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Crítica | Convenção das Bruxas é uma diversão irresponsável

Sihan Felix
·4 minuto de leitura

A discussão sobre a necessidade ou não de se refazer um filme pode já estar cansativa. Talvez, o caminho mais tranquilo a se pensar é aquele que leva em consideração, justamente, a nova produção. Se ela surge com alguma novidade, mudanças na linguagem, uma forma que ajude a atualizar a anterior e a manter sem datação, pode ser mais fácil aceitar a sua existência. O novo Convenção das Bruxas, então, fica equilibrado no meio de tudo, sendo um forte divisor de opiniões.

Isso porque não existem mudanças significativas na história, que, em muitas sequências, dá a impressão de ter se utilizado do roteiro do filme de 1990. É verdade que a história original é literária, de Roald Dahl — autor de tantos outras obras que foram adaptadas —, mas a sensação de que não existe um olhar guiando a narrativa pode incomodar a quem assistiu ao filme de 1990 (de Nicolas Roeg — diretor do clássico Inverno de Sangue em Veneza). Pesa, pois, o fato novidade.

Por um lado e por outro

Acontece que existem, sim, mudanças, sendo algumas delas nas entrelinhas. Enquanto a mais drástica diz respeito aos efeitos visuais, outras ficam entre os subtextos, com o elenco protagonista sendo composto por Jahzir Bruno e Octavia Spencer: ambos negros e deixando, subentendidos, comentários pertinentes sobre questões raciais. Mas são pinceladas suaves, aparentemente com a intenção de não provocar e alcançar um público mais heterogêneo.

<em>Neto e avó, donos das entrelinhas. (Imagem: Divulgação/Warner Bros. Entertainment)</em>
Neto e avó, donos das entrelinhas. (Imagem: Divulgação/Warner Bros. Entertainment)

Nesse sentido, Robert Zemeckis, diretor de tantos trabalhos inesquecíveis — como a trilogia De Volta para o Futuro (1985, 1989 e 1990), Forrest Gump: O Contador de Histórias (1994) e O Expresso Polar (2004) —, permanece, do início ao fim, tímido demais em sua abordagem. Ou, de repente, respeitoso em excesso com o original. Por um lado, é um respeito cuidadoso, que não está interessado em ser melhor, mas, justamente, manter viva a aura da história de Dahl; por outro, acaba dando a este Convenção das Bruxas um sabor requentado.

A caricata graça imprudente

Há, claro, a antagonização de Anne Hathaway. É ela que, junto a Zemeckis, tende a transformar o todo em um filme muito mais direcionado à infância do que aquele de Roeg. Inclusive, a computação gráfica — pouco realista aqui — ajuda a deixar tudo muito mais digerível e menos traumatizante para os pequenos. Nesse sentido, existe uma fuga do realismo para alcançar uma fantasia muito mais divertida do que aterrorizante.

Nesse ponto, as atuações de Hathaway e Angelica Houston (a líder das bruxas de 30 anos atrás) são quase opostas. Enquanto Houston é grandiosa e uma das expressões mais certeiras da falsidade no cinema — o estigma das aparências que enganam —, Hathaway é cartunesca. Voz, sotaque, expressões faciais, gestual... tudo o que é construído em cima da atriz traz um ar de vulnerabilidade que pode deixar o terror muito mais confortável. Se para adultos isso pode ser péssimo, para o público infantojuvenil pode trazer a graça necessária para que o filme seja, de fato, uma atualização.

<em>Hathaway e o terror confortável. (Imagem: Divulgação/Warner Bros. Entertainment)</em>
Hathaway e o terror confortável. (Imagem: Divulgação/Warner Bros. Entertainment)

Nesse mesmo quesito, acaba que uma escolha deliberada pode soar como totalmente irresponsável: a sugestão, mesmo que sem a intenção, da vilania de pessoas com deficiência. Por mais que seja ficção, é uma opção inconsequente, de um profundo desrespeito e que releva o poder que um filme pode ter na mente de um espectador em formação. Para uma criança, à vista disso, as associações sobre diferenças físicas após o contato com as bruxas do filme em questão poderá ser as piores possíveis.

Trauma, diversão ou debate

Para mais, o Convenção das Bruxas de Zemeckis não tem a mesma vida que os trabalhos citados do diretor, mas também não tem vergonha ao buscar, em resumo, atualizar o público da obra e não o filme em si. Por essa perspectiva, a divisão de opiniões pode estar exatamente nisso: é muito provável que gerações mais recentes sejam defensoras deste novo enquanto aqueles que vivenciaram o anterior descartem quase que completamente essa abordagem Chris Columbus de ser (em referência ao diretor de Harry Potter e a Pedra Filosofal — filme de 2001).

De todo modo, Convenção das Bruxas, assim como a maioria dos reboots e remakes, é um divisor de opiniões desde o berço. Resta, no final das contas, assistir ao filme para a construção de uma opinião pessoal. Como não existe veredicto definitivo para o cinema nesse caso, fica, assim, a fantasia de certa maneira traumatizante de Roeg contra a diversão imprudente (no mínimo) de Zemeckis. Ou ambas podem existir em comunhão, porque todas as comparações e discussões são válidas se nos mantivermos, enfim, pensando o cinema.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech.

Fonte: Canaltech

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