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Crítica | Deixe a Neve Cair erra o tom na adaptação do livro para as telas

Beatriz Vaccari

Foi dada a largada para as comédias românticas natalinas invadirem os cinemas e plataformas de streaming. A Netflix, que já tinha anunciado no final de 2018 que adaptaria a obra de 2008 escrita por John Green, Maureen Johnson e Lauren Myracle, Deixe a Neve Cair, estreou na última sexta-feira o longa-metragem homônimo, com um elenco recheado de rostinhos que estão destacando-se cada vez mais no cinema adolescente.

O livro conta a história de três jovens e suas experiências diante da grande nevasca prestes a cair na fictícia cidade de Gracetown, na véspera de Natal. Cada conto é escrito por um autor e parte do ponto de vista de cada personagem. Já em sua adaptação audiovisual, a Netflix optou por inserir mais duas histórias no enredo que, assim como o livro, vão se cruzar alguma hora.

O Expresso Jubileu

Esse é o primeiro conto do livro, escrito por Maureen Johnson. Ele acompanha a história de Jubileu, uma garota que acaba tendo que passar o natal com os avós, após os pais serem presos em um engano envolvendo a loja em que trabalham. Contra sua vontade, Jubileu pega um trem com destino à cidade de sua avó, porém, com a nevasca na cidade, o veículo para sem previsão de volta, obrigando todos os passageiros a descerem e esperarem em Gracetown. É aí que entra a Waffle House, um dos elementos mais marcantes e presentes em todas as histórias do livro e que não construiu nenhuma identidade na adaptação da Netflix. Jubileu, que está com o namoro balançado, acaba conhecendo Stuart e vivendo uma daquelas histórias românticas clichês, enquanto espera o trem seguir viagem.

No filme, o enredo muda completamente: Julie (Isabela Moner) acabou de ser aceita em uma universidade de Nova York, mas se vê impedida de sair de sua cidade natal uma vez que sua mãe está doente, e a garota não quer abandoná-la. A caminho para a casa de sua mãe, Julie acaba esbarrando com Stuart no trem, um astro pop famoso que está a procura de um lugar para passar uma véspera de Natal "como um garoto normal". Os dois até chegam a visitar a Waffle House logo que o trem quebra, mas o local acaba passando totalmente despercebido, uma vez que logo deixam a lanchonete e partem em direção à casa de Julie. No fim, um conto que é tido como o favorito de muitos leitores do livro acabou sendo totalmente reescrito e perdendo momentos marcantes da história, como quando o casal cai no lago congelado ou a dúvida de Jubileu de permanecer ou não no seu antigo relacionamento.

O Milagre da Torcida de Natal

O segundo conto, escrito por John Green, traz um trio de amigos de infância, formado por uma garota e dois garotos. Os três acabam sabendo sobre o trem impedido de seguir viagem e que transportava uma equipe de líderes de torcida, o que chamou a atenção dos dois elementos masculinos do trio em questão: Tobin (Mitchell Hope) e JP (Matthew Noszka). Logo, eles partem até a Waffle House para terem a chance de conversar com as garotas. Já Duke (Kiernan Shipka), presa na friendzone com os dois amigos, acaba passando despercebida por eles, uma vez que também tem o jeito "mais moleca" - aliás, o que o filme não explica é a origem do apelido dela, criado a partir de uma lojinha da cidade chamada Duke and Duchess (Duque e Duquesa, em português), onde ela acabou confundida com um Duke, ou seja, alguém do gênero masculino.

No filme, o trio acaba virando um caso mal projetado de triângulo amoroso, uma vez que Tobin demonstra desde o início estar perdidamente apaixonado por Duke. Já JP praticamente não existe no início da história e acaba aparecendo só depois, como um candidato a ser o interesse amoroso de Duke, mas sem o menor desenvolvimento dos motivos que levam a isso.

O Santo Padroeiro dos Porcos

O último conto do livro é escrito por Lauren Myracle e acompanha a história de Addie, que se vê tentando lidar com o término de seu namoro com Jeb na véspera de Natal, ao mesmo tempo que tenta conseguir um porquinho de estimação para a melhor amiga, Tegan, que a acusa de ser egoísta.

No filme, o foco é outro: Addie fica como uma personagem que beira o insuportável, demonstrando ser uma pessoa totalmente abusiva e possessiva com o (ex) namorado, dificilmente tendo cenas com a melhor amiga, que na adaptação para as telas chama-se Dorrie. A história retratada no livro, com todo o esforço de Addie para conseguir adotar o porco de estimação para a melhor amiga, não é transmitida para as telas. Na versão do Netflix, o foco é a relação de Addie com Jeb. O animal só aparece nos primeiros minutos do filme, e depois, no final, sem o objetivo de simbolizar a amizade verdadeira entre as duas personagens, que é o principal mote na obra literária.

Outros elementos

O livro também conta com a existência de um personagem que veste roupas de alumínio, e sempre que questionado por alguns personagens sobre o traje, rebate: "Que alumínio?". Um dos elementos mais marcantes da obra foi interpretado por Joan Cusack, que narra a história, e apesar de marcar presença com a roupa metálica, faz sua maior aparição dando carona para Addie, e olhe lá.

Veredito

De um modo geral, Deixe a Neve Cair acaba sendo uma decepção maior para quem leu o livro. Porém, mesmo quem não conhece as histórias, também percebe que a adaptação para o formato audiovisual deixa muito a desejar. Durante os pouco mais de 90 minutos do longa, a impressão toda é de desleixo na produção e na condução das tramas.

Dirigido por Luke Snellin, o filme acaba sendo um exemplo do que não fazer quando se trata de comédias românticas. Tratando-se de histórias de romance, amizade e família num clima natalino, parecia ser quase impossível errar. Mas é o que acontece nesse filme, não sendo agradável de se assistir até para quem não leu o livro. O espectador dificilmente consegue acompanhar todos os acontecimentos ao mesmo tempo, já que as histórias vão sendo literalmente jogadas sem nenhum tipo de enredo ou construção de personagens, como se tivesse sido feito às pressas para entregar no prazo.

Que fique claro: é totalmente natural e compreensivo a adaptação ter mais elementos e mudanças na história, complementando o livro, como foi o caso, por exemplo, do segundo volume da saga Divergente: Insurgente e com o filme lançado em 2015. Embora na série não exista vários elementos que foram inseridos no filme, a história não se perdeu e continuou cativando os fãs dos livros. Não é isso que acontece com Deixe a Neve Cair.

Para não dizer que foi tudo um desastre, uma surpresa agradável na adaptação é a inclusão de um casal LGBT na história, interpretado por Liv Hewson, uma adolescente assumidamente lésbica, que está apaixonada por uma cheerleader, vivida por Anna Akana, que está com medo de revelar sua sexualidade para os amigos e familiares. Entre todos os "causos" contados, essa é a que mais dá certo em todo o filme.

Afinal de contas, é impossível estragar 100% um filme natalino. Mas esse chegou perto...


O filme está disponível no catálogo da Netflix.

Fonte: Canaltech

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