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Crítica | Frozen 2 volta às origens para se tornar mais interessante

Felipe Demartini

Entre flocos de gelo, uma animação belíssima, personagens cativantes e uma canção que está grudada na mente dos espectadores há seis anos, Frozen é uma saga sobre descobertas. É uma história sobre entender seu lugar no mundo, o que faz de cada um especial, como as outras pessoas lidam com isso e, acima de tudo, fazer o bem com aquilo que temos de melhor.

A mensagem e a canção de Idina Menzel ficaram na cabeça das pessoas e da própria Disney, que agora volta à carga com um dos maiores lançamentos deste final do ano. Ao voltar a uma de suas franquias mais bem-sucedidas dos últimos anos, a produtora resolveu aumentar as apostas e a intensidade de praticamente todos os seus elementos, entregando, mais uma vez, uma história capaz de encantar gerações das mais distantes, com gente de todas as idades rindo e chorando com os momentos que se desenham na tela.

Os desenhos, inclusive, são belíssimos como sempre, mas não para por aí. Frozen 2 é uma aventura mais impactante, instigante e interessante que a anterior em praticamente todos os seus aspectos. Os encantos de Let It Go (ou Livre Estou, de acordo com a versão de sua preferência) ficaram para trás e o longa pode até não ter uma canção tão impactante quanto, mas prova que não precisa disso para ficar na mente das pessoas.

Atenção! Daqui em diante este texto pode conter spoilers sobre a trama de Frozen 2.

Livre está?

No primeiro longa, Elsa (Taryn Szpilman no Brasil, Idina Menzel no original) está em uma jornada de autodescobrimento. Após passar anos escondendo seus poderes, o que também causou um isolamento completo de sua irmã, ela descobre que a capacidade de manipular o gelo pode ser uma maldição, mas também a salvação, de acordo com a forma de uso. Ao final, ela aprende lições sobre si e termina em um lugar melhor, mas algo ficou faltando.

História de Frozen 2 se volta ao passado das irmãs Elsa e Anna, e principalmente, à verdade sobre seus pais e a origem dos poderes da Rainha do Gelo (Imagem: Divulgação/Disney)

A Rainha não está livre de verdade, ou para fazer a analogia com a versão em inglês, ainda não deixou as coisas seguirem seu rumo. E como o longa mostra logo de início, tanto pelas cenas quanto pelo próprio visual soturno e com tons escuros da Rainha do Gelo, que nem parece combinar direito com ela, ainda há um longo caminho pela frente para que o frio, efetivamente, deixe de incomodá-la.

O que antes era a busca por respostas sobre si, agora se transforma em uma jornada para encontrar o próprio lugar no mundo. Percebemos, logo de início, que o hino de libertação que permeia toda a trama do primeiro filme (e é pincelado aqui como uma lembrança das boas) era só o começo da jornada. O roteiro de Jennifer Lee, que retorna ao posto de diretora ao lado de Chris Buck, repetindo a parceria de sucesso do antecessor, se apoia nas bases muito bem firmadas na mente de todos para retornar ao passado, em uma história completamente conectada ao primeiro e uma continuação no melhor sentido possível da palavra.

Frozen 2 adiciona novos elementos à mágica e, com isso, faz de cada cena um wallpaper dos mais belos (Imagem: Divulgação/Disney)

Enquanto o primeiro Frozen era sobre o agora, o segundo fala do passado. A tradicional cena das irmãs pequenas que abre a animação pavimenta o caminho para uma verdadeira história de origem, na qual Elsa vai descobrir a verdade sobre a morte de seus pais e a origem de seus poderes, enquanto Anna (Erika Menezes por aqui, Kristen Bell em inglês), procura a própria identidade e, principalmente, fazer com que a irmã aprenda uma importante lição: por mais poderosa que ela seja, não vai conseguir fazer as coisas sozinha.

A coragem é um dos temas principais de Frozen 2, desenhado das mais diferentes formas. É o ímpeto de Elsa em descobrir a verdade, das duas irmãs em desbravarem o desconhecido e o proibido em busca das próprias origens, de Kristoff (Raphael Rossatto, Jonathan Groff) em encontrar as palavras certas para pedir sua amada em casamento, e por aí vai. Todos possuem um ponto de partida e chegada, com a jornada, por mais que esteja ligada à dupla de protagonistas, mudando todos eles.

Esses ares diferentes também permitem vislumbrar todo o talento dos animadores e da equipe de produção. Não é como se tivéssemos alguma dúvida disso, mas desta vez todos têm a chance de lidar com outros elementos além dos cristais de gelo. Temos fogo, vento, água e pedra convergindo o tempo todo em uma floresta que parece mudar a cada cena para refletir não só a gravidade cada vez maior da jornada das personagens centrais, mas também o fato de que há muito mais a ser descoberto aqui do que elas próprias imaginavam.

A jorndada de autodescobrimento de Elsa continua, com o enredo de Frozen 2 mudando não apenas ela, mas também trazendo todos os personagens centrais em suas próprias jornadas (Imagem: Divulgação/Disney)

É, também, um reflexo do conforto maior trazido por uma sequência. Sabendo o que deu certo no primeiro, é possível investir nisso de forma mais direta, mas também ousar. Se as imagens do primeiro já impressionavam, espere só até assistir Frozen 2, um filme que merece ser visto nos cinemas e, se possível e disponível, em uma tela IMAX, capaz de destacar ao máximo os visuais de uma animação das mais belas.

O Canaltech teve acesso ao filme em sua versão dublada em português brasileiro a convite da Disney e, como já é de costume, atesta a incrível qualidade não apenas da interpretação dos atores, mas também da adaptação feita. O destaque, inclusive, continua sendo de Fábio Porchat, não que todos os outros não chamem a atenção, mas sim o oposto disso. É que a interpretação do ator e humorista como Olaf (Josh Gad no original) faz rir e chorar, muitas vezes ao mesmo tempo, e mais uma vez tornará o boneco de neve que adora abraços quentinhos um favorito da garotada. Atenção para o momento em que ele reconta a história do primeiro filme, uma das melhores cenas de toda a projeção.

Um cristal de neve nunca é igual ao anterior e, desta maneira, falta em Frozen 2 uma canção tão impactante quanto Livre Estou. Não que a trilha sonora deixe a desejar, muito pelo contrário, mas a clássica Let It Go era tão impactante e emocionante que se tornou um ícone por si só, funcionando tanto como uma peça do próprio filme como também fora dele, como uma canção das grandes.

A candidata a hit da vez, e também uma provável vencedora do Oscar no ano que vem, é Minha Intuição, ou Into the Unknown no original, interpretada por Panic! At the Disco. É uma canção criada da mesma forma, feita para funcionar tanto como cena do filme quanto fora dele, e é forte o bastante para conseguir isso. Falta, entretanto, o carisma da catarse de Elsa no primeiro filme, apesar de, aqui, ela também aparecer em um momento semelhante.

Mais forte, entretanto, é Vem Mostrar (Show Yourself), cujos momentos representam, sim, o ponto de virada de Frozen 2 e uma das cenas mais belas de toda a projeção. Ela carrega consigo toda a força da trama que acompanhamos até ali, sendo a trilha da grande revelação pela qual Anna e Elsa procuraram ao longo de toda a hora anterior. Sendo assim, é o grande spoiler do filme e, como tal, não poderia servir como a linha de frente da trilha sonora do longa. Parabéns se você conseguir segurar a emoção.

A magia permeia todos os aspectos de Frozen 2, que é maior, mais complexo e mais interessante que o anterior, mesmo não tendo uma música-tema tão marcante (Imagem: Divulgação/Disney)

Em Frozen 2, a potência está em tudo, com seus elementos caminhando lado a lado assim como o quinteto formado por Elsa, Anna, Kristoff, Olaf e Sven. A emoção também permeia todas as coisas, em uma animação que pode não ter uma música-chiclete, mas esse é o único ponto em que pode ser considerada inferior ao anterior. Nos outros, a sequência é melhor e mais interessante, o que, por si só, é um grande feito, pois o original já era incrível.

Mais do que sair cantarolando, os mais velhos sairão pensando, enquanto os mais novos estarão com os olhos brilhando por conta do que acabaram de ver. Frozen 2 traz muito para todos os públicos e mostra que a magia não fica mais velha e batida com o tempo, mas acaba fortalecida com elementos novos e descobertas. A jornada de descobrimento é constante e quando os créditos sobem, a gente já começa a ficar ansioso pela próxima.


Fonte: Canaltech

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