempo como uma ferramenta romântica como o insere em suas elipses de uma forma absolutamente destruidora: do bar – onde Charlie canta sobre estar vivo a partir do que é o amor – até a chegada, tempos depois, na casa de Nicole – onde Sandra (Julie Hagerty) brinca com o atual genro (Carter – Mark O’Brien) – existe o intervalo de um corte, de uma piscada. Funciona como um controle de ações: Charlie entendeu o que sente, entendeu o que é estar vivo e precisa, naquele instante, perceber que a vida seguiu seu curso.

"Onde Charlie canta sobre estar vivo a partir do que é o amor." (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

Mas não é porque a vida continuou em frente que o amor deixou de existir. Nesse sentido, os pequenos atos acabam por ser provas de amor mais verdadeiras do que grandes declarações de afeto. Se, antes, Nicole cortar o cabelo de Charlie era um ato de rotina, no momento em que existe uma ruptura, essa ação passa a ter um valor muito mais revelador: ela (a ação) deixa de ser algo rotineiro e passa a ser uma afirmação de carinho. Do mesmo modo, Baumbach deixa isso muito claro ao finalizar precisamente com um pequeno ato: o amarrar dos cadarços funciona de maneira muito mais bonita e verdadeira do que um “eu te amo” vazio. Ela (Nicole), que parece estar seguindo em frente, livra o caminho dele de qualquer acidente que possa causar a si mesmo – como ele o faz com sua faquinha (algo que nunca aconteceu na presença dela) – para, assim, ele conseguir seguir sem tropeços.

A separação estética

Ainda assim, não é exatamente o que Baumbach diz, mas como ele lida com seu roteiro que faz de História de um Casamento um filme que vai muito além de uma história de amor simples. O peso emocional que o também diretor insere em cada plano, provocando a separação estética de Charlie e Nicole e, ao mesmo tempo, fazendo-os como seres complementares provoca os sentidos de uma maneira quase embaraçosa (no melhor sentido que essa palavra possa ter). Entende-se o roteiro, percebe-se que eles (Charlie e Nicole) são diferentes e, simultaneamente, concebe-se quase que a necessidade de um abraço visual entre os dois.

Por essa perspectiva, a concepção da equipe de arte – liderada pelo desenho de produção de Jade Healy (de O Sacrifício do Cervo Sagrado) – parece pincelar o casal de um jeito a promover um equilíbrio funcional, seja de cor, seja de textura, seja em contraste com o ambiente. Existe uma relação quase química entre a aparência das personagens de Driver e Johansson, como se fossem ímãs de polos opostos se atraindo... mas sempre com algo entre eles: que pode ser um portão, a barra de ferro de um metrô, uma parede que separa um cômodo claro e outro com móveis escuros, uma cortina iluminada pela luz externa...

Um portão... (Imagem: Netflix)
A barra de ferro de um metrô. (Imagem: Netflix)
Uma parede que separa um cômodo claro e outro com móveis escuros. (Imagem: Netflix)

Quem somos nós?

Há uma naturalidade nessas composições que domestica a força estética do filme, o que faz tudo funcionar a favor do que está sendo contado. Não existem exageros de Baumbach para que suas escolhas estejam acima da história. Há uma comunhão entre o diretor e seu roteiro que guia todo o filme. É possível perceber, inclusive, o quanto a música de Randy Newman (de Toy Story – do primeiro ao último) procura sempre o equilíbrio. Se existe dor, Newman dá carinho com sua composição, se há o peso de um amor que nunca deixará de existir, mas que seguirá outros caminhos – como ao final, com o amarrar de cadarços mais significativo da história do cinema –, o compositor orna com uma leveza que procura ceder alguma paz.

História de um Casamento é, enfim, uma espécie de sincronia perfeita para contar sobre a relação mais romântica que pode existir: a simbiose entre amor e tempo. A transformação que um causa ao outro é eterna. O tempo pode parar para o amor e o amor pode mover o tempo. O que existe no espaço entre um e outro é a vida... e esta é aquilo que, se tivermos condições, podemos guiar com mais ou menos dificuldades, mas sempre com a certeza de que não somos mais quem já fomos. E que tudo bem. Se houve amor – se há amor –, quem somos nós para lutar contra a liberdade e a independência que o outro nos deixou? Quem somos nós para lutar contra a eternidade?

Fonte: Canaltech

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