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Crítica | Crimes na Madrugada é um grande jogo de encontre os erros

Laísa Trojaike

Crimes na Madrugada é, em termos de gênero, um perfeito filme de ação maniqueísta, com elementos populares, como porradaria, perseguição de carro, tiroteio e uma trama mirabolante. Em uma gama que vai de “filmes tão ruins dos quais (quase) ninguém gosta” a “obras-primas que moldaram o gênero”, existe uma grande faixa reservada aos filmes medianos que serão esquecidos em pouquíssimo tempo. Acredito que Crimes na Madrugada (disponível na Netflix) está destinado a essa grande faixa.

O esquecimento de muitas obras é inevitável, claro. Além disso, não podemos exigir que cada filme feito seja um marco histórico. Não compreendo, porém, a aparente falta de senso crítico de uma equipe sobre si mesma, arriscando, inclusive, a ideia de uma possível sequência.

Atenção! A partir daqui a crítica pode conter spoilers.

Personagens

Vincent (Jamie Foxx) enfrenta o drama do agente infiltrado que, ao manter sigilo sobre seu trabalho, acaba se vendo afastado da família. É confuso, no entanto, como as imagens mostram, sobretudo na atuação de Foxx, um personagem aparentemente vilanesco. O roteiro de Andrea Berloff parece ter sido criado a partir do clímax, que é o plot twist do policial corrupto que, na verdade, é do bem e salva o dia revelando que o policial do bem é, na verdade, um dos principais vilões. Praticamente um episódio de Scooby-Doo. As demais partes do roteiro são, então, criadas a partir desse ponto central, com todas as ações confabulando para chegarem juntas ao mesmo ponto e ao mesmo tempo.

Imagem: Open Road Films

Não só o personagem de Foxx sofre com isso: a enfermeira Dena (Gabrielle Union) esperou o momento exato para ir ao Luxus, pai e filho pareciam ajudar seus inimigos diante de tantas decisões questionáveis, Thomas (Octavius J. Johnson) é um exímio piloto no auge dos seus 16 anos, além do terrível Novak (Scoot McNairy), que expressa sua crueldade máxima ao ordenar que a língua do seu primo fosse cortada, assemelhando-se à realidade do tráfico tanto quanto uma girafa se assemelha a um abacate.

O filme todo, na verdade, parece uma grande improbabilidade: ainda que possível, é difícil de acreditar que, de todas as possibilidades de ação, alguém como Vincent escolheria de fato esconder grande parte da droga no teto do banheiro. A atitude desse personagem indica que, desde o princípio da trama, as ações estavam sendo manipuladas com vistas a um objetivo específico. Caso Vincent tivesse entregado a droga toda e recuperado o filho, não haveria motivos para tiro, porrada e bomba.

Tem mais...

São muitos os erros de continuidade, sobretudo no que diz respeito à integridade física dos personagens, como ao curar magicamente a mão de Thomas ou ignorar os ferimentos de Vincent, quase nos levando a questionar a humanidade deles. Em alguns momentos, cheguei a questionar se o filme teria contado com pelo menos um continuísta no set, mas descobri que teve, como de costume em qualquer grande produção, um departamento dedicado à continuidade, liderado por Wilma Garscadden-Gahret, que tem excelentes títulos no currículo.

Bryant (Michelle Monaghan) é provavelmente a personagem mais verossímil da história, à exceção do momento em que resolve soltar um clichê feminista em meio à batalha de testosteronas.

Imagem: Open Road Films

Mais inacreditável que a estrutura do roteiro é o fato de que tudo isso é dirigido por Baran bo Odar, criador e diretor de diversos episódios de Dark, cuja estrutura narrativa é tão impecável quanto surpreendente. Esteticamente, Crimes na Madrugada também se distancia da série alemã, que tem direção e fotografia espetaculares.

Ainda assim, Crimes na Madrugada está entre os dez filmes mais vistos do Brasil na Netflix, o que indica que, apesar de tudo, talvez o filme consiga cumprir pelo menos a função de entretenimento e, se tiver sorte, gerar dinheiro o suficiente para cultivar os agentes do DEA como vilões de uma sequência. Em tempos de John Wick, no entanto, é uma tarefa árdua fazer emplacar um novo herói de ação.

Fonte: Canaltech

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